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Entrevista de Gabriel O Pensador à revista ISTO É, publicada em junho de 2001. Gabriel agora está ensaiando com a banda - Fernando Magalhães (guitarrista do Barão Vermelho) e Lorival nos teclados - sempre ao lado da esposa, Ana Célia Lima. "Eu e Ana estamos muito juntos, não estamos acostumados a ficarmos sozinhos". A nova turnê ainda não tem data marcada, mas o músico planeja percorrer o Brasil, Portugal e o Japão. No Rio, o público carioca vai conferir o show em setembro. 1993, 1995, 1997, 1999 e 2001. É alguma superstição lançar um disco de dois em dois anos ou apenas coincidência? Não é de propósito. Acho que poderia lançar um disco mais cedo da próxima vez porque já estou com muita letra. Mas acabo gastando tempo em turnê (às vezes dura um ano). A cabeça se acostuma com esse ciclo também. Quando estou em estúdio, fico voltado só para aquilo. Eu encerro a turnê e fico ensaiando direto. Antes disso, tem uns meses para escrever letras, me concentrar e me preparar para o estúdio. Eu lançaria um CD antes, mas não tenho previsão para o próximo. A princípio não existe uma regra nem minha nem da gravadora em relação a isso. O último disco - Seja você mesmo (mas não seja sempre o mesmo) - traz um discurso mais politizado que os anteriores? Isso é muito relativo. O que aconteceu foi que nos últimos álbuns, as músicas tocadas nas rádios eram as menos politizadas. Mas a minha crítica sempre esteve presente. Acho que esse sempre foi meu lado mais forte. O CD foi produzido pelo Itaal Shur, um dos compositores de Smooth, do álbum Supernatural do Santanna. Como foi esse intercâmbio? Saiu uma informação errada da gravadora e muita gente estava pensando que o Itaal tinha produzido Smooth. Na verdade ele é um dos compositores dessa música. Como você conheceu o Itaal? Ele mora em Nova Iorque, fala português e já tinha vindo ao Brasil umas três vezes. O Itaal já tinha ouvido o meu trabalho e gostou. Ligou para mim e se apresentou como o cara que tinha ganho o Grammy. Logo depois me chamou para fazer um som. Eu não tinha entendido muito bem se era para algum projeto dele, então deixei rolar. Nos encontramos em NI, quando fui fazer um show lá. Depois, encontrei-o em seu estúdio e ele me explicou que além de compor, também produzia e estava a fim de compor para o meu CD. Tínhamos pensado em fazer uma ou duas músicas e acabamos fazendo seis. Como foi feita a "Até Quando"? A música é minha, do Thiago Mocotó e do Itall Shur. Fiz a letra há mais de um ano e acrescentei um trecho feito para uma outra letra, com meu irmão Thiago. O Itaal puxou mais para o rock'n'roll, sugeriu as guitarras, e eu me empolguei com isso. O resultado desta faixa me influenciou em outras no disco. Por que escolheu essa canção como a música de trabalho? Nesse disco fiz questão de escolher uma música mais séria para divulgar antes das outras. O CD tem de tudo, mas o momento está pedindo isso. Estamos sufocados por tanta alienação, tanto comodismo, tanta impunidade às coisas que estão rolando. A letra é uma conversa direta com o ouvinte, seja rico, pobre ou de classe média. O Brasil está precisando da nossa voz, da nossa atitude e participação. E a gente tem que estar cada vez mais informado em relação a tudo o que está acontecendo. Vejo a galera indignada, mas continua desinformada, acomodada ou achando que não tem força suficiente para mudar. A música pode contribuir para uma mudança? Ainda acredito que a música ajuda as pessoas a acreditarem também. Tanta porrada que a gente recebe no dia-a-dia. Precisamos transformar a indignação em ação. E não ficar no rancor e na falta de esperança que, às vezes, toma conta do brasileiro. "Pobre, rico ou classe média... Até quando você vai ficar usando rédea... até quando você vai ficar de saco de pancada?" - acho que essa pergunta pode ajudar as pessoas a acreditarem, assim como eu ainda acredito na gente. Em outras músicas a guitarra continuou presente. Gostou da idéia de explorar o rock? Quando fui continuar o álbum com o Liminha, ele estava tocando muita guitarra, e a gente explorou mais isso. Também chamei o Digão (músico do Raimundos). O lado mais rock está chamando bastante atenção, mas o som continua eclético. O Chico Neves produziu uma outra faixa, que fiz com o Lenine, e se chama "Brasa". Ou seja, tem bastante coisa diferente. "O Napster � �timo" Antes de come�ar a compor, voc� come�ou a estudar Comunica��o. Por que parou? Estava empolgado fazendo jornalismo. Mas nessa �poca j� estava cheio de letras de rap, querendo muito gravar um CD e tamb�m estava come�ando a fazer algumas apresenta��es. Entrei na faculdade em 1992 e j� no segundo semestre rolou "To feliz, matei o presidente". A m�sica foi para as r�dios. A� eu quis dar s� uma 'trancadinha' r�pida, e acabei voltando. Mas parou de vez. Quando voltei para a faculdade, no segundo per�odo ainda, assinei o meu contrato com a Sony e tranquei de vez. Tenho at� curiosidade para saber com teria sido. Gostaria de fazer uma faculdade, mas n�o seria jornalismo mais. Foi uma �poca boa para minha cabe�a. Estava querendo expandir minhas id�ias, mas hoje n�o preciso estar na faculdade para ler muito, por exemplo. O que voc� est� achando do "Apag�o"? Est� sendo um s�mbolo do fracasso desse governo. N�o foi culpa da natureza por falta de chuva. Foi uma postura que o governo adotou desde o come�o de desrespeito e descaso com a popula��o. Agora as pessoas est�o sentido na pele ter que racionar luz, mas deveria estar sentindo antes, a cada milh�o desviado que sai do nosso bolso. � tamb�m fruto do nosso sil�ncio, o apag�o da nossa voz. Esse apag�o agora deve se transformar em um grito. Qual sua opini�o sobre o servi�o do Napster e afins? Eu conecto a rede s� para checar email e ver as condi��es do mar. J� pesquisei um pouco em alguns sites, hoje nem olhos mais. Os servi�os como o do napster s�o maravilhosos para o usu�rio. Se fosse regularizado seria realmente �timo. Mas isso n�o pode afetar a ind�stria fonogr�fica brasileira? O Napster n�o chegou a afetar tanto que a gente pudesse comprovar. A pirataria no camel�, por exemplo, afeta muito mais. Concordo que tenha que ter algum controle, mas n�o sei se seria correto bloquear. Voc� se sente prejudicado com isso? N�o chega a esse ponto, mas vejo as demiss�es nessa �rea. A ind�stria fonogr�fica est� passando por uma crise longa, desde que a pirataria come�ou a aumentar. Ganho pouco com o direito autoral. Acho que precisaria mudar tudo, a come�ar pelo pre�o do CD. Aplaudo o Lob�o pela iniciativa que teve. Ele conseguiu se tornar independente de tudo isso. Um recado para os internautas do JB Online... A m�sica de trabalho At� Quando? � a minha mensagem atual. A gente est� num momento de defini��o no pa�s. A imprensa est� mostrando muita coisa e a impunidade continua igual ou pior. Precisamos reagir a tantas porradas, tantos esc�ndalos, tanta decad�ncia. Quero poder, com isso, estimular essa esperan�a, que de vez em quando fica abalada. �s vezes tamb�m sinto isso, �s vezes a gente est� indignado e acha que n�o tem jeito. Em algumas faixas do CD passo um otimismo que vai depender da nossa atitude. N�o � esperar para tudo melhorar. � simples, mas � importante ter algu�m para dizer essas coisas. Di�rio Noturno Reúne Textos e Poesias Nesse e em outros discos voc� trabalha com sua esposa. Em que momentos voc� est� sozinho? Em alguns trabalhos, de divulga��o ou de est�dio, nos vemos muito pouco. Tem uma breve separa��o, que tamb�m � saud�vel. Mas estamos muito juntos, n�o estamos acostumados a ficar sozinhos. H� quanto tempo est�o juntos? � comum ouvir que os artistas s�o solit�rios. Estamos casados h� seis anos, sete contando o namoro. E � �timo. O artista realmente tem a tend�ncia de se sentir sozinho na estrada. Apesar dos amigos, a banda acaba sendo um tipo de fam�lia, mas a esposa leva um pouquinho da minha casa, do lado bom. O artista tem uma rela��o muito forte com a solid�o, mesmo estando com algu�m. Mas nossa rela��o n�o tem lado ruim, � bem equilibrada. Quando v�o come�ar os show? � verdade que voc� vai para o Jap�o? Ainda estamos na metade dos ensaios. Estaremos prontos para ir para a estrada a partir do m�s que vem. Vamos correr o Brasil e tamb�m Portugal. O Jap�o seria em julho, mas estamos tentando adiar. No Rio, o show vai ser em setembro, no Canec�o. No disco N�degas a Declarar a m�sica Cant�o foi inspirada na Turma de S�o Conrado, da Rocinha. Voc� mant�m contato com esse pessoal? Mantenho, na praia principalmente. A gente pega onda (eu moro l� ainda), que ali�s est� poluid�ssima. Tenho contato com algumas figuras, mas � direcionado ao surf. Voc� continua surfando? Sempre olho o esgoto para decidir se eu vou para o mar. A galera vai, mas como sou privilegiado e tenho carro, prefiro outros lugares. Sempre vejo as crian�as nadando na po�a do val�o, uma mistura do mar com o esgoto mesmo. A m�sica 2345meia78 foi pol�mica em dose dupla. Houve problema por causa do n�mero e por causa da suposta voz da Cl�udia Cruz, que n�o teria sido devidamente autorizada. Como ficaram os casos? Nenhum deles deu em nada. N�o usamos a voz da Cl�udia no disco e sim a voz gravada da Telerj. Fizemos uma imita��o. O n�mero 2345meia78 causou problema sim. Algumas pessoas que tinham esse n�mero no telefone, ou parecidos, realmente receberam trote. E n�o foi uma s�, foram de v�rias cidades. Quando a gravadora sabia das est�rias, entrava em contato com as pessoas prejudicadas. Mas muitos j� n�o queriam trocar a linha. Voc� est� aproveitando o embalo do CD e tamb�m est� lan�ando o seu primeiro livro, o Di�rio Noturno. Como surgiu essa id�ia? A id�ia foi se consolidando aos poucos. Eu j� escrevia quando era adolescente, mas comecei a escrever para valer em 1998. Antes do rap, gostava de escrever poesias, textos e prosas para mim mesmo, como se fosse um di�rio, um desabafo. Ent�o foi em 98 que voc� realmente se engajou no livro? Nesse ano eu voltei a escrever poesia e me empolguei com a id�ia de escrever um livro, mas o projeto ficou meio de lado. Depois eu encontrei v�rias coisas antigas e juntei a id�ia dos poemas de adolescente com o que eu havia escrito recentemente. Qual a diferen�a entre escrever uma m�sica e seus poemas? Voc� pretende expressar, desta forma, algum sentimento que n�o consegue nas m�sicas? Eu abri um canal de comunica��o comigo mesmo e com os outros para falar de tudo que eu quisesse, da forma que eu quisesse sem pudor. Vai desde o amor � morte, Deus, Brasil, e pol�tica. � um complemento da m�sica. Esse novo canal � totalmente livre. Posso, num momento, estar falando de amizade, de saudade, e em outra hora estar falando de um show que fiz, contando a emo��o que senti quando estava no palco.

Entrevista de Gabriel O Pensador à revista ISTO É, publicada em junho de 2001.

Gabriel agora está ensaiando com a banda - Fernando Magalhães (guitarrista do Barão Vermelho) e Lorival nos teclados - sempre ao lado da esposa, Ana Célia Lima. "Eu e Ana estamos muito juntos, não estamos acostumados a ficarmos sozinhos". A nova turnê ainda não tem data marcada, mas o músico planeja percorrer o Brasil, Portugal e o Japão. No Rio, o público carioca vai conferir o show em setembro.

1993, 1995, 1997, 1999 e 2001. É alguma superstição lançar um disco de dois em dois anos ou apenas coincidência? Não é de propósito. Acho que poderia lançar um disco mais cedo da próxima vez porque já estou com muita letra. Mas acabo gastando tempo em turnê (às vezes dura um ano). A cabeça se acostuma com esse ciclo também. Quando estou em estúdio, fico voltado só para aquilo. Eu encerro a turnê e fico ensaiando direto. Antes disso, tem uns meses para escrever letras, me concentrar e me preparar para o estúdio. Eu lançaria um CD antes, mas não tenho previsão para o próximo. A princípio não existe uma regra nem minha nem da gravadora em relação a isso.

O último disco - Seja você mesmo (mas não seja sempre o mesmo) - traz um discurso mais politizado que os anteriores? Isso é muito relativo. O que aconteceu foi que nos últimos álbuns, as músicas tocadas nas rádios eram as menos politizadas. Mas a minha crítica sempre esteve presente. Acho que esse sempre foi meu lado mais forte.

O CD foi produzido pelo Itaal Shur, um dos compositores de Smooth, do álbum Supernatural do Santanna. Como foi esse intercâmbio? Saiu uma informação errada da gravadora e muita gente estava pensando que o Itaal tinha produzido Smooth. Na verdade ele é um dos compositores dessa música.

Como você conheceu o Itaal? Ele mora em Nova Iorque, fala português e já tinha vindo ao Brasil umas três vezes. O Itaal já tinha ouvido o meu trabalho e gostou. Ligou para mim e se apresentou como o cara que tinha ganho o Grammy. Logo depois me chamou para fazer um som. Eu não tinha entendido muito bem se era para algum projeto dele, então deixei rolar. Nos encontramos em NI, quando fui fazer um show lá. Depois, encontrei-o em seu estúdio e ele me explicou que além de compor, também produzia e estava a fim de compor para o meu CD. Tínhamos pensado em fazer uma ou duas músicas e acabamos fazendo seis.

Como foi feita a "Até Quando"? A música é minha, do Thiago Mocotó e do Itall Shur. Fiz a letra há mais de um ano e acrescentei um trecho feito para uma outra letra, com meu irmão Thiago. O Itaal puxou mais para o rock'n'roll, sugeriu as guitarras, e eu me empolguei com isso. O resultado desta faixa me influenciou em outras no disco.

Por que escolheu essa canção como a música de trabalho? Nesse disco fiz questão de escolher uma música mais séria para divulgar antes das outras. O CD tem de tudo, mas o momento está pedindo isso. Estamos sufocados por tanta alienação, tanto comodismo, tanta impunidade às coisas que estão rolando. A letra é uma conversa direta com o ouvinte, seja rico, pobre ou de classe média. O Brasil está precisando da nossa voz, da nossa atitude e participação. E a gente tem que estar cada vez mais informado em relação a tudo o que está acontecendo. Vejo a galera indignada, mas continua desinformada, acomodada ou achando que não tem força suficiente para mudar.

A música pode contribuir para uma mudança? Ainda acredito que a música ajuda as pessoas a acreditarem também. Tanta porrada que a gente recebe no dia-a-dia. Precisamos transformar a indignação em ação. E não ficar no rancor e na falta de esperança que, às vezes, toma conta do brasileiro. "Pobre, rico ou classe média... Até quando você vai ficar usando rédea... até quando você vai ficar de saco de pancada?" - acho que essa pergunta pode ajudar as pessoas a acreditarem, assim como eu ainda acredito na gente.

Em outras músicas a guitarra continuou presente. Gostou da idéia de explorar o rock? Quando fui continuar o álbum com o Liminha, ele estava tocando muita guitarra, e a gente explorou mais isso. Também chamei o Digão (músico do Raimundos). O lado mais rock está chamando bastante atenção, mas o som continua eclético. O Chico Neves produziu uma outra faixa, que fiz com o Lenine, e se chama "Brasa". Ou seja, tem bastante coisa diferente.

"O Napster � �timo"

Antes de come�ar a compor, voc� come�ou a estudar Comunica��o. Por que parou? Estava empolgado fazendo jornalismo. Mas nessa �poca j� estava cheio de letras de rap, querendo muito gravar um CD e tamb�m estava come�ando a fazer algumas apresenta��es. Entrei na faculdade em 1992 e j� no segundo semestre rolou "To feliz, matei o presidente". A m�sica foi para as r�dios. A� eu quis dar s� uma 'trancadinha' r�pida, e acabei voltando.

Mas parou de vez. Quando voltei para a faculdade, no segundo per�odo ainda, assinei o meu contrato com a Sony e tranquei de vez. Tenho at� curiosidade para saber com teria sido. Gostaria de fazer uma faculdade, mas n�o seria jornalismo mais. Foi uma �poca boa para minha cabe�a. Estava querendo expandir minhas id�ias, mas hoje n�o preciso estar na faculdade para ler muito, por exemplo.

O que voc� est� achando do "Apag�o"? Est� sendo um s�mbolo do fracasso desse governo. N�o foi culpa da natureza por falta de chuva. Foi uma postura que o governo adotou desde o come�o de desrespeito e descaso com a popula��o. Agora as pessoas est�o sentido na pele ter que racionar luz, mas deveria estar sentindo antes, a cada milh�o desviado que sai do nosso bolso. � tamb�m fruto do nosso sil�ncio, o apag�o da nossa voz. Esse apag�o agora deve se transformar em um grito.

Qual sua opini�o sobre o servi�o do Napster e afins? Eu conecto a rede s� para checar email e ver as condi��es do mar. J� pesquisei um pouco em alguns sites, hoje nem olhos mais. Os servi�os como o do napster s�o maravilhosos para o usu�rio. Se fosse regularizado seria realmente �timo.

Mas isso n�o pode afetar a ind�stria fonogr�fica brasileira? O Napster n�o chegou a afetar tanto que a gente pudesse comprovar. A pirataria no camel�, por exemplo, afeta muito mais. Concordo que tenha que ter algum controle, mas n�o sei se seria correto bloquear.

Voc� se sente prejudicado com isso? N�o chega a esse ponto, mas vejo as demiss�es nessa �rea. A ind�stria fonogr�fica est� passando por uma crise longa, desde que a pirataria come�ou a aumentar. Ganho pouco com o direito autoral. Acho que precisaria mudar tudo, a come�ar pelo pre�o do CD. Aplaudo o Lob�o pela iniciativa que teve. Ele conseguiu se tornar independente de tudo isso.

Um recado para os internautas do JB Online... A m�sica de trabalho At� Quando? � a minha mensagem atual. A gente est� num momento de defini��o no pa�s. A imprensa est� mostrando muita coisa e a impunidade continua igual ou pior. Precisamos reagir a tantas porradas, tantos esc�ndalos, tanta decad�ncia. Quero poder, com isso, estimular essa esperan�a, que de vez em quando fica abalada. �s vezes tamb�m sinto isso, �s vezes a gente est� indignado e acha que n�o tem jeito. Em algumas faixas do CD passo um otimismo que vai depender da nossa atitude. N�o � esperar para tudo melhorar. � simples, mas � importante ter algu�m para dizer essas coisas.

Di�rio Noturno Reúne Textos e Poesias

Nesse e em outros discos voc� trabalha com sua esposa. Em que momentos voc� est� sozinho? Em alguns trabalhos, de divulga��o ou de est�dio, nos vemos muito pouco. Tem uma breve separa��o, que tamb�m � saud�vel. Mas estamos muito juntos, n�o estamos acostumados a ficar sozinhos.

H� quanto tempo est�o juntos? � comum ouvir que os artistas s�o solit�rios. Estamos casados h� seis anos, sete contando o namoro. E � �timo. O artista realmente tem a tend�ncia de se sentir sozinho na estrada. Apesar dos amigos, a banda acaba sendo um tipo de fam�lia, mas a esposa leva um pouquinho da minha casa, do lado bom. O artista tem uma rela��o muito forte com a solid�o, mesmo estando com algu�m. Mas nossa rela��o n�o tem lado ruim, � bem equilibrada.

Quando v�o come�ar os show? � verdade que voc� vai para o Jap�o? Ainda estamos na metade dos ensaios. Estaremos prontos para ir para a estrada a partir do m�s que vem. Vamos correr o Brasil e tamb�m Portugal. O Jap�o seria em julho, mas estamos tentando adiar. No Rio, o show vai ser em setembro, no Canec�o.

No disco N�degas a Declarar a m�sica Cant�o foi inspirada na Turma de S�o Conrado, da Rocinha. Voc� mant�m contato com esse pessoal? Mantenho, na praia principalmente. A gente pega onda (eu moro l� ainda), que ali�s est� poluid�ssima. Tenho contato com algumas figuras, mas � direcionado ao surf.

Voc� continua surfando? Sempre olho o esgoto para decidir se eu vou para o mar. A galera vai, mas como sou privilegiado e tenho carro, prefiro outros lugares. Sempre vejo as crian�as nadando na po�a do val�o, uma mistura do mar com o esgoto mesmo.

A m�sica 2345meia78 foi pol�mica em dose dupla. Houve problema por causa do n�mero e por causa da suposta voz da Cl�udia Cruz, que n�o teria sido devidamente autorizada. Como ficaram os casos? Nenhum deles deu em nada. N�o usamos a voz da Cl�udia no disco e sim a voz gravada da Telerj. Fizemos uma imita��o. O n�mero 2345meia78 causou problema sim. Algumas pessoas que tinham esse n�mero no telefone, ou parecidos, realmente receberam trote. E n�o foi uma s�, foram de v�rias cidades. Quando a gravadora sabia das est�rias, entrava em contato com as pessoas prejudicadas. Mas muitos j� n�o queriam trocar a linha.

Voc� est� aproveitando o embalo do CD e tamb�m est� lan�ando o seu primeiro livro, o Di�rio Noturno. Como surgiu essa id�ia? A id�ia foi se consolidando aos poucos. Eu j� escrevia quando era adolescente, mas comecei a escrever para valer em 1998. Antes do rap, gostava de escrever poesias, textos e prosas para mim mesmo, como se fosse um di�rio, um desabafo.

Ent�o foi em 98 que voc� realmente se engajou no livro? Nesse ano eu voltei a escrever poesia e me empolguei com a id�ia de escrever um livro, mas o projeto ficou meio de lado. Depois eu encontrei v�rias coisas antigas e juntei a id�ia dos poemas de adolescente com o que eu havia escrito recentemente.

Qual a diferen�a entre escrever uma m�sica e seus poemas? Voc� pretende expressar, desta forma, algum sentimento que n�o consegue nas m�sicas? Eu abri um canal de comunica��o comigo mesmo e com os outros para falar de tudo que eu quisesse, da forma que eu quisesse sem pudor. Vai desde o amor � morte, Deus, Brasil, e pol�tica. � um complemento da m�sica. Esse novo canal � totalmente livre. Posso, num momento, estar falando de amizade, de saudade, e em outra hora estar falando de um show que fiz, contando a emo��o que senti quando estava no palco.