16/01/02

ATÉ QUANDO?

por Isabel Machado*

"Estou revoltada com o assassinato de Rosana Rangel Melotti, a dona-de casa que foi seqüestrada e fuzilada na frente de sua casa em Campinas, porque a família não pagou o resgate. Mas eu me pergunto se minha revolta vale alguma coisa. Vale ?

Uma revolta vale algo ? E centenas ? E milhões de revoltas ?

Os argentinos estão batendo panelas. E nós ? Até quando a gente vai ficar sem fazer nada ?

Ah, mas brasileiro é tão bonzinho ! Já dizia Kate Lira, aquela atriz americana no programa humorístico que já nem sei qual era. Seria a “Praça da Alegria ?”

O que sei é que a praça não é mais nossa. Nem a rua, nem o emprego, nem o carro, moto, bicicleta ou patinete. Quer saber ? Nem o chinelo.

Nem os filhos, o marido, nem a sogra, a mãe, o pai, nada.

Estamos rendidos nas mãos do inimigo (?). Que pode ser o vizinho, o jardineiro, o traficante ou policial. Ou o político que você não escolheu. E o que você escolheu também.

Não sei o que será de nossas almas, que vagam moribundas nessas terras de tamanha onipotência.

Não sei o que será dessa família de Campinas, estupefata como todos nós. Ou melhor, quase igual a todos nós, porque uma família destruída tem dor única.

Não sei o que será dos pobres coitados, proibidos de usar vermelho no Rio de Janeiro. Pra não serem confundidos com o comando que manda. Manda e mata. E ri do ditado “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Ri não, gargalha.

Não sei o que será das crianças da Creche Professor Paulo Freire, olhando o néon do TC – Terceiro Comando, que brilhou por vários dias no céu do Morro da Casa Branca, no Rio. Ali, ao lado delas, vende-se a droga da vida que não é delas.

Não sei o que será dos que nada tem e que, por isso, não têm nada a perder. E daqueles que têm tudo, tudo em excesso, até a cegueira dos medíocres.

Mas, até quando ? Até quando a gente vai levando ? Até quando a gente vai ficar sem fazer nada ?

Até quando a gente vai assistir essa polícia bandida ? Que trafica dentro do DENARC – Departamento de Investigações sobre Narcotráfico, em Sampa ?

Até quando vamos ficar esperando que o promotor Igor Ferreira da Silva, condenado a 16 anos e 4 meses de prisão pelo assassinato de sua mulher, em Atibaia, se entregue ?

Até quando vamos rezar pelos seqüestrados ? E orar para não ser o próximo ?

Até quanto as grades vão subir ? E os muros ? Haja tijolo...

Até quando o vidro do carro vai nos esconder ? E o insulfilme vai ser proteção ou armadilha ? E o pittbull ?

Até quando a chuva esperada vai rolar barracos abaixo ? E emprego vai ser agulha no palheiro ?

Até quando os direitos humanos serão humanos com todos ? Sem distinção ?

Até quando a gente vai evitar comprar jornal ? Até quando a gente vai deixar de ver o jornal nacional ? E sonhar que, por não ver, nada acontece ?

Até quando a gente vai se queixar nas preces ? Orar baixinho de uma vez só para todos os Santos, porque não há tempo a perder...

Até quando a gente vai levar ? Até quando a gente vai assistir tanta desgraça e ver tantos achando graça ?

E ainda tem gente rindo dos argentinos, torcendo pela miséria dos argentinos, sem enxergar a sua própria miséria. Com suas panelas guardadas no armário. Lustradas, impecáveis.

Até quando a gente vai levar porrada ? E ser saco de pancada ?

Pelo menos você, Gabriel, tenta responder. Gabriel, o Pensador, o cantador. Que bate panela à sua moda.

E você ? Até quando as panelas vão ficar te olhando e perguntando :

- Até quando?"

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* Isabel Machado – jornalista, assessora de imprensa e produtora de conteúdo para Internet como teletrabalhadora. - Santos/SP - 13.01.02
URL: www.webcanal.com.br/isabelmachado
E-mail: isabelmachado@bignet.com.br

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