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Álbum:
"CAVALEIRO ANDANTE "
Sony/BMG, 2005
1. Cavaleiro Andante
(Gabriel
o Pensador / Itaal Shur)
Não me arrependo nem do que eu não
fiz
não vou na onda desses imbecis
não tô na boca nem tô no nariz
quem fala muito não sabe o que diz
No meio do caminho pode ter uma pedra / mas no
meio dessa pedra pode ter um caminho / a pedra no caminho pode
ser um diamante / pode ser que ela me atrase, pode que eu me
adiante / Toda pedra pode ser um diamante / todo dia pode ser
um grande dia / toda noite pode ser aquela noite / aquela noite
não foi mas também podia / Aprendi na poesia anestesiante
/ e na porrada sagrada de cada dia / que a gente pode e deve
ser confiante / mas não pode dar mole nem quando a gente
confia
Refrão
Esqueceram um zero na minha conta / se der mole,
vagabundo monta, o esquema é uma cama de gato / mas não
vão me derrubar, não sou eu quem vai pagar o pato
/ não sou queijo pra engordar o rato / não fico
de bobeira cafungando nessa ratoeira / quero ver quem vai dizer
quem é ingrato / tô na dividida mas não entro
de primeira / levei uma rasteira de quem sempre me tabelou comigo
/ antes só do que andar com esse tipo de amigo / malandro é malandro,
mané é mané / mas quem faz pose de malandro é porque
não é
Refrão
Cavaleiro Andante! sempre tô de pé /
pro que der e vier, vou do jeito que der / Cavaleiro Andante!
aprendi bastante / que a cabeça não é só pra
segurar o boné / Cavaleiro Andante! sempre tô de
pé / pro que der e vier, vou do jeito que der / sei que
a pedra no caminho pode ser um diamante / nem sempre o que parece é /
sei que a corda arrebenta no lado mais fraco / sei que a vida é uma
sinuca mas confio no meu taco / confio no meu taco, se liga,
pela - saco / na mesa é na caçapa mas no campo é no
buraco / ouvi dizer que se ficar o bicho come, se correr o bicho
pega, mas a regra vai
mudar / se eu ficar o bicho some, se eu correr o bicho arrega / se eu quiser
pegar o bicho ele se entrega, se eu pedir o bicho dá / se eu quiser
que o bicho pegue aí o bicho vai pegar / a cobra vai fumar, o coro vai
comer / o coro tá comendo então vai vendo, pode ver / eu já cantei
a pedra pra você
Refrão
Fui Pixote, sei andar na escuridão / enfrentar
moinho, derrubar dragão / Cavaleiro Andante, sei andar
sozinho / Dom Quixote não tem medo de alucinação
/ desde o saco do meu pai tô na batalha / não nasci
pra ser esparro de canalha!
2. Deixa Rolar
(Gabriel o Pensador / Itaal
Shur)
Essa noite vai ser boa, vai sim / vai ser boa,
pelo menos pra mim / nem que seja só porque eu tô afim
/ essa noite vai ser boa e foi pra isso que eu vim / foi, o que
passou, pode esquecer / é, rolou não sei que lá,
não sei o que / mas agora tudo pode acontecer / chega
mais que eu tô sentindo que eu não vou me arrepender
/ vem, chega bem chegado meu bem / pô, já tô te
cercando faz tempo / você se esconde igual nota de cem,
achei / pode vir que não tem erro, vem que tem / tô te
vendo e você tá maravilhosa / só não
quero propaganda enganosa, tá? / a vida não é sempre
um mar de rosas, mas a noite tá gostosa
Se tudo pode acontecer
o que tiver que ser será
e se tiver que ser vai ser
deixa rolar
Gostosa na verdade ainda é pouco / eu
sei que eu devo tá ficando louco / mas já vai amanhecer
e eu vou levar você pra ver / o sol nascer entre quatro
rebocos / tá delírio, tá colírio
para a vista / tá, nem sei se eu tô sonhando, me
belisca / nem sei se eu sou o peixe ou sou a isca / mas eu sei
que o bicho tá pegando aqui na pista / oi, será que
eu já te vi em algum lugar / tá sozinha aqui? agora
já não tá / é, aí não
sei o que, não sei que lá / tudo pode acontecer
e se tiver que ser será / seria muito triste, mas hoje
/ eu poderia tá em casa sem saber que cê existe
/ mas Deus olhou pra gente, te pôs na minha frente / e
o diabo também quer que eu te conquiste
Refrão
Essa menina quer me enlouquecer / mas se eu já era
maluco, agora o que eu vou ser / agora qual vai ser? qual vai
ser minha sina? / essa menina quer me enlouquecer, essa menina
/ essa menina tá perdendo o respeito / essa menina quer
brincar? então brinca direito! / eu fui dizer pra ela
que eu sou sujeito homem / ela me disse que não, que eu
era um “homem sujeito” / e que o sujeito tá perdendo
o seu posto / com muito jeito ainda consigo ser sujeito composto
/ e ela tem predicado pra me fazer de objeto / verbal, nominal,
indireto e direto, essa menina quer me enlouquecer…
3. Bossa 9
(Gabriel o Pensador / Itaal Shur)
Bença, Vinicius e Tom / dá licença,
desculpa incomodar o vosso bom e merecido sossego / aí em
cima deve ser maravilha, sem medo / sem guerrilha, sem miséria
e desemprego / dá um abraço no Ray Charles pro
mim, outro pro Tim / mas hoje eu só vim pra fazer um desabafo
/ porque a coisa tá ficando ruim / não é só nem é só em
Ipanema nem é só aqui no Rio que tá assim
/ mas às vezes dá vontade de pegar o Antônio
Carlos Jobim / por onde vem cada vez menos turista e por onde
sai cada vez morador assustado / infelizmente dá vergonha
de viver nesse Estado / ó, Cristo Redentor, braços
abertos / não deixe o tiroteio sufocar nossos versos /
se eu declamo e se eu reclamo é porque eu amo isso aqui
/ se a gente chora é porque sabe que merece sorrir.
“Olha que coisa mais linda, mais cheia
de graça / é ela, menina, que vem e que passa /
num doce balanço / a caminho do mar” / Se eu reclamo é porque
eu amo isso aqui
A praia tá bonita, as garotas mais ainda,
coisa mais linda / mais cheia de graça aqui no Posto Nove
/ não há quem reprove, eu fico louco / só um
pouco, mais um pouco dessa água de coco / vale a pena
vir aqui pra ver / meu skate e o walkman eu fico zen ouvindo
esse CD / é só descer a Vinicius de Moraes / com
a Lagoa ali atrás e na frente o mar aberto, pode crer
/ é deslumbrante, a vista, mas é bom ficar esperto
/ que os ladrões vêm pedalando e dão o bote
certo / é bicicleta , poeta, e a polícia não
acompanha / quem dá mole vira boi piranha / olha que coisa
mais feia, arrastão na areia / quanto ladrão e
um turista sem ação perdeu até o calção
/ dava até um boa samba, bossa nova, vem que tem / deixa
comigo Poetinha, eu sou poeta também / tudo que eu falo
vem do coração, não sou um Vinicius / mas
também tenho esse vício, cê me perdoa / sabe
como é… inspiração / a gente vai
rimando à toa, coisa ruim com coisa boa
Refrão
Deixa comigo, Maestro, que eu faço o meu
som / não sou um Jobim, mas também rimo no Tom
/ chamei o meu filho assim, e foi em sua homenagem / e foi com
ele que eu vim a fim de curtir a paisagem / a gente tá de
passagem, mas não tá de bobeira / é o mistério
profundo, é o queira ou não queira / eu já rodei
meio mundo feito um pião vagabundo / mas sempre volto
pra casa pra me curar da tonteira / uou! o Haiti não é aqui,
mas é Vigário Geral logo ali / e é geral
querendo subir a Rocinha pra controlar o morrão / e a
garotada na laje soltando pipa e rojão / uou! uou! olha
a galera zoando na condução / voltando da praia
lá pra Baixada / amanhã tem trabalho, se não
tiver chacina / de inocente e de criança hoje de madrugada
/ uou! uou! olha a menina passando no calçadão,
vendendo o seu corpo mas não a alma / por causa do amor
e da beleza que existe / o sol se pôs em Ipanema e ela
também bateu palma.
4. Tudo na mente
(Gabriel o Pensador / Leandro
Neurose)
Com a cabeça na parede eu já bati
/ encontrei o óvulo, é óbvio, estou aqui
/ a gente desde o ventre vem de um beco sem saída / mas
saiu de lá com vida; eu saí / todo Clark Kent pode
ser um super-homem / todo e qualquer homem pode ser um Clark
Kent / tudo vai e volta feito um bumerangue / todo sangue bom
pode virar um suga-sangue
Conheço gente que tem tudo na vida / conheço
gente que não tem quase nada / conheço gente que
tem pouco mas divide o que tem / conheço gente que tem
muito e divide também / na minha vida eu vi que a grande
verdade / é que toda verdade pode ser questionada / só duvido
de quem chega como dono da verdade / porque essa é a mentira
mais contada
Tá tudo na mente! Se é que você me
entende
Tá tudo na mente! Quem sabe sabe, quem não sabe aprende
Tá tudo na mente! E o que tá nela ninguém tira da gente
Tá tudo na mente.
Já passei pelo sucesso e já passei
pelo fracasso / passei pelo calor e pelo frio, passei pelo mormaço
/ passei por muita coisa, muita casa, muito gelo, muita brasa
/fiz gol contra e fiz golaço / fui pedra, vidraça,
fogo, fumaça / passei pelo palanque, passei pela mordaça
/ passei pelo milagre e pela dor / pela ovelha desgarrada do
rebanho e liberta do pastor / pela cama, pela mesa e pelo banho
/ pelos rituais estranhos do sexo e do amor / pela perda e pelo
ganho já passei / pelo crime e pela lei / pelo inferno
e pelo céu, como reú e como rei! / pelas minas
onde brota o diamante e pelas minas que te explodem num instante,
já passei / passei pela guerrilha e pela trégua
/ muita trilha, muita tralha, muita milha, muita légua
/ muita língua, muita lábia e muita malícia
/ já passei pelo boato e já passei pela notícia
Refrão
Mas não vai ter fruto sem folha (não
tem) / e nem vai ter folha sem caule (não tem) / e nem
vai ter caule se não tiver raiz (não tem) / não
plantou não vai colher… / se não plantou
não vai brotar (não tem) / se não brotou
não tem raiz (não tem) / não tem raiz não
vai ter caule, não tem caule não tem folha, não
tem folha não tem fruto, não tem! / os frutos que
eu desfruto eu que plantei / gosto do que eu faço e faço
isso porque eu gosto e sei / a minha lei é um pouco diferente
/ obedeço a minha consciência e ela é desobediente
/ a minha moda sempre muda, sou eu que dito / não me incomodo
se a manada não achar bonito / a minha fé nunca
removeu montanhas / mas me fez passar por cima de milhões
de situações estranhas / a minha casa tem vários
endereços / eu vou batendo as asas e me sinto em casa
onde eu desço / a minha rota é feito a do morcego
/ guiado pelo som, é assim que aonde eu quero eu chego.
Tá tudo na mente
5. Palavras Repetidas
(Gabriel o Pensador
/ Aninha Lima / Legião Urbana)
A Terra tá soterrada de violência
/ de guerra, de sofrimento, de desespero / a gente tá vendo
tudo, tá vendo a gente / tá vendo, no nosso espelho,
na nossa frente / tá vendo, na nossa frente, aberração
/ tá vendo, tá sendo visto, querendo ou não
/ tá vendo, no fim do túnel, escuridão /
tá vendo no fim do túnel escuridão / tá vendo
a nossa morte anunciada / tá vendo a nossa vida valendo
nada / tô vendo, chovendo sangue no meu jardim / tá lindo
o sol caindo, que nem granada / tá vindo um carro-bomba
na contramão / tá vindo um carro-bomba na contramão
/ tá vindo um carro-bomba na contramão / tá rindo
o suicida na direção
“É preciso amar as pessoas como
se não houvesse amanhã
porque se você parar pra pensar realmente não há”
A bomba tá explodindo na nossa mão
/ o medo tá estampado na nossa cara / o erro tá confirmado,
tá tudo errado / o jogo dos sete erros, que nunca pára
/ 7, 8, 9, 10… cem / erros meus, erros seus e de Deus
também / estupidez, um erro simplório / a bola
da vez, enterro, velório / perda total, por todos os lados
/ do banco do ônibus ao carro importado / teu filho morreu?
meu filho também / morreu assaltando, morreu assaltado
/ tristeza, saudade, por todos os lados / tortura covarde, humilha
e destrói / eu vejo um Bin Laden em cada favela / herói
da miséria, vilão exemplar / tortura covarde, por
todos os lados / tristeza, saudade, humilha e destrói
/ as balas invadem a minha janela / eu tava dormindo, tentando
sonhar
“É preciso amar as pessoas como
se não houvesse amanhã
porque se você parar pra pensar realmente não há”
Sou um grão de areia no olho do furacão
/ em meio a milhões de grãos / cada um na sua busca,
cada bússola num coração / cada um lê de
uma forma o mesmo ponto de interrogação / nem sempre
se pode ter fé quando o chão desaparece embaixo
do seu pé / acreditando na chance de ser feliz / eterna
cicatriz / eterno aprendiz das escolhas que fiz / sem amor, eu
nada seria / ainda que eu falasse a língua de todas as
etnias / de todas as falanges, e facções / ainda
que eu gritasse o grito de todas as Legiões / palavras
repetidas / mas quais são as palavras que eu mais quero
repetir na vida? / Felicidade, Paz, é… / Felicidade,
Paz, Sorte / nem sempre se pode ter Fé, mas nem sempre
/ a fraqueza que se sente quer dizer que a gente não é forte.
6. Sorria
(Gabriel o Pensador / Itaal Shur
/ Tico Santa Cruz)
Participação especial: Detonautas
Não coma de boca aberta, não fale
de boca cheia; não beba de barriga vazia
não fale da vida alheia, não julgue sem ter certeza e não
apoie os cotovelos sobre a mesa
não pare no acostamento, não passe pela direita, não passe
embaixo de escada que dá azar
não cuspa no chão da rua, não cuspa pro alto, não
deixe de dar descarga depois de usar
não use o nome de deus em vão
não use o nome de deus em vão
não use o nome de deus em vão, irmão
não use remédios sem orientação
SORRIA! Você tá sendo filmado
SORRIA! Você tá sendo observado
SORRIA! Você tá sendo controlado
’cê tá sendo filmado! ’cê tá sendo filmado!
Não coma de boca aberta, não fale
de boca cheia, não toque nos produtos se não for
comprar
não pise na grama, não faça xixi na cama; não ame
quem não te ama [não ame quem não te ama!]
não chame os elevadores em caso de incêndio
não entre no elevador sem antes verificar se o mesmo encontra-se neste
andar
não chupe balas oferecidas por estranhos
não recuse um convite sem dizer obrigado
não diga palavras chulas na frente dos seus avós
não fale com o motorista; apenas o necessário
não se deixe levar pelos instintos carnais
não desobedeça seus pais
não dê esmola aos mendigos, não dê comida aos animais
não dê comida aos animais, não dê esmola aos mendigos
não coma de boca aberta, não fale de boca cheia,
não dê na primeira noite, não coma a mulher do amigo.
Refrão
Não use o nome de deus em vão
não use o nome de deus em vão
não use o nome de deus em vão, irmão
não use remédios sem orientação
Não se deixe levar!
não se deixe levar!
não se deixe levar!
não se deixe levar!
Coma de boca aberta, coma de boca fechada
coma nos elevadores
em caso de incêndio coma nas escadas
coma no chão da rua, coma na grama, coma cama
ame quem não te ama, [ame quem não te ama!]
não recuse balas oferecidas por estranhos
não dê esmola aos mendigos sem dizer obrigado
não chupe os animais,
não desobedeça aos seus instintos carnais
não dê na primeira noite na frente dos seus avós
não use o nome de deus se não for comprar
não coma a mulher do amigo sem antes verificar se o mesmo encontra-se
neste andar.
7. 12 Meses Por Ano
(Gabriel o Pensador /
Itaal Shur / Jonathan Maron)
12 meses por ano, 30 vezes por mês
12 horas por dia e à noite outra vez
12 meses por ano, 30 vezes por mês
12 horas por dia e à noite outra vez
12 meses por ano, 30 vezes por mês / mulher,
eu faço contigo o que ninguém nunca fez / o seu
talvez é um sim, pra mim o não é talvez
/ o sim é sim outra vez, pois é tudo da lei / eu
faço o que tu queres e tu fazes o que eu quero / pois
sei bem que tu queres e tu sabes que eu sei / não te arrependerás,
não me arrependerei / dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe
três! / eu faço, tu fazes, nós fazemo, nós
faz / tudo certo, tudo errado, daqui a pouco tem mais / no sapato,
sem vacilo, cem por cento sagaz / não me arrependerei,
não te arrependerás
Refrão
“Eles não sabem chegar, eles não sabem chegar” / Não é assim
não! não é assim não! / “Eles não sabem
chegar, eles não sabem chegar” / Não é assim não!
deixa o papai ensinar / Neguinho não sabe atacar, vai parar na lona /
pensa que impressiona / chega nas mulhé feito o louco que chegou no Vanderlei
na maratona / só decepciona / se atrapalha, toma bola, enche a cara, paga
mico e a mulherada já detona: / “Quer sair comigo, deixa que nem
eu te ligo nem você me telefona; / quer esquentar o umbigo, só se
for na zona, péla-saco!”
Refrão
Se você for fora da lei me seqüestra,
se for polícia me prende / se você for veterinária
me atende / bicho solto da goiaba, bode solto, prende a cabra
/o jogo só termina quando acaba / o jogo só acaba
quando termina / a noite é uma criança e tá chegando
mais menina / eu ando prevenido contra o que não tem vacina
/ tá desanimada? então deixa comigo que eu tô no
clima / “Eles não sabem chegar, eles não
sabem chegar…” /Quem disse que o rap não
pode ter poesia? / Quem disse que o jovem tem a cabeça
vazia? / que vazia o cacete! não vem puxar o tapete /
já preparei um foguete pra encarar a frente fria / a meteorologia
tá certa / o tempo tá fechando mas a mente tá aberta
/ a mulher sempre vai ser mais esperta / mas é tudo da
lei da demanda e oferta.
8. Sem Neurose
(Gabriel o Pensador / Itaal
Shur)
Sem Neurose
E aí meu cumpádi, tranquilidade?
/ vim matar minha saudade da comunidade / esse é o motivo
da visita, então se liga nessa fita / não é seu
aniversário mas eu vim te desejar felicidades / e aí?
como é que vão as coisas? / me conta as novidades,
começando pelas boas / é, o tempo voa, eu sei, é sempre
assim / começa pelas boas que já soube há muito
tempo das ruins / vira essa boca pra lá, o show não
pode parar / o mundo tá pirando, mas desde quando é crime
pirar? / deixa o mundo girar, bota a bola no chão, deixa
a bola rolar / deixa o bonde passar que eu não sei pra
onde ele vai nem de onde vem / não tem problema não,
que tem problema tem, mas também tem solução
/ me mandaram andar na linha mas eu vi que vinha o trem na contramão.
Sem neurose, sem grilo, na tranquilidade, tranquilo
demorou, cumpadi, tranquilo, sempre sem perder o estilo
sem neurose, sem grilo, na tranquilidade, tranquilo
na tranquilidade, tranquilo, na tranquilidade, tranquí, tranquilo
Foi por engano que eu entrei nesse planeta /
cê pode achar que é brincadeira minha mas não é /
Minha mãe e meu pai esqueceram a camisinha / num passeio
de fusquinha na praia de Jaconé / é, fui na fé,
fecundei, virei um embrião / e fiquei lá de patrão,
no aconchego / carregado com cuidado e alimentado só por
um cordão / mas de repente acabou meu sossego / cordão
umbilical é feito a corda do ditado: arrebenta no lado
mais fraco / eu vim do saco do meu pai, pro no útero da
mãe / mas quando eu vim pra fora deu vontade de voltar
pro saco / um monte de maluco me empurrando e me puxando, minha
mãe gritando… / é, malandro, o parto foi
um parto / alguém me deu um tapa, e eu não consegui
chorar / tinha muito médico no quarto / cê pode
achar ridículo mas eu não consegui nem respirar
/ fui posto num cubículo e fiquei por lá / sobrevivi
ao parto prematuro / e os médicos diziam que eu não
teria futuro / futuro ninguém tem mas já faz tempo
que eu tô nessa / e ainda não entendi por que é que
eu tive tanta pressa / mas hoje eu tô num ritmo tranquilo
/ criança não se estressa mamando no mamilo.
9. Tempestade
(Gabriel o Pensador / Itaal
Shur / Dahoud Darien)
Não tenho tempo a perder / a vida é muito curta pra fazer todas
as coisas que eu quero fazer / pra viver tudo que eu quero viver, pra dizer
tudo que eu quero dizer / pra ver tudo que eu quero ver / pra entender alguma
coisa do que vale a pena, só do que vale a pena / e aprender a esquecer
tudo o que faz a minha alma se sentir pequena / quem me envenena de um jeito
traiçoeiro / esquece que o feitiço às vezes vira contra
o feiticeiro / mas tô ligeiro, um dia é do caçador, outro
da caça / nada nessa vida a gente ganha de graça / eu fui na
raça e no peito e vim no peito e na raça / passei na tempestade
e vi que a tempestade passa / tá na correria? Vai nessa / mas onde cê vai
com tanta pressa? / agora faz calor, depois também faz frio / o mundo é feito
um mar e eu vou que nem um rio / correndo sem parar, sei que vou chegar / sei
que vou chegar, apesar dos meus desvios / sei que vou chegar e que eu não
me extravio / sei que vou chegar e que eu não vou vazio / quando a bomba
estourar, eu quero ’tar sorridente / quero ’tar limpando os dentes
com um pedaço do pavio / sem perder a perseverança / sem perder
o equilíbrio na balança / sem perder a humildade na bonança
/ que depois da bonança vem tempestade
depois da bonança vem tempestade, cumpadi
depois da bonança vem tempestade
depois da tempestade vem bonança também
atividade enquanto o lobo não vem
tem armadilha na trilha, tem armadilha na trilha,
tem armadilha na trilha, tem armadilha
Passei por toda a tempestade e sei que toda tempestade passa
Nada, nada, respira direito / respira, respira,
o ar ficou rarefeito / se a canoa tá virada não
tem outro jeito / vai no peito e na raça, vai na raça
e no peito
Nada como um nado estilo livre nesse mar / nado
de peito que é desse jeito que eu curto nadar / nadar
da pedra pra praia, da praia pra pedra, do canto pro meio, do
meio pro canto, do raso pro fundo / do fundo do peito, de dentro
da onda pra fora da linha da arrebentação da ressaca
do mundo / alguns segundos só na apnéia / sem respiração,
só pra abrir o pulmão e as idéias / só pra
sentir saudade do oxigênio / e respirar de novo e me lembrar
de que isso é um prêmio / só pra cuspir com
força o gás carbônico / como se eu vomitasse
os meus problemas mais recentes e os crônicos / como se
eu decolasse naquela asa delta que levou o nosso amigo de repente
/ e pudesse pousar tranquilamente, talvez no pára-pente,
talvez no pára-quedas sobressalente / sorridente como
sempre lá no alto, sempre pronto pra dar mais um salto
/ o nosso encontro tá marcado aí no céu
/ a gente perde a linha mas não perde o carretel / Não
tenho tempo a perder / a vida é muito curta pra fazer
todas as coisas que eu quero fazer
Quem tem boca vai a Roma, quem tem barco vai
a remo / quem tem burka vai a Meca, quem tem beca vai à festa
e parte logo pro ataque / quem tem beque se defende, quem tem
craque surpreende com uma jogada de… / estufa a rede,
faz um golaço / o lance é ocupar os espaços
/ sem perder a persevarança / que depois da tempestade
vem bonança.
10. Rap do Feio
(Gabriel o Pensador / Renato
da Prainha / Itaal Shur)
Dois irmãos gêmeos, um bonito e
um feio / desde cedo o bonito sacaneava o feioso / dizendo que
ele mais tarde ia trabalhar num rodeio / fazer careta pro touro
e deixar o bicho nervoso / “Cala a boca, pentelho!”,
repondia o feinho / “Vai casar com o espelho? Então
fica sozinho” / e o feio saía sempre fazendo amizade,
sem a menor vaidade / popular na cidade / na adolescência,
malandro, mandava bem nas festinhas / e o bonito bolava se aparecia
um espinha / “Que espinha nem cravo, meu irmão,
não esquenta! Eles apagam a luz antes da música
lenta!”
“Uh, uh, uh, que beleza!”
E muito tempo depois, vendo o seu irmão
tão lindo e tão mal humorado / o feio, sorrindo,
criou um belo ditado: / “A beleza é passageira,
mas feiúra é um bem que a gente tem pra vida inteira” /
A mulherada gostava, a natureza foi sábia / ele perdia
em boniteza mas ganhava na lábia: / “aí,
gatinha, chega aí, chega mais perto, não tema /
eu sou 100% feio, eu sei, qual o problema? / eu sou feio mas
te faço feliz, com palavras gentis / um papaya com licor
de cassis / o feio sabe o que faz, o feio sabe o que diz / os
detalhes sutis, você vai pedir bis / mais vale um feio
maduro que dez galãs infantis / então pensa num
ator, que eu penso numa atriz / apaga a luz e vem que o amor é cego,
meu bem / abre a porta e vai entrando que eu entro também”
“Uh, uh, uh, que beleza!”
É dos feios que elas gostam mais / o feio
não vacila, o feio corre atrás / e corre na frente, é valente,
chega junto / um feio inteligente nunca fica sem assunto / já o
bonito é diferente / confia na beleza e fica meio… diz,
displicente / e nesse meio tempo em que o bonito só pensou
no visual / o feio se arrumou e ganhou na moral / na real, o
bonito se dá mal geral / quando é festa, churrasco,
pagode ou carnaval / porque sempre que a mulher acompanhada perde
a linha / só olha pro bonito / “Nossa, que gracinha!” /
mas aí o maridão, que já tá cheio
de cana / junta logo os outros cornos pra juntar o bacana / e
se tiver tiro, o bonito é que morre / o corno corre, a
mina chora e adivinha quem socorre? / acertou em cheio quem achou
que é o feio / que executa a mulher do alheio sem tiroteio
/ e se a própria mulher depois resolve contar / o próprio
marido se recusa a acreditar: / “Quem?! Aquele cara ali?
Ah, fala sério! Se é com ele pode ir.”
Eu sou feio mas eu faço bonito
E as mulhé dão grito, e as mulhé dão grito!
Eu sou feio mas a sorte me escolhe
E as mulhé dão mole, e as mulhé dão mole!
11. Tás a ver?
(Gabriel o Pensador
/ Berna Ceppas)
Participação especial: Adriana Calcanhoto
Estás a ver o que eu estou a ver? / Estás
a ver? estás a perceber? / estás a ouvir o que
eu estou a dizer? / Estás a ouvir? Estás a perceber?
/ Eu tenho visto tanta coisa nesse meu caminho – nessa
nossa trilha, que eu não ando sozinho – tenho visto
tanta coisa, tanta cena… / mais impactante do que qualquer
filme de cinema / e se milhares de filmes não traduzem,
nem reproduzem / a amplitude do que eu tenho visto / não
vou mentir pra mim mesmo, acreditando / que uma música é capaz
de expressar tudo isso / não vou mentir pra mim mesmo,
acreditando / mas eu preciso acreditar na comunicação
/ mas eu preciso acreditar / não há melhor antídoto
pra solidão / e é por isso que eu não fico
satisfeito / em sentir o que eu sinto, se o que eu sinto fica
só no meu peito / por mais que eu seja egoísta
/ aprendi a dividir as emoções, e os seus efeitos
/ sei que o mundo é um novelo, uma só corrente
/ posso vê-lo por seus belos elos transparentes / mudam
cores e valores, mas tá tudo junto / por mais que eu saiba,
eu ainda pergunto:
Tás a ver? A vida como ela é
Tás a ver? A vida como tem que ser
Tás a ver? A vida como a gente quer
Tás a ver? A vida pra gente viver
“…Já que a vida é feita
de pequenos nadas…”
Tás a ver? a linha do horizonte / a levitar,
a evitar que o céu se desmonte? / foi seguindo essa linha
que notei / que o mar na verdade é uma ponte / atravessei-a
e fui a outros litorais / e no começo eu reparei nas diferenças
/ mas com o tempo eu percebi, e cada vez percebo mais / como
as vidas são iguais, muito mais do que se pensa / mudam
as caras / mas todas podem ter as mesmas expressões /
mudam as línguas, mas todas têm / suas palavras
carinhosas e os seus calões / as orações
e os deuses também variam / mas o alívio que eles
trazem vem do mesmo lugar / mudam os olhos e tudo o que eles
olham / mas quando molham, todos olham com o mesmo olhar / seja
onde for, uma lágrima de dor / tem apenas um sabor e uma única
aparência / a palavra saudade só existe em português
/ mas nunca faltam nomes se o assunto é ausência
/ solidão apavora, mas a nova amizade encoraja / e é por
isso que a gente viaja / procurando um reencontro, uma descoberta
/ que compense a nossa mais recente despedida / nosso peito muitas
vezes aperta, nossa rota é incerta / mas o que não é incerto
na vida?
Refrão
A vida é feita de pequenos nadas / que
a gente saboreia mas não dá valor / um pensamento,
uma palavra, uma risada / uma noite enluarada ou um sol a se
pôr / um bom dia, um boa tarde, um por favor – simpatia é quase
amor – uma luz acendendo, uma barriga crescendo / uma criança
nascendo, obrigado, Senhor / seja lá quem for o Senhor
/ seja lá quem for a Senhora / a quem quiser me ouvir,
e a mim mesmo / preciso dizer tudo o que eu estou dizendo agora
/ preciso acreditar na comunicação / não
há melhor antídoto pra solidão / e é por
isso que eu não fico satisfeito / em sentir o que eu sinto,
se o que eu sinto fica só no meu peito / por mais que
eu seja egoísta / aprendi a dividir minhas derrotas, e
minhas conquistas / nada disso me pertence / é tudo temporário
no tapete voador do calendário / á que temos forças,
pra somar e dividir / enquanto estivermos aqui / se me ouvires
cantando, canta comigo / se me vires chorando, sorri.
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