VOLTAR PARA TODAS AS LETRAS

Álbum:
"NÁDEGAS A DECLARAR"
Sony Music, 1999

1. Cantão

A galera lá do morro tá sabendo
Hoje vai ter festa na casa do Pequeno
Aquke molequinho que tá sempre no Cantão
Neguinho tá dizendo que ele mora na maior mansão
É, a galera sempre aumenta
Mas a cachanga é de responsa, no 550
Tem deck, piscina, quem vê não imagina
Que o Pequeno mora lá
"É, o cara é gente fina"
Ele desce todo dia a pé pro Cantão
Junto com um pretinho que se chama Janjão
Às vezes com o Nem, às vezes com o Baya
Às vezes sem ninguém mas tá sempre lá na praia
Chega sozinho e todo mundo já conhece
Chega cedinho e só sai quando escurece
Pega o seu cate e vai direto pra favela
Pra andar no half-pipe lá da "curva do S"
É, nem parece que ele é filho de bacana
A aparência às vezes engana
Mas a grana, no caso, não faz diferença
Muito pelo contrário, a grana é o de menos
A galera da favela vai marcar uma presença
Hoje tem aniversário na casa do Pequeno

Eu sou do Cantão!
E lá não tem parada
Todo mundo é irmão, todo mundo é camarada
Eu sou do Cantão!
E lá não tem caô
Todo mundo é peão, todo mundo é doutor
Eu sou do Cantão!
E lá não tem errada
Um aperto de mão vale mais que uma mesada
Eu sou do Cantão!
E lá não tem terror
Amizade não tem classe nem cor

Ele mora ali de frente pro mar, mané
Mas é pertinho do morro, a galera vai a pé
Pra entrar no condomínio tem até segurança
Mas não barrou ninguém!
Vâmo pra festança!
Olha quanta coisa bonita!
"Pequeno!"
"Peraí maluco num grita!
"Ele mora ali naquela casa de tá cheia de gente
E cheia de carrão estacionado na frente
Todo mundo chique, de roupa social
E agente assim largado, vai até pegar mal"
"É melhor sair fora pra não pagar mico
Isso é festa de rico, não é pro nosso bico"
"Que isso Chiquinho? Nada a ver!
Quando é festa lá no morro o Pequeno é o primeiro a aparecer"
"É, se ele vive lá no funk e no pagode
Porque no aniversário dele agente não pode?"
"É isso aí Almir-Rato
O Pequeno convidou, e se agente não entrar vai ficar chato"
"Vâmo nessa galera, quem não deve não teme
O Tripa sempre vem aí jogar vídeo-game
Diz pra ele Negão!"
"Eu até ranguei aí outro dia, meu irmão!
Não tem erro não"
"Demorô!"
"Aí, ô o Pequeno aí fora, de bermuda e chinelo"
"Chegaí!"
"Vambora!"
Tá rolando um refri, cachorro e coxinha
E tá sobrando um monte de gatinha

Refrão

E o Pequeno cresceu e nem se lembra dos presentes que ganhou
Mas da festa ele nunca se esqueceu
A família reunida, os colegas da escola
A galera lá do morro e só discão na vitrola
Se esqueceu até do beijo da menina
Mas se lembra da galera se jogando na piscina
As lembranças do tempo de moleque no Cantão
Ficaram marcadas na cabeça e no coração
Como aquele cara que não tinha as duas pernas
E subia num skate se arrastando na favela
A força de vontade daquele aleijado
Simbolizava a humildade e a batalha do favelado
E a coragem que aquela gente tinha e tem
São um exemplo de vida que o moleque aprendeu bem:
Lutar pra viver, ser mais solidário
E nunca vacilar, porque não há lugar pra otário
E nem pra malandro demais
A malandragem é saber sobreviver em paz
Saber a hora de falar e a hora de ficar calado
E respeitar pra ser respeitado
E se os ricos pensam que o convívio dos seus filhos com os pobres atrapalha a educação
O Pequeno aprendeu o que nenhuma escola pode ensinar convivendo com a galera do Cantão
Ele viu que a riquesa na verdade é viver com humildade e vencer o preconceito
E ganhou o que nenhum dinheiro pode comprar:
A amizade que até hoje guarda dentro do peito

E a galera até hoje se reúne lá no canto
Uns todo dia, outros nem tanto
Alô Gebara, Vaguinho, Pamonha e Passarinho
Bonito, Creck, Bila, Boc, Xêra e Maluquinho
Tim Dorê, Pinel, Suruba e Gargamel
O Night entrou pro bicho e foi mais cedo pro céu
Abobrinha se mudou pra Fortaleza
O Déo já é papai e é fiscal da natureza, beleza
O Janjão virou piloto de asa e, quem diria
O Nenô virou crente e vai à igreja todo dia!
Almir-Rato agora é professor de natação
E o Bocão criou uma associação de surfistas da favela, da nova geração
Que vão continuar a história do Cantão
Uma estória real, de paz, e amor
Que hoje quem te conta é o Gabriel O Pensador
Mas há dez anos atrás, mais ou menos, era mais co Pequeno

2. Tô Vazando

Tô vazando, mulher, sem choradeira
Pode derramar uma cachoeira
Mas depois de tanta mágoa eu tô vazando feito água
E não adinta fechar a torneira porque
as feridas vão continuar abertas
Ah, querida, se tu fosse mais esperta
Você não estaria implorando o meu amor
Só que qaundo deveria você nunca deu valor
Agora você tem medo de ficar sozinha
Mas o nosso trem já chegou ao fim da linha, meu bem
Vou descre na estação da Liberdade
Toma o meu retrato e se você sentir saudade
Olhe o meu sorriso e exercite a memória
Relembre todos os lances da nossa estoria
Todos os momentos felizes que eu te dei
Todas as cicatrizes que ue guardei
Todas as palavras bonitas que eu te disse
Todo o seu silêncio como se eu não existisse
Todas as rosas que eu te ofereci
Todos os espinhos que eu tive que engolir
Todos os planos que abandonei por você
Todas as vezes que você me fez sofrer
Sua consciência agora pesa muitos quilos
Se afundando nessas lágrimas de crocodilo
Mas eu vou deixar você se afogando
E vou tocar o barco, tô vazando

Tô vazando!
Tô vazando feito a maré
Tô vazando!
Eu não sou palhaço, mulher
Tô vazando!
Eu te dei a mão você quer o meu braço
Vira a bunda que eu te dou um pé
"Adeus também foi feito pra se dizer
Bye bye, so long, farewell"

Adios, arrivederte, sayonara
Dood Bye, hasta la vista, au revoir
Eu vou voar, sair da gaiola
E vou botar as asinhas de fora, tá na hora
De zoar, curtir tudo o que eu não pude
Feito um velho mergulhando na fonte da juventude
Tu devia se orgulhar
Pelo bem que tu me fez ao me transformar em "ex"
Porque hoje eu tô feliz
Mas foi você que quis
Que tudo terminasse desse jeito
E eu fico satisfeito desse modo
E eu não me incomodo dessa forma
E você não se conforma de ter feito
Tanta coisa pra tentar me machucar
E agora não poder remediar
A minha dor de cabeça você já conseguiu
Mas eu que vou sumir e você que vai tomar doril...
Chega de compras, chega de jóias
Chega de aturar seus ciúmes e paranóias
Mais uma chance? Uma pinóia!
Nosso barco naufragou e eu não vou jogar a bóia
Eu tô na boa, tô na proa e vou te dar um pé na popa
Pra acabar com a sua sopa
A minha âncora já tá fora do mar
Marujo que é marujo sabe a hora de zarpar

Tô evacuando, tô saindo fora
Se quiser chorar, chora, mas eu vou embora
Sim senhora, já aturei tudo que podia
Mas agora tô vazando, até outro dia
Ou quem sabe, até nunca mais
Longe de você eu vou viver em paz
Amor só é bom enquanto dura
Mas já faz muito tempo que o papai aqui te atura
Era tão perfeito mas virou uma tortura
Então eu t6o ralando peito, não me segura
Bye bye, tchau, fui
Fica aí chorando buá - buá, ai, ui !
Ei! Eu já falei, baby, you don't understand
A chama depois que vira cinza não se acende
Seu drama já não me convence
C'est fini, o nosso love já chegou ao the end

3. Xaxado Chiado

Eu botei o som ba caixa e testei o microfone no capricho mas o som saiu chiado
Eu tentei fazer um xote, um chorinho ou um maxixe
Mas não sei quem foi que disse que o que eu fiz era xaxado
Ó xente, vixe! Um xaxado diferente, de repente tá chegando pra ficar
Resolvi dar uma chegada lá no Sul pra mostrar o meu xaxado
Porque achei que lá embaixo iam gostar
Chinelo, chapéu, xampu
Enchi minha mochila e parti pro Sul
Encaixei um toca-fitas no Chevette e achei o meu cassete do Raúl
Na estrada eu nem parei na lanchonete porque eu tinha pouco cash e esperei até chegar
Em território gaúcho só pra rechear o bucho de chuleta na chapa na churrascada de lá

Ó xente, vixe!
É o xaxado é o maxixe!
Não se avexe, chefe, chega nesse show só de chinfra
Ó xente, vixe!
É o xaxado é o maxixe!
Não se avexe, se mexe, meu chefe, chama na xinxa!
Uai, sô! Que trem doido sô!
Que som doido sô! Que troço doido é esse?
Uai, sô! Quem trem doido sô!
Que som doido sô! Que trme bão!

Fui mostrar meu xaxado pra gauchada
Mas rachou o chassi e eu vendi o Chevette
Cheguei no "buxixo" de charrete
E "xavequei" uma mulher que parecia uma chacrete
Vê um x-salsicha e uma chícara de chá
Aqui aceita cheque?
"Mas claro, tchê! Bah!"
Tomei um chimarrão e a chacrete confundiu a salsicha com chiclete mastigando sem parar
Chegaí... quer ketchup?
Ela não gostou da expressão
Armou o maior chilique e chamou o leão-de-chácara que veio me chutando e me jogando no chão
Ô xará, eu não fiz nada demais!
Peraí, vâmo fumar um cachimbinho da paz
O Schwarzenegger não quis nem saber
E me torturou que nem o Pinochet!
Não era tiazinha mas me encheu de chicotada
E me deixou chorando com a cara inchada
Xi... o xerife já chegou rachando o bico
"Barranqueiro!"
Calma chefia, eu explico...
Ele me fechou no xilindró, puxou a minha ficha
E achou que eu tinha chamado ele de bicha
Mas o gaúcho era macho
Parecia uma rocha e usava bombacha
"Aqui no Sul o buraco é mais embaixo!
Eu não gosto de deboche e vou te encher de bolacha!"

Refrão

Paguei minha fiança com a grana do Chevette
E armei um cambalacho pra não ir a julgamento
Tentei fazer pechincha mas o cana me driblou feito Garrincha e me deixou sem argumento
Procurei um rasta-pé e fui parar na dança chula mas a festa tava cheia de mulher
As gaúcha pareciam com a Xuxa, pimba na gorducha, se der bola eu tô pé
Tinha uma gostosa de cabelo cacheado que eu fiquei apaixonado só de olhar
Ela só de shortinho dava um show
E eu de cachecol sentindo um frio de rachar
Bicho, ela tinha um remelexo de fazer cair o queixo de qualquer cristão
E eu que não sou frouxo decidi dar um arrocho na cabroxa e chamei ela pro meio do salão
Pôxa, que coxa! Puxei ela com força, ela chiou, aí eu disse "não se avexe"
Relaxa, chinoca... relaxa... se mexe, se mexe, se mexe, se mexe, se mexe, se mexe
Se mexe, se mexe, se mexe, se mexe, se mexe, se mexe, gaúcha
Me empurra que eu te puxo, se eu te empurro cê me puxa
Se mexe, se mexe, se mexe, se mexe, se mexe, se mexe
Que o seu remelexo me deixou maluco, cheio de tesão
E quando eu disse isso eu não sei que bicho deu nessa gaúcha que ela me deu um chupão
E cochichou que queria aprender o meu xaxado e me ouvir falado chiado no colchão
Se fosse no Chevette era chocante
Mas na falta do possante eu fui pra beira de um riacho
Senti um cheiro estranho mas o bicho tá pegando...
Hum! Me machuquei no fecho ecler, que esculacho!
O cheiro era de peixe e eu achei que era do rio
Mas me deu um calafrio quando eu vi que era chulé
Broxei no mesmo instante porque o cheiro da mulher era broxante
E eu nem sei se era do pé
Aí chegou o namorado da gaúcha, chupado, esquelético que nem um raio-x
Ó xente, vixe! Tá chapado de haxixe, diz que eu vou me arrepender do que eu fiz
Você? Me bater? Só se for com o chifre! Se enxerga xinxeiro magricela!
Mas o cara era faixa-preta, me acertou que nem boliche e me deixou com olho roxo e banguela
Eu só levei "prejú" na viagem pro Sul
Agora eu vou pro estrangeiro pra tentar esquecer
Vou mostrar o meu xaxado viajando o mundo inteiro
E comprar outro Chevette com o dinhiro do cachet

Refrão
Ê, meu rei, que som massa, véio
Que som "loco" mano, que som da hora esse
Ê, meu rei, que som massa, véio
Que som "loco" mano, que som dez

4. Nádegas a Declarar

Ordem e progresso, sua bunda é um sucesso
Nádegas a declarar, nádegas a declarar
Nádegas a declarar? Claro que não!
Eu tenho opinião nesse papo de bundão
E vou dizer, mas primeiro você, Fernanda
Primeiro as damas, o que que cê manda?
Aí, Gabriel, vou logo deixar claro, não é lição de moral
Todo mundo tá sabendo que sambra é tropical
No país do futebol e carnaval
Mexer essa bundinha até que é natural
No meu ponto de vista, sem quer ser feminista
A bundalização é bastante estimulada
Por essa cultura machista, cê sabe... tá cheio de porco-chauvinista
Por isso que esse papo não é só pras menininhas
É pra todos esses caras que dão força, que dão linha
No concurso, na promessa de futuro
No programa de tv e no rádio toda hora pra você

A-ahá! Arrebita a rabeta!
A-ahá! E me diz, meu bem, o que mais que você tem?
A-ahá! Arrebita bem a bunda, vagabunda, que a bunda é tudo de bom que você tem

O que que você tem de bom além do bumbum?
Um talento, algum dom?
Ou as suas qualidades estão limitadas ao balanço dessa bunda arrebitada?
O que que você tem além da bunda?
Pense bem que a pergunta é profunda
Não, não é isso menina!
Eu não tô falando da sua virilha
Que deve ser uma maravilha
Mas seu cérebro é menor do que um caroço de ervilha
Ô minha filha, acorda pra vida!
A sua bunda tá em cima, mas sua moral tá caída
A dignidade tá em baixa
Você só rebola, só rebola, rebola e se rebaixa
E se encaixa no velho perfil:
Mulher objeto em pleno ano dois mil
E um, e dois, e três
Sempre tem alguém pra ser a bunda da vez
Te chamam de celebridade e você acredita
Enche o rabo de vaidade e arrebita

Você tira até retrato três por quatro de costas
Pensa com a bunda e quando abre a boca só sai bos...
Talvez você nem seja tão piranha
Mas qualquer concurso miss bumbum que tem você se assanha
A-ahá! E tira foto fazendo pose de garupa de moto
A-ahá! Vai sair na revista e o povo vai dizer que você é artista
Porque agora bunda, é cultura, é esporte
É até filosofia, quase uma religião
E se você tiver sorte pode ser seu passaporte para a fama
Ou pra cama, pode ser seu ganha-pão
Bunda conhecida, bunda milionária
Bonitinha mas ordinária
Que nem otária na tv, de perna aberta
Queima o filme das mulheres e se acha muito esperta
Vai, vai lá, vai entrar na dança, vai usar a poupança
Vai ficar orgulhosa sem saber o mau exemplo que tá dando pras crianças
Adolescentes, adultas e adultos retardados
Que idolatram um simples rebolado
(Bando de bundão!!) aplaudindo a atração
(Não pelas idéias mas pelo burrão)

(Ordem e progresso, sua bunda é um sucesso...
Ai, nádegas a declarar
Lombo ambulante, burrão ignorante!)
Sua bunda é alucinante
A rabeta arrebenta mas beleza não é tudo
Além da forma tem que ter conteúdo
Senão você se torna descartável
Que nem uma boneca inflável
Então encare a realidade com o seu olho da frente
E veja a vida de uma forma diferente
Porque uma mulher decente
Pode ser muito mais atraente que uma bunda sorridente
Então, garota sangue bom
Se liga na missão, se liga nesse toque
Ser ou não ser, eis a questão
A vida é bem mais que um número no Ibope
Deixe a sua mente bem ligada ou vai ficar injuriada
Reclamando que não é valorizada
Pára pra pensar, bota a bunda no lugar
E a cabeça pra funcionar

Solta essa bundinha, solta o verso
Solta a rima minha filha, solta o verbo na cara do Brasil
Que atrás de você virão mais de mil
Eu também não sou chegado em celulite
Mas eu vou te dar um palpite, exercite a tua mente
E não se irrite se eu tô sendo muito franco
Mas atualmente ela só pega no tranco
Amanhã você vai olhar pra trás
E vai ver que o seu colã já não entra mais
Vai querer fazer uma lipo, vai querer meter "silico"
E vai continuar pagando mico

Ordem e progresso, sua bunda é um sucesso
Nádegas a declarar, nádegas a declarar...

5. Cachorrada

Sou um vira-lata e tô afim daquela gata de responsa
Que parece uma onça
Ela é de raça, não é nenhuma gata vadia
E quando ela passa, o meu pêlo se arrepia
Ela mia, miau, e eu passo mal
Eu não sou gato, eu só lato, au, au
Algum tagarela me falou que ela é donzela
Que é melhor eu desistir e procurar uma cadela
Eu disse: é ruim, animal, de cachorra eu tô legal
A última que eu tive me trocou por um chow-chow, é tudo igual
Jeitinho de santa, cara-de-pau, e quando ficam no cio fazem até bacanal

Tô afim de uma gata, mas só tem cachorra
Tô afim de uma gata, mas só tem cachorra
Tô afim de uma gata, mas só tem cachorra
Tô afim de de uma gata mas só acho canina
Vou soltar os cachorros em cima

Eu já rezei pra São Bernardo pra conquistar esse amor
E até procurei um pastor
Mas eu não entendi a oração que o pastor me passou
Porque o pastor era pastor alemão
E eu só sei latir em português!
Estou me sentindo um pequinês!
"Um conselho, deixa a gata pra lá
Ou cê só vai arrumar sarna pra se coçar
Ela é muita ração pra sua tigela
Ela mora na mansão, você mora na favela
Ela só come salmão, tu nem pão com mortadela
Ela torce pro Palmeiras, tu é Timão
Ela é Mangueira e tu Portela
E tu é cão vira-lata, ela é gata, esquece!
Eu te apresento pruma poodle mais bonita que a Lassie"
Au, au, alto lá!
Só porque você foi adestrado tá querendo me ensinar?
Eu conheço a tua raça...
Quer meter o focinho onde não foi chamado?
Passa, passa, passa!
Que eu não sou pitbull mas tô ficando nervoso
Avisa pra gata que ela vai ter um esposo
Que é um vira-lata teimoso
Eu não sou nenhum dálmata mas também sou pintoso

"E aí vira-lata?"
Fala, fila!
"Não se finge de morto, não, não vacila
Aí... aquele gato ali... tás afim da tua gata
E falou que faz na pata com você
Quero ver, vai lá, mete o canino na orelha do felino
Dá-lhe uma dentada feito Tyson atacando o Hollyfield
Pega esse Garfield na porrada, aí...
Qualé a da parada, aí?
Não vai fazer nada, aí?"
Calma aí, sem briga
Eu quebro esse mané só na idéia, se liga:
Escuta aqui seu projeto de tamborim!
Eu não tô falando grego nem latindo em latim
Eu tô afim daquela gata e tô sabendo que tu quer levar uns tapa na lata
Mas não vou perder meu tempo com moleque brigão
Que não tem nada na cabeça e tira onda de machão
Tá querendo se atracar comigo?
Não rola! Vai atrás do piu-piu, frajola!

Tá cheio de rotweiller cercando a casa dela
Mas eu tô entrando pela janela
Pareço até um gato mas não mio nem arranho...
Aúúú! Ela tá tomando banho!
Oi minha deusa felina
Gostei desse banho de língua, cê me ensina?
"Que isso!? Cachorro! Me solta!"
Calma gatinha, vâmo dá uma volta...
Fica tranquila que eu não vou te morder
Encolhe as tuas unhas que eu te levo pra ver
Um filmaço que eu assisto todo dia:
O frango que roda, lá na padaria
Vâmo! Foge da mansão
E vem conhecer a minha vida de cão, que tem mais emoção

Bora gatinha, cola na minha
Pega!! Ih babou! A carrocinha!
Au, au, algemaram meu pescoço
Onde já se viu?
Me trancaram num canil!
Se eu tivesse pedigree eu duvido que eu tivesse aqui
Pagando por um crime que eu não cometi
Eu não sou lobo e a gata não é ovelha
Mas eu também não sou bobo e tô com a pulga atrás da orelha
Com esse cão policial que fica rindo de mim
Tá bancando o Rin-tim-tim mas parece o Rabugento
Me tira daqui!
Eu não tenho sete vidas
Preciso aproveitar o meu tempo

Agora eu tô na boa
A gata me tirou do canil e pediu pra ser minah patroa
Eu nunca fui de baderna
Mas também não saio com o rabo entre as pernas
Bicho solto! O meu dono é a liberdade
Osso duro de roer é pra roer com vontade
É o bicho! Quem se empenha chega lá
A gatinha tá prenha vâmo ver que bicho dá..

6. Matador

Ele não gosta de café sem açúcar nem comida sem sal
E por isso a sua esposa se deu mal
Vacilou no fogão não tem perdão
Acabou estrangulada e pendurada no varal
Ele não gosta de homem nem de homossexual
Só do Padre Marcelo porque o padre é legal
Esse cara é matador mas acredita no Senhor Jesus
E tá sempre com uma cruz pendurada no cordão
Na cinta uma pistola, um três-oitão e bastante munição
A descrição?
Bem, nem alto nem baixo, nem fraco nem forte
E feio feito a morte
O seu rosto quem conhece não esquece
Mas quem vê diz que não viu e que se ver não reconhece
O seu nome ninguém sabe dizer
Só a mãe que sabia, mas depois de nascer
Ele enforcou a coitadinha com o cordão umbilical
Tudo isso no quintal, que não tinha hospital
Apagou os vizinhos e cresceu ali sozinho
Desde menino com um instinto assassino

(Mata!)
Ele mata pela frente
(Mata!)
Ele mata por trás
(Mata!)
Ele mata muita gente
(Mata!)
Ele mata mas faz

Cresceu e quis entrar pra polícia
É lógico que foi aprovado no teste psicológico
Mas na prova de tiro foi reprovado
Porque deu pipoco pra tudo que é lado e derrubou um bocado
Frustrado, foi parar numa fazenda
Jagunço de responsa, matador por encomenda
Mas um dia ele cansou de ser peão
Decepou o patrão com um facão e descobriu uma profissão que dá dinheiro:
Pistoleiro de aluguel
Você paga e dá o nome, que ele manda pro céu
Não importa o motivo, adultério ou vingança
Guerra de família, discussão na vizinhança
O seu objetivo ele alcança
Vivo é tudo igual, o que muda é a cobrança
Sem terra é por tempo de matança
Criança abandonada é por quilo, pesada na balança
Operário é um salário
E pra matar o pai e mãe é dez por cento da herança
Juiz ou delegado, prefeito ou deputado...
Todos tem seu preço, que o serviço é tabelado

Ele nunca lê jornal, porque não sabe ler
Mas em troca de um presunto recebeu uma tv
Começou a ver notícia e descobriu que profissão que dá dinheiro,
Muito mais que pistoleiro, é a política:
Ganhar grana de verdade, na maior tranquilidade
Porque tem a imunidade no país da impunidade
"E é por isso que os político tá sempre contratando os meus serviço
Pra matar uma pá de gente...
Mas agora eu também quero ficar rico
Vou me candidatar e tem que ser pra presidente!
Deputado, nem pensar, porque um suplente vai mandar algum colega me matar!"
Chegou a eleição e as pesquisas apontavam um fracasso
Mas ele ganhou fácil
Matou os candidatos oponentes um por um
E foi eleito presidente sem problema nenhum
Na posse ele escondeu o seu revólver sob o terno
E prometeu que o seu governo era muito "muderno"
Mas depois de pouco tempo começaram os decretos
E medidas provisórias, provocando desafetos
Aumentaram os impostos e também a oposição
Mas ele não gosta de reclamação
Só de raiva resolver exterminar os aposentados
E dizer que o desemprego era pro bem da nação

(Um pistoleiro incomoda muita gente!
O presidente incomoda muita mais!
Um pistoleiro assassina muita gente!
O presidente assassina muito mais!)
E o povo vai morrendo cada vez mais
Atingido por emenda anticonstitucionais
Quando tem corrupção com telefone grampeado e o cacete
Ele varre pra debaixo do tapete
Todo tá pagando e o país só tá devendo
Presidente tá matando
Mas ninguém tá reclamando porque o bicho tá pegando
E o coro tá comendo
Presidente tá chegando
Todo sai correndo porque o presidente é mau, pega um, pega geral!
Presidente é mau, pega um, pega geral!
Presidente é mau, pega um, pega geral!
(Empresário!)
(Classe média!)
(Zona urbana e rural!)
E o povo reunido, muita gente assistindo a cerimônia
Da privatização da amazônia
Aplaudindo o presidente matador, com medo de vaiar
Debaixo de um calor de rachar
Ele pára seu discurso pra tirar o terno quente
Fica sem camisa e escuta de repente:
(Ih! Alá! O presidente esqueceu o três-oitão!)
Ele encara a multidão...
Põe a mão na cintura e não encontra a pistola
(Ele tá desarmado!)
(Pega!)
(Esfola!)
Ele chora, se apavora e implora piedade
Mas agora tá na hora da verdade
O povo brasileiro resolveu se vingar
Cercou o pistoleiro e começou a gritar:
(Mata!)
Ele mata pela frente
(Mata!)
Ele mata pro trás
(Mata!)
Ele mata muita gente
(Mata!)
...
Hoje eu tô feliz, matei o presidente.

7. Amigo Urso/ Resposta do Amigo Urso

Amigo Urso, saudação polar
Ao leres esta, hás de te lembrar
Daquela grana que eu te emprestei
Quando estavas mal de vida e nunca te cobrei
Hoje estás bem e eu me encontro em apuros
Espero receber e pode ser sem juros
Este é o motivo pelo qual te escrevi
Agora quero que saibas como me lembrei de ti
Conjeturando sobre a minha sorte
Transportei-me em pensamento até o Pólo-Norte
E lá chegando sobre aquelas regiões
Vai vendo só quais as minhas condições
Morto de fome, de frio e sem abrigo
Sem encontrar em meu caminho um só amigo
Eis que de repente vi surgir na minha frente
Um grande urso e apavorado me senti
E ao vê-lo caminhando sobre o gelo
Porque não dizê-lo?
Foi que me lembrei de ti
Espero que mandes pelo portador
O que não é nenhum favor
Tô te cobrando o que é meu
Sem mais queira aceitar um forte abraço
Deste que muito te favoreceu
O meu garoto já cresceu
Dá cá o meu
Dá cá o meu
Que o meu garoto já cresceu
Manda mais cem
Que tu não negas pra ninguém

Amigo velho, aí vai tua resposta
Quem é pobre nesse mundo
Sempre come do que gosta e o que não gosta
Eis porque fiquei furioso
Recebendo do amigo um tratamento desdenhoso
Mas a minha raiva logo se reprimiu
Eu não posso querer mal a quem tanto, tanto me serviu
Tua cartinha causou-me admiração
És perfeito na cobrança, como o gringo Salomão
(Que vende roupa a prestação)
Há muito eu andava persuadido
Que tu eras um sabido com carinha de otário
Mas hoje tua cartinha relendo
Foi que fiquei sabendo que és expedicionário
Fostes ao pólo sem gostar do teu algum
Enquanto eu fiquei sem nenhum aqui na velha dura sorte
Manda mais cem, eu sei que tu não negas
E receba do colega outro abraço forte
Minha continha eu pagarei no Pólo-Norte

8. -Não Dá Pra Ser Feliz (Guerreiro Menino)

Entregue à própria sorte, nessa selva
Onde a lei é a do mais forte
Indefeso, carregando todo o peso
O homem não consegue suportar
Não sabe como lidar com a vida que a vida lhe dá
Está de mãos e pés atados, incapacitado de fazer o que é capaz
Jaz morto-vivo no mundo
Reduzido a vagabundo
Sem poder sorrir, sem poder sonhar, sem poder...
Sempre no mesmo lugar
Sem trabalho, sem sustento, sem moral
Rendido, ao relento, feito um animal
"Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra
A dor que tem no peito, pois ama, e ama...
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz..."
O destino testa a sua paciência
Instigando o seu instinto de sobrevivência
Vergonha, estresse, medo
Engolindo seco, respirando azedo
O bicho-homem atrás de migalha
O homem-máquina precisando de batalha
Desativado, vivendo de favor
Lutador que não pode jogar a toalha
Tentando manter sua dignidade
À procura de uma oportunidade
Na guerra contar o tempo tá ficando tarde
Inocente cumpre pena num sistema covarde
"Guerreiros são pessoas tão fortes, tão frágeis
Guerreiros são meninos no fundo do peito...
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz..."
O homem, bicho, domesticado
Se vê desesperado se vê sua ração no mercado
Mas não pode pagar
E vê sua razão sem saber o que falar
E a necessidade lhe dizendo pra comer
Custe o que custar: matar, morrer...
"O homem também chora..."
O homem não é fera
Foi jogado fora
Foi violentado em seu direito de viver
Vive sem vontade, morre sem saber
Perde o equilíbrio, cai, se destrói
E o mundo se distrai
O mundo se desfaz com tanta disputa
E faz que não escuta
A sua voz que diz:
"O que será que eu fiz? Só tenho cicatriz
Não dá pra ser feliz
O homem se humilha se castram seus sonhos
Seu sonho é sua vida e vida é trabalho
E sem o seu trabalho o homem não tem honra
E sem a sua honra, se morre, se mata
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz..."

9. Brazuca (remix)

(Futebol não se aprende na escola)
No país do futebol, o sol nasce para todos
Mas só brilha para poucos
E brilhou pela janela do barraco
Da favela onde mora esse garoto chamado Brazuca
Que não tinha nem comida na panela
Mas fazia embaixada na canela e deixava a galera maluca
Era novo e já diziam que era um novo Pelé
Que fazia o que queria com uma bola no pé
Que cobrava falta bem melhor que o Zico e o Maradona
E que driblava bem melhor que o Mané, pois é
E o Brazuca cresceu, despertando o interesse em empresários
E a inveja nos otários
Inclusive em seu irmão que tem um pôster do Romário no armário
Mas que joga mal pra c...
O nome dele é Zé Batalha e, desde pequeno, ele trabalha
Pra ganhar uma migalha que alimenta sua mãe e seu irmão mais novo
Nenhum dos dois estudou porque não existe educação pro povo
No país do futebol (futebol não se aprende na escola)
É por isso que Brazuca é bom de bola

Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé Batalha só trabalha
Zé Batalha só se esfola
Brazuca é bom de bola
Brazuca deita e rola
Zé Batalha só trabalha
Zé Batalha só se esfola
Chega de levar porrada
A canela tá inchada e o juíz não vê
Chega dessa marmelada
A camisa tá suada de tanto correr
Chega de bola quadrada
Essa regra tá errada, vâmo refazer
Chega de levar porrada
A galera tá cansada de perder

No país do futebol quase tudo vai mal
Mas Brazuca é bom de bola, já virou profissional
Campeão estadual, campeão brasileiro
Foi jogar na seleção, conheceu o mundo inteiro
E o mundo inteiro conheceu Brazuca com a 10
Comandando na meiuca como quem joga sinuca com os pés
Com calma, com classe, sem errar um passe
O que fez que seu passe também se valorizasse
E hoje ele é o craque mais bem pago da Europa
Capitão da seleção, tá lá na Copa
Enquanto o seu irmão Zé Batalha
E todo o seu povão - a gentalha
Da favela de onde veio - só trabalha
Suando a camisa, jogado pra escanteio
Tentando construir uma jogada mais bonita
Do que a grana que carrega na marmita
Contundido de tanto apanhar,
Confundido com bandido
Impedido, pode parar
Sem reclamar pra não levar cartão vermelho
Zé Batalha sob a mira da metralha, de joelho
Tentando se explicar com um revólver na nuca
Eu sou trabalhador, sou irmão do Brazuca
Ele reza, prende a respiração
E lá na Copa penâlti a favor da seleção
Bola no lugar, Brazuca vai bater
Dedo no gatilho, Zé Batalha vai morrer
Juiz apitou, tudo como tinha que ser
Tá lá mais um gol, e o Brasil é campeão
Tá lá mais um corpo estendido no chão

O país ficou feliz depois daquele gol
Todo mundo satisfeito, todo mundo se abraçou
Muita gente até chorou, uma comemoração
Com orgulho de viver neste país campeão
E na favela no dia seguinte, ninquém trabalha
É o dia de enterrar o que sobrou do Zé Batalha
Mas não tem ninguém pra carregar o corpo
Nem pra fazer uma oração pelo morto
Tá todo mundo com a bandeira na mão
Esperando a seleção no aeroporto
É campeão!
Da hipocrisia, da violência, da humilhação
É campeão!
Da ignorância, do desespero, da desnutrição
É campeão!
Da covardia, da miséria, da corrupção
É campeão!
Do abandono, da fome, da prostituição

Chega de levar porrada!

10. Porca Miséria

Eu não como porco, eu como farelo!
Eu não como porco, eu como farelo!
Eu não como porco, eu como farelo!
Os porcos me comeram de verde e amarelo!
Sujaram meu chiqueiro! Fizeram porcaria!
Limparam meu dinheiro e a barriga tá vazia!

A linguiça tá vazia, eu tirei a carne
Eu não como porco, tia
I don't eat swine
A barriga tá vazia e eu tô no rango
Vô encher essa linguiça com carne de frango
Eu peguei uma panela pra fazer uma canja
Mas o frango olhou pra ela e fugiu da granja
Tem o frango congelado no supermercado
Mas o meu cartão de crédito tá bloqueado
Yo tengo hambre, as hungry as an elefant
Se eu tivesse money, hombre, comeria um restaurant
Se eu tivesse no natal até comia peru
Se eu tivesse no Japão comia peixe cru
Só que lá no japonês eu não tenho vez
Eu não sei comer com dois pauzinhos nem com três
A minha vara de pescar tá quebrada
E o meu peixe... até agora "nada"
Eu já quebrei a vara e também quebrei a banca
O peixe custa os olhos da cara e eu só como carne branca
A carne moída dá água na boca
Mas é que eu tenho medo de pegar uma "vaca louca"
O povo come ovo e o meu ovo ia pro prato
Mas eu peguei o ovo e acertei no candidato
Porque eu já enchi o saco dessa porcaria:
Encheção de linguiça e a barriga vazia

Porcos, querem que eu mantenha a esperança
Mas como é que eu faço pra encher a minha pança?
Diz como é que eu posso acreditar numa mudança?
Se nossas barrigas só se enchem com crianças
Ou então com gazes, ou então lombriga
E as nossas bocas só se enchem de formigas
Quando agente fala muito e de repente some
Ou quando alguém mata um homem pra matar a fome
Saco vazio não pára em pé
Tá me dando calafrio mas eu tenho fé
Que eu vou conseguir alguma forma de alimento
Nem que seja um pão com água ou pastel de vento
Tem farofa no despacho da esquina
Tem cachaça mas eu quero vitamina!
Vitamina de banana, caldo de feijão
Olha, gente fina, eu tô comendo até ração!
Enquanto os porcos tão comendo a nação
Tão comendo com os olhos toda a minha refeição

Se correr... o bicho pega, se ficar o bicho come
Então eu vou andar pra ver se mato a minha fome
Rapadura lá no Ceará eu sei que tem
Tacacá em Macapá, açaí em Belém
Amazonas tem as frutas lá da Zona Franca de Manaus
E no Rio tem "filé miau"
Quero virado à paulsita, tutu à mineira
Picanha gaúcha e piranha pantaneira
Moqueca capichaba, rapá Goiás, pequi, Bahia, vatapá
Piauí, Paraíba, Paraná...
Pimenta malagueta pro planeta balançar!
Tô na boa em Boa Vista, Acre doce, tô que Tocantis!
Natal, Porto Velho, tô que tô afim de acarajé, Aracaju, jacaré, pirarucu
Ou pode ser um camarão do Maranhão ou um filé de tubarão lá de Pernambuco
Alagoas! Ah, eu tô maluco!
Com um lombinho que eu conheci em Santa Catarina
Mas não é de porco que eu não como suína.

11. Astronauta

Astronauta tá sentindo falta da Terra?
Que falta que essa Terra te faz?
A gente aqui embaixo continua em guerra
Olhando aí pra lua implorando por paz
Então me diz: por que que você quer voltar?
Você não tá feliz onde você está?
Observando tudo a distância
Vendo como a Terra é pequenininha
Como é grande a nossa ignorância
E como a nossa vida é mesquinha
A gente aqui no bagaço, morrendo de cansaço
De tanto lutar por algum espaço
E você, com todo esse espaço na mão
Querendo voltar aqui pro chão?
Ah não, meu irmão... qual é a tua?
Que bicho te mordeu aí na lua

Eu vou pro mundo da lua
Que é feito um motel
Aonde os deuses e deusas
Se abraçam e beijam no céu

Ah não, meu irmão... qual é a tua?
Que bicho te mordeu aí na lua?
Fica por aí que é o melhor que cê faz
A vida por aqui tá difícil demais
Aqui no mundo, o negócio tá feio
Tá todo mundo feito cego em tiroteio
Olhando pro alto, procurando a salvação
Ou pelo menos uma orientação
Você já tá perto de Deus, astronauta
Então, me promete
Que pergunta pra ele as respostas
De todas as perguntas e me manda pela internet

É tanto progresso que eu pareço criança
Essa vida de internauta me cansa
Astronauta, cê volta e me deixa dar uma volta na nave
Passa a chave que eu tô de mudança
Seja bem-vindo, faça o favor
E toma conta do meu computador
Porque eu tô de mala pronto, tô de partida
E a passagem é só de ida
Tô preparando pra decolagem
Vou seguir viagem, vou me desconectar
Porque eu já tô de saco cheio
E não quero receber nenhum e-mail com notícia dessa merda de lugar

Eu vou pra longe, onde não exista gravidade
Pra me livrar do peso da responsabilidade
De viver nesse planeta doente
E ter que achar a cura da cabeça e do coração da gente
Chega de loucura, chega de tortura
Talvez aí no espaço eu ache alguma criatura inteligente
Aqui tem muita gente mas eu só encontro solidão
Ódio, mentira, ambição
Estrela por aí é o que não falta, astronauta
A Terra é um planeta em extinção


Nádegas a Declarar - 1999
01. Cantão 02. Tô Vazando 03. Xaxado Chiado 04. Nádegas a Declarar Participação especial: FERNANDA ABREU 05. Cachorrada 06. Matador07. Amigo Urso - Resposta do Amigo Urso Participação especial: MOREIRA DA SILVA 08. Não Dá pra Ser Feliz Participação especial: DANIEL GONZAGA 09. Brazuca (remix) 10. Porca Miséria 11. Astronauta Participação especial: LULU SANTOS