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Álbum:
"QUEBRA-CABEÇA"
Sony Music, 1997

1. Pátria Que Me Pariu

Uma prostituta chamada Brasil se esqueceu de tomar a pílula e a barriga cresceu
Um bebê não estava nos planos dessa pobre meretriz de dezessete anos
Um aborto era uma fortuna e ela sem dinheiro
Teve de tentar fazer um aborto caseiro
Tomou remédio, tomou cachaça, tomou purgante
Mas a gravidez era cada vez mais flagrante
Aquele filho era pior que uma lumbriga
Ela pediu prum mendigo esmurrar sua barriga
E a cada chute que levava o moleque revidava lá de dentro
Aprendeu a ser um feto violento
Um feto forte, escapou da morte
Não se sabe se foi muito azar ou muita sorte
Mas nove meses depois foi encontrado, com fome e com frio, abandonado num terreno baldio
Pátria que me pariu!
Quem foi a pátria que me pariu?!
A criança é a cara dos pais mas não tem pai nem mãe
Então qual é a cara ca criança?
A cara do perdão ou da vingança?
Será a cara do desespero ou da esperança?
Num futuro melhor, um emprego, um lar ...
Sinal vermelho, não dá tempo pra sonhar
Vendendo bala, chiclete ...
"Num fecha o vidro que eu num sou pivete
Eu num vou virar ladrão se você me der um leite, um pão,
um video-game e uma televisão
Uma chuteira e uma camisa do mengão
Pra eu jogar na seleção, que nem o Ronaldinho
Vou pra copa. Vou pra Europa ...
" - Coitadinho! Acorda, moleque!
Cê num tem futuro! Seu time não tem nada a perder
E o jogo é duro!
Você num tem defesa, então ataca!
Pra num sair de maca
Chega de bancar o babaca
"Eu num agüento mais dar murro em ponta de faca
E tudo o que eu tenho é uma faca na mão
Agora eu quero o queijo.
Cadê? Tô cansado de apanhar, Ta na hora de bater!"
Pátria que me pariu!
Quem foi a pátria que me pariu?!
Mostra a tua cara moleque! Devia tá na escola
Mas tá cheirando cola, fumando um beck, vendendo brizola e crack
Nunca joga bola mas tá sempre no ataque
Pistola na mão, moleque sangue-bom
É melhor correr porque lá vem o camburão
É matar ou morrer!
São quatro contra um (- Eu me rendo!!)
Bum! Clá-clá!Bum!Bum!Bum!
Boi, boi, boi da cara preta
Pega essa criança com um tiro de escopeta
Calibre doze, na cara do brasil
Idade: catorze Estado civil: morto
Demorou, mas a sua pátria mãe gentil conseguiu realizar o aborto.

2. 2345Meia78

Fim de semana chegando e o coitado tá no osso mas acaba de encontrar a solução
Coloca um caderninho no bolso, apanha umas fichas e corre prum orelhão
É o seu velho caderninho de telefone com o nome e o número de um monte de mulhé
... E ele vai ligar pra todas até conseguir chamar uma gata pra sair e dar um rolé
2345MEIA78!
Tá na hora de molhar o biscoito!
Eu tô no osso mas eu não me canso!
Tá na hora de Afogar o ganso!
Letra A, Vâmo começar: Alô, por favor, a Ana Maria está?
(Ela saiu com o namorado. Quer deixar recado?)
Não obrigado, deixa pra lá.
Letra B. Vou ligar pra essa Bianca
Tem cara de carranca mas dá pra dar o bote
Desligou na minha cara que tristeza
Chamei ela de princesa ela pensou que fosse trote
Que se dane! É até melhor assim
Eu vou ligar pra Dani que ela é gamadinha em mim
"Oi, Danizinha, lembra do Animal?!"
(Não conheço ninguém com esse nome. Tchau!)
Deve tá com amnésia.
Vou pra letra "E": 2-bola-gato-69-bola-sete
É a bola da vez: Elizabete Dizem as más línguas que ela é boa de (Alô!)
"Alô, a beth está? (Tá, mas não pode falar. Ela tá de boca cheia E eu tô comendo, Rapá!)
Que azar, liguei na hora errada
A hora da refeição é uma hora sagrada
Meu caderninho de telefone parede um cardápio e faz um tempo que eu não como nada
2345MEIA78!
Tá na hora de molhar o biscoito!
Eu tô no osso mas eu não me canso!
Tá na hora de Afogar o ganso!
Letra "F", quem não arrisca não petisca "Alô, é da casa da Francisca?
(Ela se mudou. Casou com um delegado de polícia. Quer o número?)
Tô fora, risquei da minha lista
Há muito tempo eu conheci a dona Guta, uma coroa enxuta
Como será que ela tá? (Dona Guta? Vou chamar. Vovó! Telefone!)
(Heeein!??) Achei melhor desligar.
Tenhei o "H", o "I" e o "J" E até agora num arrumei uma ... Gata "L", "M", "N", "O" ...
A cada letra que passa eu me sinto mais só "P", "Q", "R" S.O.S.! Socorro!
Eu já tô na letra "X"! Meu caderninho de telefones já ta perto do fim
E eu tô longe de um final feliz
2345MEIA78!
Tá na hora de molhar o biscoito!
Eu tô no osso mas eu não me canso!
Tá na hora de Afogar o ganso!
Ainda falta a letra "Z" Mas acabaram as fichas, o que quê eu vô fazer?
Disque-Sex? Ah! Qualé?! Chega de conversa, o que eu quero é uma mulher!
Já sei, vou ligar pro 102, o disque informações
Não há nada errado nisso (Informações, Creuza, pois não?)
Só queria uma informação: Pode ser ou tá difícil? (Queira desculpar, mas...)
Vou ligar pra Zulmira mas nem adianta, ela nunca dá mole pra ninguém
Mas se eu já levei um fora do alfabeto inteiro
Quê que tem levar um "Não" dela também - Alô! Zulmira?
Vai fazê o que hoje? (Ah, não sei, vamô num cinema...)
Quando a esmola é demais o santo desconfia
Essa mina deve tá com algum problema ...
Chegando no local que ela escolheu: "Não-sei-o-que-lá-do-Reino-de-Deus"
Olha o nome do filme: "Jesus Cristo é o Senhor"
É comédia? (Não é filme. O cinema acabou.
Virou igreja evangélica e eu só te trouxe aqui pra'cê comprar pra mim uma vaga no céu!)
Ah, irmã, deixa disso.
Minha grana só vai dar pra te levar pra ir rezar lá no motel!
(Ai, senhor, olha onde eu vim parar!)
Ah ... relaxa, meu amor ...
Ajoelhou? Então vai ter que rezar!!
2345MEIA78!
Tá na hora de molhar o biscoito!
Eu tô no osso mas eu não me canso!
Tá na hora de Afogar o ganso!

3. Cachimbo da Paz

A criminalidade toma conta da cidade
A sociedade põe a culpa nas autoridades
O cacique oficial viajou pro Pantanal
Porque aqui a violência tá demais
E lá encontrou um velho
índio que usava um fio dental e fumava um cachimbo da paz
O presidente deu um tapa no cachimbo e na hora de voltar pra capital ficou com preguiça
Trocou seu pallitó pelo fio dental e nomeou o velho índio pra ministro da justiça
E o novo ministro, chegando na cidade, achou aquela tribo violenta demais
Viu que todo cara-pálida vivia atrás das grades e chamou a tv e os jornais
E disse: "Índio chegou trazendo novidade
Índio trouxe cachimbo da paz
Maresia, Sente a maresia Maresia ...
Apaga a fumaça do revólver, da pistola
Manda a fumaça do cachimbo pra cachola
Acende, puxa, prende passa
Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça
Todo mundo experimenta o cachimbo da floresta
Dizem que é do bom
Dizem que não presta
Querem proibir, querem liberar
E a polêmica chegou até o congresso.
Tudo isso deve ser pra evitar a concorrência
Porque não é Hollywood mas é o sucesso
O cachimbo da paz deixou o povo mais tranquilo
Mas o fumo acabou porque só tinha oitenta quilos
E o povo aplaudiu quando o índio partiu pra selva e prometeu voltar com uma tonelada
Só que quando ele voltou "Sujou"!!!
A polícia federal preparou uma cilada -
"O cachimbo da paz foi proibido
Entra na caçamba, vagabundo!
Vâmo pra DP! Ê, ê, ê, ê! Índio tá fudido porque lá o pau vai comer!"
Maresia, Sente a maresia Maresia ...
Apaga a fumaça do revólver, da pistola
Manda a fumaça do cachimbo pra cachola
Acende, puxa, prende passa
Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça
Na delegacia só tinha viciado e delinquente
Cada um com um vício e um caso diferente
Um cachaceiro esfaqueou o dono do bar porque ele não vendia pinga fiado
E um senhor bebeu uísque demais, acordou com um travesti e assassinou o coitado
Um viciado no jogo apostou a mulher, perdeu a aposta e ela foi sequestrada
Era tanta ocorrência, tanta violência, que o índio não tava entendendo nada
Ele viu que o delegado fumava um charuto fedorento e acendeu um "da paz" pra relaxar
Mas quando foi dar um tapinha levou um tapão violento e um chute naquele lugar
Foi mandado pro presídio e no caminho assistiu um acidente provocado por excesso de cerveja:
Uma jovem que bebeu demais atropelou o padre e os noivos na porta da igreja
E pro índio nada mais faz sentido
Com tantas drogas proque só o seu cachimbo é proibido?
Maresia, Sente a maresia Maresia ...
Apaga a fumaça do revólver, da pistola
Manda a fumaça do cachimbo pra cachola
Acende, puxa, prende passa
Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça
Na penitenciária o
"índio fora da lei" conheceu os criminosos de verdade
Entrando, saíndo e voltando cada vez mais perigosos pra sociedade
Aí cumpádi, tá rolando um sorteio na prisão
Pra reduzir a superlotação todo mês alguns presos tem que ser executados
E o índio dessa vez foi um dos sorteados
E tentou acalmar os outros presos:
"Peraí, vâmo fumar um cachimbinho da paz ..."
Eles começaram a rir e espancaram o velho índio até não poder mais
E antes de morrer ele pensou:
"Essa tribo é atrasada demais ...
Eles querem acabar com a violência, mas a paz é contra a lei e a lei é contra a paz"
E o cachimbo do índio continua proibido
Mas se você quer comprar é mais fácil que pão
Hoje em dia ele é vendido pelos mesmos bandidos que mataram o velho índio na prisão.

4. Sem Saúde

Pelo amor de Deus alguém me ajude!
Eu já paguei o meu plano de saúde mas agora ninguém quer me aceitar
E eu tô com dô, dotô, num sei no que vai dá! Emergência!
Eu tô passando mal Vô morrer aqui na porta do hospital
Era mais fácil eu ter ido direto pro Instituto médico legal
Porque isso aqui tá deprimente, doutor
Essa fila tá um caso sério
Já tem doente desistindo de ser atendido e pedindo carona pro cemitério
E aí, doutor? Vê se dá um jeito!
Se é pra nós morrê nós qué morrê direito
Me arranja aí um leito que eu num peço mas nada
Mas eu num sou cachoro pra morrer na calçada
Eu tô cansado de bancar o otário
Eu exijo pelo menos um veterinário
Me cansei de lero lero
Dá licença mas eu vou sair do sério
Quero mais saúde
Me cancei de escutar ...
"Doutor, por favor, olha o meu neném!
Olha doutor, ele num tá passando bem! Fala, doutor!
O que é que ele tem!?" - A consulta custa cem. "Ai, meu Deus, eu tô sem dinheiro"
- Eu também! Eu estudei a vida inteira pra ser doutor
Mas ganho menos que um camelô
Na minha mesa é só arroz e feijão
Só vejo carne na mesa de operação
Então eu fico 24 horas de plantão pra aumentar o ganha pão
Uma vez, depois de um mês sem dormir, fui fazer uma cirurgia
E só depois que eu enfiei o bisturi eu percebi que eu esqueci da anestesia
O paciente tinha pedra nos rins
E agora tá em coma profundo
A família botou a culpa em mim
E eu fiquei com aquela cara de bunda
Mas esse caso não vai dar em nada
Porque a arma do crime nunca foi encontrada
O bisturi eu escondi muito bem: Esqueci na barriga de alguém
Me cansei de lero lero
Dá licença mas eu vou sair do sério
Quero mais saúde
Me cancei de escutar ...
Socorro! Enfermeira! Urgente!
Tem uma grávida parindo aqui na frente! ...
Ninguém me deu ouvidos
E eu dei um nó no umbigo do recém-nacido
Mas o berçario tá cheio então eu fico com o bebê no meu colo aqui no meio da rua
E lá dentro o doutor tá botando o paciente no colo: - "Por favor, fique nua!"
(Quê isso doutor?! Tem certeza?)
- "Confie em mim. É terapia chinesa.
Tira a roupa!" (Mas é só dor de dente)
- "Então abre a boca! (Ahhh) Beleza!" (Ai, doutor, tá doendo!)
- "É isso mesmo, o que arde cura"
(Não! Pára! Não! Pára doutor! Não pára, doutor! Ai ... Que loucura!!!)
- "Pronto, passou, tudo bem Volta na semana que vem!"
Ela vai voltar pra procurar o doutor
Essa vai voltar, pode escrever!
Mas só daqui a nove meses, com um filho da consulta na barriga querendo nascer
Me cansei de lero lero
Dá licença mas eu vou sair do sério
Quero mais saúde
Me cancei de escutar ...
Que calamidade!
Dos bebês que nascem virados pra lua e conseguem um lugar na maternidade
A infecção hospitalar mata mais da metade
E os que sobrevivem e não são sequestrados devem ser tratados com todo o cuidado
Porque se os pais não tem dinheiro pra pagar hospital uma simples diarreia pode ser fatal
- "Come tudo, meu filho, pra ficar bem forte"
(Ah, mãe! Num aguento mais farinha!)
- "Mas o quê que tu quer? Se eu num tenho nem talher?" (Pô, faz um prato diferente, maínha!)
- "Eu ia fazer a tal da 'autopsia' mas eu não tenho faca de cozinha!!"
Tá muito sinistro! Alô, prefeito, governador, presidente, ministro, traficante, Jesus Cristo, sei lá ...
Alguma autoridade tem que se manifestar!
Assim num dá! onde é que eu vou parar?
Numa clinica pra idosos? Ou debaixo do chão?
E se eu ficar doente? Quem vem me buscar?
A abulância ou o rabecão?
Eu Tô sem segurança, sem transporte, sem trabalho, sem lazer
Eu num tenho educação mas saúde eu quero ter
Já paguei minha promessa, não sei o que fazer!
Já paguei os meus impostos, não sei pra quê?
Eles sempre dão a mesma desculpa esfarrapada:
"A saúde pública está sem verba"
E eu num tenho condições de correr pra privada
Eu já tô na merda.

5. Pra Onde Vai?

Mais uma vida jogada fora
Um coração que já não bate mais, descanse em paz
Sonhos que vão embora, antes da hora
Sonhos que ficam pra trás
Pra onde vai você?
Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai? E agora?
A dor é do tamanho de um prédio
A casa sem ele vai ser um tédio
Não tem remédio, não tem explicação, não tem volta
Os amigos não aceitam, o irmão se revolta
A família não acredita no que aconteceu
Ninguém consegue entender porque o garoto morreu
Tiraram da gente um jovem tão inocente
E a sua avó que era crente hoje tem raiva de Deus
O seu pai ficou mais velho, mais sério mais triste
E a mãe simplesmente não resiste
Além do filho, perdeu o seu amor pela vida
E a nora agora tem tendências suicidas
E a namoradinha com quem sonhava se casar
Todo mundo toda hora tem vontade de chorar
Quando se lembra dos planos que o garoto fazia
Ele dizia "Eu quero ser alguém um dia"
Sonhava com o futuro desde menino
Ninguém podia imaginar o seu destino
Mais uma vítima de um mundo violento
Se Deus é justo, então quem fez o julgamento?
Pra onde vai você?
Pra onde vai? Pra onde vai o sol quando a noite cai?
Por quê um jovem que vivia sorridente perde a sua vida assim tão de repente?
Logo um cara que adorava viver
Realmente é impossível entender
Nenhuma resposta vai ser capaz de trazer de novo a paz à família do rapaz
Nunca mais suas vidas serão como antes
E eles olham o seu retrato na estante
Aquele brilho no olhar e o jeitão de criança
Agora não passam de uma lembrança
E a esperança de que ele esteja bem, seja onde for
Não diminui o vazio que ele deixou
É insuportável quando chega o seu aniversário
E as suas roupas no armário parecem esperar que ele volte de surpresa
Pra ocupar o seu lugar vazio à mesa
A tristeza às vezes é tão forte que é mais fácil fingir que não houve morte
Porque sempre que ele chega pra matar as saudades
Ele vem com aquela cara de felicidade
Alegrando os sonhos e querendo dizem que a sua alma nunca vai envelhecer
E que sofrer não é a solução
É melhor manter uma chama acesa no coração
E a certeza na mente de que um dia se encontrarão novamente.
Pra onde vai você? Pra onde vai?
Pra onde vai o sol quando a noite cai?

6. En La Casa

Se me derrubar
Eu tô na área o juiz tem que apitar
(Nós estamos en la casa)
Lá vem o poeta
O poeta chegou
Abalando as estruturas com o Pensador -(To ligado)
Se liga - Eu também tô na área na linha imaginária
Que separa a minha mão da sua cara de pau
Que já tá cheia de cupim
Na tela da televisão mentindo pra mim
Eu vou detetizar você Desintegrar a TV
Junto contigo eu dinamito os FDP - filha da puta -
Meu ouvido não é penico então escuta
Eu não agüento escutar seu caô
Tremendo 171 fazendo pose de doutor
Jogando verba no bolso e (...) no
ventilador (que fedor) Tapa o nariz -
E você Dj, o quê que diz? -
(Hoje eu tô feliz ... Faça o diabo feliz)
1 2 3 agora com vocês
Gabriel o Pensador no microfone outra vez
Tito é perito no Beach Box (...)
Tá bonito Rola o Hip Hop na vitrola (Rola)
Cabo Verde, Moçambique, Angola
Salve meus irmãos africanos (e lusitanos) do outro lado do oceano
O Atlântico é pequeno pra nos separar
Porque o sangue é mais forte que a água do mar
Quando eu tô em Portugal
(Dá-se muito bem) porque lá o bacalhau
(É nota 100) Pode ser no forno, pode ser na brasa
(Gabriel o Pensador já é de casa)
Ó Gajo eu viajo de Lisboa até o Porto
(Só fica parado quem tá morto)
Como disse o meu colega Fernando Pessoa
"Navegar é preciso" então não fique aí atoa
Bem vindo ao nosso barco
Aqui quem fala é o comandante Pensador
Levando o Hip Hop aonde eu for Terra a vista,
terra brasileira, terra improdutiva terra de bobeira,
Terra sem gente, gente sem terra G U E R R A - Guerra!
Cadê a ordem?
Cadê o progresso? Cadê os índios?
Tão lá no congresso Cadê o ano 2000?
Cadê o Brasil (Pátria que me pariu)
Onde está o dinheiro? O gato comeu! E ninguém viu?
O gato fugiu ... (Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu
Dona Chica admirou-se do berro que o gato deu) ...

7. +1 Dose

Mais uma dose
E claro que eu tô afim
A noite nunca tem fim
Porquê que agente é assim?
Ai! garçom! traz aqui pra mim
Mais uma dose, "é claro que eu tô afim"
Tin tin! Como diz o ditado: "A noite é uma criança".
Mas eu é que tô sempre mamado
É mel na chupeta, pinga na chupeta, cerva na chupeta,
vinho na chupeta Uísque na chupeta.
Mamãe eu quero mamar
Dá a chupeta pro neném não chorar!
Eu quero áaaalcoool!
Pode encher a taça
Nem quero saber se é champanhe ou cachaça
Passa pra cá! Passa o goro
E deixa eu virar num gole só! ...
Foi mal, pô Num tô legal
Tô com muito sangue no meu álcool
Daqui a pouco vou parar num hospital para tomar injeção de glicose
E depois vou acabar num caixão com cirrose
Mas por enquanto eu quero mais uma dose
Mais uma dose
E claro que eu tô afim
A noite nunca tem fim
Porquê que agente é assim?
Quando eu tô triste eu bebo pra esquecer
Quando eu tô feliz eu bebo pra comemorar
Quando eu não tenho motivo pra beber
Eu encho a cara de bebida até vomitar
"Você pensa que cachaça é água, vacilão?
Cachaça não é água ..."
Não! Nem me fale em água filtrada nem água mineral
Que se eu bebo um troço desse eu passo mal
Água pra mim só se for aguardente
Até pra tomar banho ou escovar os dentes
Sem bebida a vida não presta
Se tem festa eu sou o chato e se tá chato eu sou a festa
Eu num como ninguém, mas eu bebo bem
Da número um à número dez, à número cem, à número mil!!
"Eu sou da turma do funil!" Bebo até cair mas depois me levanto
Abro mais uma e dou um gole pro santo
A birita é sagrada: A minha religião
A dieta equilibrada: é um copo em cada mão
"Uma cervejinha pra abrir o apetite
E mais um chopinho acompanhando a refeição
Depois a caipirinha pra tomar de sobremesa
E só um licorzinho pra fazer a digestão E agora?
Vamo embora?"
- Num fala besteira! Garçom, a saideira!
Mais uma dose
E claro que eu tô afim
A noite nunca tem fim
Porquê que agente é assim?
Ai ... que ressaca! Minha cabeça tá doendo paca
Eu não passo de um babaca
Corpo podre, mente fraca, que psicose!
Ontem entrei no tapa só por causa de uma dose
Que onda errada!
No fim do mês ainda tenho aquela conta pendurada lá no bar
Vou ter que deixar a metade do salário
Na olimpíada do copo eu sou o primeiro voluntário.
Comigo é páreo duro, eu engulo qualquer mistura
Quanto eu tô duro serve até cachaça pura Loucura?
Não. Doença, cara!
Eu nem me lembro como ontem eu cheguei em casa
Só sei que eu acordei com a baranga do meu lado
e lembrei que a minha mina já tinha abandonado
Ih! que dia é hoje? Hoje é segunda!
Ah, mas no trabalho já levei um pé na bunda
e eu continuo me afogando nessa poça de álcool só
que a poça tá ficando muito funda!

8. Dança do Desempregado

Essa é a dança do desempregado
Quem ainda não dançou tá na hora de aprender
A nova dança do desempregado
Amanhã o dançarino pode ser você
E vai levando um pé na bunda vai
Vai por olho da rua e não volta nunca mais
E vai saindo vai saindo sai
Com uma mão na frente e a outra atrás
E bota a mão no bolsinho (Não tem nada)
E bota a mão na carteira (Não tem nada)
E bota a mão no outro bolso (Não tem nada)
E vai abrindo a geladeira (Não tem nada)
Vai porcurar mais um emprego (Não tem nada)
E olha nos classificados (Não tem nada)
E vai batendo o desespero (Não tem nada)
E vai ficar desempregado
Essa é a dança do desempregado
Quem ainda não dançou tá na hora de aprender
A nova dança do desempregado
Amanhã o dançarino pode ser você
E vai descendo vai descendo vai
E vai descendo até o Paragüai
E vai voltando vai voltando vai
"Muamba de primeira olhaí quem vai?"
E vai vendendo vai vendendo vai
Sobrevivendo feito camelô
E vai correndo vai correndo vai
O rapa tá chegando olhaí sujô!...
E vai rodando a bolsinha (Vai, vai!)
E vai tirando a calcinha (Vai, vai!)
E vai virando a bundinha (Vai, vai!)
E vai ganhando uma graninha
E vai vendendo o corpinho (Vai, vai!)
E vai ganhando o leitinho (Vai, vai!)
É o leitinho das crianças (Vai, vai!)
E vai entrando nessa dança
Essa é a dança do desempregado
Quem ainda não dançou tá na hora de aprender
A nova dança do desempregado
Amanhã o dançarino pode ser você
E bota a mão no bolsinho (Não tem nada)
E bota a mão na carteira (Não tem nada)
E não tem nada pra comer (Não tem nada)
E não tem nada a perder
E bota a mão no trinta e oito e vai devagarinho
E bota o ferro na cintura e vai no sapatinho
E vai roubar só uma vez pra comprar feijão
E vai roubando e vai roubando e vai virar ladrão
E bota a mão na cabeça!! (É a polícia)
E joga a arma no chão E bota as mãos nas algemas
E vai parar no camburão
E vai contando a sua história lá pro delegado
"E cala a boca vagabundo malandro safado"
E vai entrando e olhando o sol nascer quadrado
E vai dançando nessa dança do desempregado
Essa é a dança do desempregado
Quem ainda não dançou tá na hora de aprender
A nova dança do desempregado
Amanhã o dançarino pode ser você
Gabriel, O Pensador

9. Eu e a Tábua

Outro dia eu Tava em casa me sentindo na prisão
Jogando dardo na televisão
Estressado, cansado dessa vida louca
Olhei pro lado e vi a mulher passando roupa
Minha cueca azul da cor do mar
Me deu vontade de ir pegar uma onda com a minha tábua de passar
É, pra fugir da rotina
Detonei uma vela pois não tinha parafina
Tudo em cima - "Vai pra onde amor?" Vamos a la playa... -
"Vamos a la playa?
Ô ! Cê vai com quem?"
Eu, a tábua, e mais ninguém -
"E a roupa pra passar?" Ah, deixa pra lá
Hoje eu não vou precisar do terno
Me passa a tábua e me deixa relaxar...
E que tudo mais vá pro inferno
Estou a dois passos do paraíso ...
Eu e a tábua de passar
Batalhando no front da guerra do cotidiano
Procuro uma trégua na linha do horizonte
E encontro um oceano
Às vezes me sinto um peixe fora d'água e de repente começo a chorar
Mas agora eu vejo tanta água na minha frente que nem sei por onde começar
"Por onde eu vou entrar pescador?" (-Ah, sei lá!)
Então eu vou no instinto, pego uma tábua e vâmo vê o quê que dá
Começo a remar
E no começo eu levo onda na cabeça sem parar
O sufoco é passageiro
Mas eu fico sempre alerta feito um escoteiro
Porque o mar é traiçoeiro E eu amo o mar, mas odeio esse cheiro
De leptostirose, hepatite, isso é o que não falta
Devia ter vindo com uma roupa de astronauta Porque se eu caio dessa tábua
Eu tomo um caldo dessa onda e um gole dessa água
Estou a dois passos do paraíso ...
Eu e a tábua de passar
Se o mar virar sertão e o sertão virar mar eu vou morar lá no sertão com a minha tábua de passar
Porque isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais - "... Atrás!!!!"

Devia ter visto minha cara de emoção: eu e a tábua por dentro do salão
Queria tirar uma foto quando o jato espirrou
Pra mostrar pros meus filhos, que lindo, pô ...
Pelo menos em algum lugar eu me sinto em paz
Longe dos problemas banais
Preciso respirar um pouco
Navegar é preciso, senão eu fico louco
A maré não tá pra peixe lá fora do mar
Mas quem tá na água é pra se molhar
E eu vou em frente Remando contra a corrente
Só pra exercitar
E nos caldos que a vida me dá
A minha tábua de salvação é a minha tábua de passar
"Longe da terra, perto da água, dentro do mar...
Longe da guerra, eu e a tábua, eu e a tábua de passar..."
Dizem que aqui tem tubarão
Mas minha mulher veio me buscar com o ferro quente na mão
Tá me chamando lá na beira
E eu aqui até agora esperando a saideira
Estou a dois passos do paraíso ...
Eu e a tábua de passar

10. Bala Perdida

Bom dia, mulher Me beija, me abraça, me passa o café
E me deseja "Boa sorte"
Que seja o que Deus quiser
Porque eu tô indo pro trabalho com medo da morte
Nessas horas eu queria ter um carro-forte
Para poder sair de casa de cabeça erguida
E não ser encontrado por uma bala perdida
Querida, eu sei que você me ama
Mas agora não reclama, eu tenho que ir
Não se esqueça de botar as crianças debaixo da cama na hora de dormir
Fica longe da janela e não abre essa porta, não importa o motivo
Por favor, meu amor, eu não quero encontrar você morta se eu voltar pra casa vivo
Mas se eu não voltar não precisa chorar
Porque levar uma bala perdida hoje em dia é normal
Bem mais comum do que morte natural
Nem dá mais capa de jornal
Tchau! Se eu demorar, não precisa me esperar pra jantar
E pode começar a rezar
Pra variar estamos em guerra Pra variar ...
Quem tá na chuva é pra se molhar
Quem brinca com fogo pode se queimar
Mas eu num quero ser mais um nas estatísticas
Num quero que meu corpo vire atração turística
Ensangüentado, vítima de um crime sem culpado.
Encaminhado prum exame de balística
Todo dia morrem dois ou três
Eu só quero saber quando vai ser a minha vez Onde será?
No circo, na praia, no supermercado, na mesa do bar?
Ou na fila do banco?
No trem da central?
No ponto de ônibus?
Parado no sinal? Ou assistindo TV, na segurança do lar?
Onde será que uma bala perdida vai me achar?
Se eu pudesse escolher eu morreria dormindo sem sentir muita dor
Eu sei que eu ainda sou muito novo pra morrer mas outro dia esse desejo quase se realizou:
Uma bala de fuzil se perdeu num tiroteio e veio parar no meio do meu travesseiro
Só não me acertou em cheio porque eu tava com prisão de ventre, no banheiro
Atualmente eu já me deito esperando o pior
E pra facilitar eu já durmo de paletó
Meu caixão também tá pronto atrás da porta,
enrolado com a bandeira do Brasil,
E quando eu sonho com o futuro eu acordo inseguro
Escutando mais um tiro de fuzil Pra variar estamos em guerra Pra variar ...
Eu sou uma bala perdida, uma bala desgraçada Inofensiva, feito uma criança abandonada
Eu estou sendo injustiçada Não sou culpada Se eu tô aqui é porque eu fui disparada
Eu não queria entrar na arma mas o dedo foi mais forte
O dedo me pôs na arma, puxou o gatilho, então porque que eu sou responsabilizada pela morte?
Eu gostaria de ser uma bala de mel
Feita com amor, embrulhada num papel
Mas vocês me fizeram pra acabar com a vida
Desde que eu nasci eu sou uma bala perdida
Eu sempre fui perdida, por natureza
Até num suicídio ou em legítima defesa
A maioria ainda nem percebeu
Vocês tão muito mais perdidos do que eu
Pra variar estamos em guerra Pra variar ...

11. Festa da Música

Há muito tempo tá rolando essa festa maneira
Da música Popular Brasileira
Ninguém me convidou mas eu queria entrar
Peguei o 175 e vim direto pra cá
Festa da música
Tupiniquim Que tá rolando aqui na rua Antônio Carlos Jobim
Todo mundo tá presente e não tem hora pra acabar
E muita gente ainda tá pra chegar
Na portaria o segurança pediu o crachá do Gilberto Gil Ele apenas sorriu
Acompanhado por Caetano, Djavan, Pepeu, Elba, Moraes,
Alceu Valença (Xá comigo! Dá licença! Abre essa porta, cabra da peste)
E foi assim que eu penetrei com a galera do Nordeste
Baby tá na área, senti firmeza! E aí Sandra de Sá! - "Bye bye tristeza ..."
Birinight à vontade a noite inteira
Olha o Ed Motta assaltando a geladeira
Olha quanta gata bonita e gostosa!
Olha o Tiririca com uma negra cheirosa
Ué! Cadê os críticos?! Ninguém convidou?
"Barrados no Baile uououo"
Não é festa do cabide mas o Ney tirou a roupa Bzz...
Paulinho Moska pousou na minha sopa
Cidade Negra apresentou um reggae nota cem
Tá rolando um Skank também!
E o Tim Maia até agora nem pintou
Mas o Jorge Benjor trouxe a banda que chegou "Pra animar a festa"
Festa da música Tupiniquim
Que tá rolando aqui na rua Antônio Carlos Jobim
Todo mundo tá presente e não tem hora pra acabar
E muita gente ainda tá pra chegar
A festa tá correndo bem
O Lobão até agora não falou mal de ninguém
O Barão e os Titãs tão tocando Raulzito
A Rita Lee tá vindo ali ... ãnh? Não acredito!
Ela olhou pra mim e disse "Baila comigo"
Eu senti aquele frio no umbigo
Mas é claro que adorei o convite
E fui dançar ouvindo o som do Kid Abelha, Paralamas e a Blitz
(Isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais ...)
"Segura o tchan, amarra o tchan" (Xô, Satanás!)
Há! Há! Lulu Santos acabou de chegar
Com Pimenta Malagueta pro Planeta balançar
O Chico César, Science e o Buarque
Observam um pessoal dançando break no chão
E no andar lá de cima um dos donos da festa
Tá na boa, tá em paz, tá tocando um violão:
"Festa estranha com gente esquisita, eu não tô legal, não agüento mais birita"
Festa da música Tupiniquim
Que tá rolando aqui na rua Antônio Carlos Jobim
Todo mundo tá presente e não tem hora pra acabar
E muita gente ainda tá pra chegar Chopp na Tulipa, vinho na taça
(camisinha na boquinha da garrafa!) ... Salve-se quem puder!
Ih... o João Gordo vomitou no meu pé
Fui limpar e dei de cara com os Raimundos
Que me contaram que entraram pelos fundos
Perguntei pelo banheiro e fiz papel de mané
Os sacanas me mandaram pro banheiro de mulher
As meninas tavam lá e foi só eu entrar
Que a Cássia Eller, Zizi Possi e a Gal começaram a gritar (Ahhhhh!)
Quanta saúde! Fernanda Abreu, Daniela Mercury, Marisa Monte, Daúde ...
Calma, eu não vi nada! A Ângela Rô Rô queria me dar porrada
Mas os três malandros, Moreira, Bezerra e Dicró, me ajudaram a escapar do pior
Fui pro Fundo de Quintal, Casa de Bamba
Todo mundo bebe todo mundo samba Beth Carvalho,
Alcione, Zeca Pagodinho Neguinho da Beija-Flor ...
Diz aí Martinho Comé que é, professor? - "É devagar, é devagar, devagarinho"
Festa da música Tupiniquim
Que tá rolando aqui na rua Antônio Carlos Jobim
Todo mundo tá presente e não tem hora pra acabar
E muita gente ainda tá pra chegar
E essa festa é uma loucura
Olha lá o Carlinhos Brown com o pessoal do Sepultura
Vieram com os índios Xavantes
E a polícia veio atrás tentando dar flagrante
E-e-e-ê! O índio tem apito e eu não entendi porquê
Começaram a apitar quando a polícia chegou
Mas a galera do cachimbo da paz nem escutou
Porque o Olodum tava fazendo um batuque maneiro
Até chegarem milhares de funkeiros
Eram tantas duplas que eu até me confundi
Chamei o Leandro e Leonardo de MC!
E o Zezé di Camargo e o Luciano ficaram me zoando
E o funk rolando! Aah ... vocês tinham que ver!
Chitãozinho e Xororó gritando Uh! Tererê!
O pessoal da Jovem Guarda agitando sem parar
Estavam em outra festa mas vieram pra cá
Passei ali por perto e ouvi o Roberto comentar:
"Ê hei! Que onda, que festa de Arromba!"
Todo mundo no maior astral
Mas rolou um boato que preocupou o pessoal
Diziam as más línguas, à boca pequena
Que o Michael Jackson tava chegando pra roubar a cena
E foi aí que a Marina ouviu uma buzina
E todos foram pra janela na maior adrenalina
Uma Brasília Amarela dobrava a esquina
Adivinha quem era?
Festa da música Tupiniquim
Que tá rolando aqui na rua Antônio Carlos Jobim
Todo mundo tá presente e não tem hora pra acabar
E muita gente ainda tá pra chegar.

Quebra Cabeça - 1997
01. Pátria Que Me Pariu02. 2345Meia7803. Cachimbo da Paz04. Sem Saúde05. Pra Onde Vai?06. En La Casa07. +1 Dose08. Dança do Desempregado09. Eu e a Tábua10. Bala Perdida11. Festa da Música12. O Sopro da Cigarra