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GABRIEL
O PENSADOR
no portal
TERRA
Para
Gabriel O Pensador rap no Brasil tem mais essência que nos
EUA
(21.fevereiro.2003)
Gabriel
O Pensador está com 28 anos, casado e com um filho, Tom,
de nove meses, que já ganhou um violãozinho. O garoto
vai para a turnê, assim como a mulher, que é cantora
de seu grupo. Logo mais Tom terá de receber um cachê
- e o rapper ri com a sugestão. Rindo, ele também
está na capa de seu novo CD, um MTV Ao Vivo, que reúne
todos os seus hits (e são vários) e até algumas
inéditas, como a continuação Retrato de um
Playboy - Parte II.
A música
continua pegando pesado com os "filhinhos de papai"
e Gabriel descobriu que ultimamente eles andam batendo até
em mulher. O rapper não corre o risco de se ver ameaçado
pelos playboys? "Eles não querem vestir a carapuça.
Quero fazer uma crítica construtiva, mas não acho
que minha música vá mudar o comportamento dos caras",
explica o cantor ao Terra.
O show,
que também vai virar DVD, conta com a participação
amiga de Lulu Santos, Titãs e do rapper Tito. Marcelo Yuka,
ex-O Rappa, produz duas faixas, Lôrabúrra, que ganhou
uma nova cara, e Mandei Avisar. O som no CD é o mais perto
do "acústico" que Gabriel já chegou, o
que valorizou muito a musicalidade de seu trabalho.
Como o rapper
mais popular do Brasil, na entrevista fica interessante questioná-lo
sobre o rapper mais popular nos Estados Unidos, Eminem. "Gosto
do som, isso não posso negar, mas não gosto do cara",
diz, analisando também o caminho em direção
ao abismo que o hip hop americano vem tomando nos últimos
tempos. Para Gabriel, tudo virou uma repetição e
o conteúdo das letras gringas se perdeu. Aqui ele acha
que o hip hop não embaralha as sentenças. "Fazemos
o rap querendo passar alguma coisa", afirma. E ele aprendeu
uma coisa fundamental em seus 10 anos de carreira: a parte musical
é importante e valoriza suas palavras.
Confira a entrevista:
O
show do MTV Ao Vivo é muito diferente do seu show normal
de turnê?
É um show novo que nós inventamos só para
fazer o disco e a nova turnê. De cara eu achei importante
fazer isso, já que tinha algumas coisas diferentes dos
CDs na antiga turnê, como o FDP3, que é muito diferente
da original. Outras coisas tornamos diferentes, às vezes
intencionalmente. Como pintaram alguns músicos novos, como
o tecladista cubano Pepe, eles acabaram interpretando as músicas
de outra forma - e o repertório mudou bastante. Começamos
a ensaiar um bloco acústico, aí o Ciro (baixista)
lembrou que havíamos feito um especial para a Globo dessa
maneira e nunca mais seguimos pelo mesmo caminho. Tem flauta nas
cinco primeiras músicas. Ao longo desses anos, fui aprendendo
a importância da parte musical. Quanto mais caprichamos,
mais a letra ganha, pois a música também passa uma
idéia.
Uma
das inéditas do disco é Retrato de um Playboy -
Parte II. Eu li a letra e fiquei pensando: nunca um desses playboys
veio te intimar, ofendido com a letra?
Não. Na primeira versão até se levantou alguma
polêmica, mas nunca aconteceu nada demais. Em Lôraburra,
por exemplo, mudei o desfecho da letra, colocando aquela história
da garota que assassinou os pais. O Yuka fez a produção
e ela ficou uma das que mais chamam a atenção no
disco.
Pela
letra, parece fruto da observação de alguém
próximo. Tem amigo com essa atitude destrutiva?
Amigos assim, não. Mas já vi muitas brigas, principalmente
quando era moleque. Ouvi várias histórias de covardia.
E hoje tem coisas que não aconteciam naquela época,
que é homem que bate até em mulher.
O
playboy sequer vai comentar isso, não?
É, ele não quer vestir a carapuça. Mas, apesar
da ironia, minha intenção é fazer uma crítica
que não deixa de ser construtiva. Não confio que
a música vá transformar o comportamento do cara,
mas é construtiva até para a garotada, que vê
essas cenas e começa a achar normal. Nem é para
o "agente", e sim para esse garoto que vai achar isso
tudo normal, então essa atitude deve ser ridicularizada.
Agora o playboy que já faz isso talvez só com o
passar dos anos, amadurecimento, mas acho que é um problema
psicológico. Até trato a letra de maneira psicanalítica.
Um cara perturbado, que é o que ele é mesmo.
É
interessante ver o cenário político hoje e compará-lo
ao tempo em que você escreveu Tô Feliz (Matei O Presidente).
Acabei fazendo o Cara Feia, que fala indiretamente do Lula, que
é uma oposta otimista. Um presidente operário, um
exemplo de que a honestidade pode dar certo também. A música
também fala de outras coisas, como o preconceito: "Cara
feira para mim é fome/Cara alegre é para quem come".
O
governo Lula. O que tem achado nesses primeiros meses? Você
foi eleitor dele em outras eleições?
Votei. Gostei desse início. E com a volta do Senado e do
Congresso vamos ver qual o resultado desse governo. O que o poder
executivo tem feito eu gostei.
Você
vai se engajar de alguma forma no Fome Zero? Ou já faz
algum tipo de trabalho em relação a isso?
Tem uma ONG que eu tenho ligações, a Dreams Can
Be, comandada por uma americana que vive entre o Brasil e os EUA.
Ela conhece muitos projetos com grana e me chamou para ser um
dos representantes. Por enquanto, só fui nos projetos do
Rio, mas estamos querendo expandir isso. Ela sabe ver os projetos
sérios e eu acabo ajudando a autoestima das pessoas nos
lugares que visito - e é algo até simples pra eu
fazer.
Queria
saber o que você achou do fechamento da Abril Music? Imagino
que você tenha artistas amigos seus lá.
A crise já vem sendo comentada há um bom tempo.
Nada foi feito de eficaz contra a pirataria. É claro que
existem outros fatores, como a crise econômica, os preços
altos dos CDs que as gravadoras dizem que não têm
como baixar, senão teriam de demitir um monte de pessoas.
Então, a pirataria, a crise, a mudança de governo.
O fechamento de mais uma gravadora é um sinal de que o
combate à pirataria não tem surtido efeito.
Você
já comprou um CD pirata seu, por curiosidade?
Não. Mas uma vez, em um restaurante desses de estrada,
vi uma fita pirata e reclamei. Peguei a fita e disse para a dona:
"Você não pode vender isso, não".
E ela respondeu: "Eu sei" (risos)
O
ano passado, para você, qual foi o disco mais importante
de rap?
Public Enemy.
Você
conhece os Racionais? Se dá bem com eles?
Conheço. Existe uma relação, mas com quem
tenho mais contato de amizade mesmo é com o Tito, que participa
do meu CD. Tem o MV Bill, que começou na mesma época
que eu. Temos um contato legal, nos falamos de tempos em tempos.
O Tito é mais amigo, e ele tem um projeto maneiro na Funabem,
na casa de detenção, e cheguei a ir lá um
dia desses conhecer o projeto.
Deve
ser uma pergunta constante: Você gosta do Eminem?
Não. Gosto do som, do jeito como ele faz as rimas. Isso
não posso negar. Mas não gosto do cara, da proposta,
do conteúdo da letras, do discurso até de preconceito
contra os gays. Mas ele faz isso para chamar a atenção,
para vender, tenho certeza.
Não
é a ironia dele que é muito ácida e ele se
faz de preconceituoso?
Não, nesse caso ele faz porque é polêmico.
Mas é uma coisa irresponsável. O cara é meio
forçado.
Nos
EUA tem um rapper assumidamente gay chamado Caushun, algo raro
por lá. E os rappers americanos, que são ultramachistas,
meio que colocam o cara debaixo do tapete. Não é
estranho o papo libertador, social e politicamente engajado deles
e essa atitude homofóbica?
Os rappers americanos nem têm mais esse engajamento. Se
perdeu muito desse lado que era original, legal. Isso lá
fora. Aqui no Brasil, não, continua maneiro. Lá
a essência se perdeu por causa de um trabalho repetitivo,
sem originalidade. Musicalmente ainda tem uns lances legais.
E
no Brasil, não corremos o risco de ir para o mesmo caminho?
No Brasil o cara faz o rap querendo passar alguma coisa. Independente
do estilo, quase todos querem passar alguma coisa legal. Não
é uma coisa só de protesto, com temas repetitivos.
Aqui tentamos caprichar no conteúdo das letras. Lá
fora é sem conteúdo, um "free style" vazio
- e a galera se amarra!
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