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Cacique
Limpeza
por Robert Halfoun
Revista Showbizz
Com
jeitinho e inteligência, Gabriel O Pensador aperta, puxa,
prende e passa uma polêmica pelos lares de todo o Brasil.
Pelo
telefone, da sua casa na Barra da Tijuca (Rio), Gabriel não
consegue esconder a empolgação ao falar de "Cachimbo
da Paz", consagrada como música do verão e
recordista de execuções nas FMs de todo o Brasil:
"Pô, gosto pra caramba dessa letra! Acho que fui feliz
não só pela maneira em que toco em assuntos como
maconha e violência, mas também por conseguir abordar
toda a situação em que eles estão envolvidos.
Ao mesmo tempo, não tenho a pretensão de apresentar
solução alguma. Até porque a minha análise
da situação é muito complexo." O Pensador
diz também que não quis promover a maconha e acha
que por isso a música foi tão bem aceita, sem recriminação.
"Sem me comparar com o Planet ou com qualquer outro grupo,
eu não quero induzir ninguém a fumar. Não
é a intenção da letra." Mas a verdadeira
verdade é que, sem pegar pesado, o Pensador fala da hipocrisia
em torno da erva de maneira tão ou mais incisiva quanto
Marcelo D2 e cia.
A diferença é que "Cachimbo da Paz" teve
seu clipe exibido em horário nobre do Fantástico,
na TV Globo, e foi totalmente aceita pela sociedade. "Eu
vejo coroas ouvindo com os filhos, sabendo o que se passa por
trás daquela história, mas encarando numa boa. Ao
mesmo tempo, sinto que a galera que curte fumar também
está amarradona", diz, com jeito manemolente de garotão
de praia. Até aquele delegado que armou pra cima do Planet
em Brasília elogiou a música. "Estamos prontos
para filmar o show do Gabriel, mas até que ele falou da
erva de maneira inteligente", disse o policial, cujo nome
fazemos questão de não publicar.
É incrível, mas, falando claro num país onde
ainda reina um falso moralismo bundão, essa aceitação
toda acontece também porque Gabriel consegue escapar do
rótulo de maconheiro. Se ele é? "Não
acho que essa questão seja relevante... As pessoas devem
fazer o que quiserem, só que com responsabilidade. Não
dá para neguinho fumar e sair dirigindo por aí...
De resto, qual é o problema do cara gostar de apertar um
baseado?"
Apesar da postura relaxada, parecendo sempre de bem com a vida,
Gabriel O Pensador também ataca. Ou melhor contra-ataca.
A galera do Planet andou dando umas detonadas no rapper da Zona
Sul e ele responde. "Eu soube que o pessoal não gosta
muito de mim, né? Cada um fala o que quer... Mas pelo menos
da minha parte, não tem nenhuma rixa. Não vou entrar
nessa onda... Talvez essa polêmica seja interessante para
eles, pra mim não. Além do mais, eu não conheço
bem o trabalho do Planet Hemp, não é exatamente
o meu tipo de som." Aos xiitas do hip hop que o xingam de
"rapper playboy", Gabriel informa e elabora: "Tenho
uma dose de humor, de irreverência... Sou um rapper brasileiro
assumido, autêntico pra cacete. Nesse aspecto autenticidade,
aliás, o rap brasileiro perdeu demais. Tem gente fazendo
muita pose e repetindo um discurso violento que já perceberam
que vende. Eu sou um cara que, com o maior sorriso nos lábios,
faz crítica social".
E vale completar, muito, muito sucesso também. Depois do
estouro do primeiro disco, do qual saíram os hits "Lôraburra"
e "Retrato de um Playboy", Gabriel amargou um flop (fracasso
de vendas) violento no segundo. "Eu estava muito chato, me
levando a sério demais", admite. Agora, com Quebra
Cabeça há cerca de seis meses nas lojas, já
ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas.
Um dos responsáveis por essa marca é o produtor
Memê (o mesmo que transformou Claudinho e Buchecha em mania
nacional), que anexou samplers matadores ao rap de Gabriel. Exemplo:
a base que você ouve em "Cachimbo da Paz", na
verdade é a música "Groovin" dos Young
Rascals (grupo ítalo-americano dos anos 60), regravada
por Pato Banton. "O sampler é muito usado no Brasil,
mas desse jeito, como fazem os rappers americanos, acho que só
tem eu", diz Gabriel. "Sempre gostei de reconhecer uma
música dentro da outra e me amarro em poder dar esse gostinho
para quem ouve as minhas composições", empolga-se.
Superando artistas de pagode e axé nas paradas, o Pensador
conquistou todo tipo de público. O povo à sua volta
já pensa até em superexposição. "É,
isso não é uma coisa que eu decido sozinho.... Mas
eu não quero me esconder não. Acho que o trabalho
está só no meio, o disco ainda pode render muito".
E a próxima música a virar clipe é o samba
"Dança dos Desempregados" ("Tem tudo a ver
com esse momento, né?", comenta). No vídeo,
o Pensador já deve aparecer com novo visual na cachola.
"Vou deixar o cabelo solto, com tranças só
nas pontas. Voltei a pegar onda e a maresia tem detonado o meu
cabelo", explica, cheio de malícia. "
MC
BOLLADO BATEU UM BOLÃO
A
letra de "Cachimbo da Paz" é de Gabriel, mas
o refrão irresistível é do mestre Lulu Santos.
E o Pensador se agita todo ao falar disso. "Faço questão
de desfiar todos os elogios ao Lulu. Quando fiz a letra estava
amarradão, mas não conseguia bolar o refrão.
Aí como já tínhamos trabalhado juntos no
disco dele, liguei para o cara, pedi uma força e, de um
dia para o outro, ele mandou essa maravilha que caiu como uma
luva. Ele sabe dizer muito em poucas palavras. A frase "sente
a maresia" e a melodia em que ela é cantada passam
toda a calma, a vibração que eu queria. Pra variar,
o Lulu arrebentou", derrete-se.
GINGA
CARIOCA
O Pensador não vive sem
SAMBA E FUTEBOL
Finalzinho
de 1997 e lá está Gabriel, em pleno Maracanã,
numa partida entre duas emissoras de rádio. Preliminar
do clássico em que o Vasco comandado por Edmundo meteu
uma histórica piaba de 4 a 1 no menguinho. Em campo, correndo
muito, o rubro-negro Gabriel faz boa partida, mas é sacaneado
pela torcida cruz-maltina. Entre gritos de "ta cansado, maconheiro?"
ouve a musiquinha "recordar é viver, a maconha acabou
com você". Até que lá pelos 35 minutos
do segundo tempo, domina na intermediária, ajeita e solta
a canhota, cheio de estilo. A bola explode no travessão.
"Estava louco pra marcar um gol, quase deu", suspirou,
após o banho e uma meia dúzia de cachorros-quentes,
no bar das cadeiras especiais. Gabriel joga toda quarta-feira
no campo da Colônia Juliano Moreira, um aprazível
hospício da Zona Oeste.
O novo sucesso "Dança do Desempregado" não
nega outro lado da carioquice do rapper: ele é doidinho
por samba... "Chorei quando cantaram 'Foi um rio que passou
em Minha Vida' na concentração da Portela ano passado."
Discos de Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho e Fundo de Quintal
estão sempre no topo da sua pilha de CDs. "Meu avô
é compositor de samba, está no sangue", explica.
(Bernardo Araújo)
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