GABRIEL O PENSADOR
na revista QUEM (www)

Polêmica à Vista
(02.maio.2005)

Ele estava quietinho, mas volta em junho com novo CD – Cavaleiro Andante. Além de músico, GABRIEL O PENSADOR agora é pai de TOM e DAVI. As prioridades mudaram, mas o bom humor e a ironia de suas letras continuam iguais.

Carolina Camargo

“Não se trata de querer motivar, mas tem muita gente que usa drogas e a sociedade tem que se adaptar. Não adianta jogar na clandestinidade porque não está dando certo”

De playboy, filhinho de papai e inimigo das louras burras, o tempo passou para Gabriel O Pensador. Casado com Ana Lima, que também é sua backing vocal, e pai de Tom, 3 anos, e Davi, dois meses, a vida em família deu uma nova cara ao músico, que canta cada vez mais temas sérios como a violência e a fé, e, agora, não descarta a possibilidade de se mudar do Rio de Janeiro, se a situação não melhorar. “Estou sempre perto dos tiroteios, já perdi amigos que moram em favelas. A gente acaba se acostumando, infelizmente”, conta.

Mas Gabriel faz a sua parte. Há dois anos, o músico mantém um projeto social com crianças da Favela da Rocinha. Em seu mais recente trabalho, o CD Cavaleiro An-dante, que chega às lojas no começo de junho, ele usa Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Renato Russo para (re)lembrar o quanto o Rio ainda é lindo, mas perigoso, e nunca tarde para reverter o jogo. “Podemos buscar a fé no amor, lutar contra a frieza e o individualismo que a sociedade valoriza cada vez mais. Vamos lutar contra a violência amando e usando o amor como arma”, acredita.

QUEM – Você é casado com a sua backing vocal. Como funciona o relacionamento?
GP –
A Ana é parceirona e a gente lida bem com isso, mesmo indo para a estrada com os
filhos, um detalhe que dá trabalho, mas diverte. Virou uma coisa só, mas não tem regra.

QUEM – O que mudou depois de ser pai?
GP –
Ampliou a percepção de muita coisa – do que é ter uma família, a relação com os meus pais, da força desse laço de continuidade, muito forte e difícil de descrever. Tenho uma preocupação maior com os problemas do mundo, que vão afetá-los. Por outro lado, você estressa menos com as besteiras do dia-a-dia porque sabe que o filho está em casa e é uma coisa muito maior para levar em conta.

QUEM – Você é um pai babão?
GP –
Dizem que tenho um lado durão com o Tom, que coloco de castigo por causa de manha. Mas sou bem liberal com muita coisa. Ele mexe no estúdio, no computador. É uma relação de amor muito legal, que não tive porque meus pais se separaram quando eu tinha seis meses. Digo que amo, dou carinho, faço coisas que nem todo pai fica demonstrando.

QUEM – O Tom até participa da canção Sem Neurose....
GP –
Ele tem música na veia, muito ritmo, acompanha a gente e vê isso como uma atividade normal. Eu estava fazendo a préprodução, ele começou a cantar, eu gravei e ele ficou todo orgulhoso. Sou suspeito para falar, mas fico impressionado.

QUEM – A preocupação com a violência, tema recorrente em algumas canções, é por causa dos meninos?
GP – Eu já era ligado nisso e no papel da música, o poder de falar e ser ouvido. Mas com eles aumenta a vontade de ver as coisas mudarem.

QUEM – Tem solução? GP – Não é só no Rio, mas a impunidade e a corrupção acabam gerando a pobreza. Existe um primeiro criminoso, histórico no Brasil, que é o político que rouba – sem querer gene-ralizar. Quando começa a faltar dinheiro para a comunidade, faltar escola, isso gera uma carência tão grande que leva à violência. Não justifica entrar no crime, mas empurra. A solução passa pela política, não tem jeito.

QUEM – Como você avalia o governo do Estado do Rio?
GP –
A gente achava que estavam votando mal, mas agora vemos que é muita ignorância das pessoas, que vendem seu voto por R$ 1, por brindes, como foi comprovado nas eleições de Campos e, com certeza, são práticas que a governadora e o ex-governador conhecem. Eles contribuíram muito para a violência porque são muito ruins. O (Anthony) Garotinho, como secretário de Segurança, era um zero à esquerda.

“Vamos lutar contra a violência amando e usando o amor como arma. Na prática, isso é possível, não é só uma coisa poética”

QUEM – Já pensou em mudar do Rio?
GP – Não penso por mim, penso pelos meus
filhos. Sou um cara querido, moro do lado da favela, conheço todo mundo, faço show de graça. Ainda tenho essa vantagem sobre o cidadão comum, mas mesmo assim não estou imune, basta ver o caso do Marcelo Yuka (baterista), que levou uns tiros e os caras nem sabiam quem era. Se as coisas continuarem ruins, não descarto essa possibilidade.

QUEM – Já aconteceu alguma coisa com você?
GP – Não, mas estou sempre perto dos tiroteios, já perdi amigos que moram em favelas. Com 15 anos, vi um cara matar outro na minha frente. A gente acaba se acostumando, infelizmente.

QUEM – Um dos grande problemas do Rio é o tráfico. Você é a favor da legalização das drogas?
GP – Quais drogas e como legalizar? Não é simples. Acho que está errada a maneira como o usuário é reprimido e jogado no meio do crime para comprar a droga. A sociedade não sabe como controlar o consumo ou reprimir a venda de uma forma mais justa com quem é usuário. É hipócrita, porque muitas vezes a polícia só quer extorquir. Não incentivo o uso porque nunca fui muito ligado em bebida ou maconha, que foram as únicas drogas que experimentei. Não se trata de querer motivar, mas tem muita gente que usa e a sociedade tem que se adaptar, não adianta jogar na clandestinidade porque não está dando certo.

QUEM – Você fala de fé em algumas canções. Qual a sua religião?
GP – Eu não tenho religião, mas acredito em Deus porque já me habituei a acreditar. Agradeço antes de entrar no show, de entrar no mar, mas tenho altos e baixos. Tive um momento meio esquisito depois do tsunami, porque estive lá, vi as pessoas dos vilarejos, brinquei com as crianças. Fiquei muito mal e me perguntei como Deus deixa isso acontecer. É uma pergunta babaca, mas certas religiões explicam como carma, outras como castigo. Eu não tenho explicação para isso, o que gera dúvida, mas continuo tendo fé.

QUEM – Por que usou na canção Palavras Repetidas o refrão ‘É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã’, do Legião Urbana?
GP – A violência deixa a gente mais frio, acabamos nos fechando e vendo o próximo como uma ameaça, perdemos a sensibilidade. Apesar disso tudo, podemos buscar a fé no amor, lutar contra a frieza e o individualismo, que a sociedade valoriza cada vez mais. A gente fica na defensiva o tempo todo. Vamos lutar contra a violência amando e usando o amor como arma. Na prática, isso é possível, não é só uma coisa poética.

QUEM – Você tem um projeto com crianças carentes?

GP – São 30 meninos e meninas de até 18 anos. Eles têm aulas de português, matemática, informática, rap, fazem passeios e recebem cesta básica e plano de saúde. Mas, para participar, têm que estar no colégio, o que já é uma vitória, porque a maioria é de garotos que conheci no farol, alguns estavam abandonando a escola, outros nunca tinham ido. Como o ensino em escola pública nem sempre é o ideal, damos um reforço. É um projeto novo, de dois anos, e pequeno – são poucas pessoas, mas conhecemos todos bem. Tenho orgulho de alguns garotos e me decepciono com outros, que acabam saindo porque não conseguem seguir as regras.