Entrevista de Gabriel ao suplemente Y do jornal português Público
2001

Publicação: Y (suplemento do jornal Público)
Autor: Miguel Francisco Cadete
Título: O Mundo Através das Palavras
[texto introdutório]

Diz que se sente cada vez menos rapper. Por isso, o novo álbum, "Seja você mesmo...", revela um músico numa encruzilhada procurando novos desígnios para a sua carreira.
Gabriel o Pensador não é o único rapper brasileiro, mas é aquele que tem mantido relações mais cordiais com o público português. Desde o álbum "Ainda é só o começo" que revelou uma posição crítica do sistema ao retratar com ironia sarcástica estereótipos como o playboy ou a loura burra ou ao declarar "hoje eu estou feliz, matei o presidente".

[nota do webmaster I: talvez seja uma gralha infeliz, mas penso que o autor deste artigo referia-se ao primeiro álbum, cujo nome era simplesmente "Gabriel o Pensador", que tinha as músicas a que faz referência ("Retrato de um Playboy", "Lôraburra" e "Hoje Eu Tô Feliz"). O álbum "Ainda é só o começo" foi o segundo álbum de Gabriel e retrata outro tipo de estereótipos.]

Ainda que marcadas por uma perspectiva tipicamente própria da classe média - Gabriel Contino é filho da jornalista Belise Ribeiro, na altura assessora do presidente Collor de Mello - as suas letras encaixavam perfeitamente na métrica do rap, trazendo novos mundos ao hip-hop cantado na língua portuguesa.

Se essa era a sua principal inovação, o último álbum, "Seja você mesmo..." transporta-nos para outras paragens, não tão limitadas por uma batida hip-hop, mas com uma abertura descarada a sonoridades que vão beber no rock ou na música de dança. É um Gabriel mais eclético, preocupado com a forma como se insere no panorama da música brasileira, este que hoje nos chega do Rio de Janeiro.
Produzido por Liminha, um dos produtores mais prestigiados do Brasil, e pelo nova-iorquino Itaal Shur, compositor do tema "Smooth" gravado por Carlos Santana e vencedor de um Grammy [nota do webmaster II: e também pelo Chico Neves, não se esqueça! Ele produziu a música "Brasa", uma das melhores do CD!], "Seja você mesmo..." mostra o artista numa encruzilhada, enquanto procura novas pistas para a sua música e para a sua arte. No Brasil, a edição do álbum foi acompanahda pela publicação do livro "Diário Noturno", uma colecção de textos, poesias e até exames escolares de Gabriel o Pensador, capaz de transportar o rapper para mais perto dos seus ouvintes e, agora, leitores. Em Lisboa, Gabriel foi entrevistado no terraço do Hotel Sheraton.

[entrevista]
[Y] Este disco mostra Gabriel em busca de um caminho próprio. Ouvem-se vários estilos de música e, de alguma forma, a batida hip-hop foi abandonada. Como não é propriamente um compositor, isso tem a ver com o facto de metade do álbum ter sido produzido por Liminha e outra metade por Itaal Shur?
[GoP] Não busco um caminho para o disco ou para o som do disco. Nunca foi assim. Por vezes acontecia uma mistura de sonoridades mais subtil, com outros géneros de música ou com outros ritmos, mas neste álbum essa opção foi mais radical. Há uma vertente muito forte do rock e outra que segue outros caminhos muito variados. Alguns estão mais próximos do que eu já tinha feito, outros chegaram por influência do Itaal Shur. Eu nunca busquei um caminho e o rock também não foi uma coisa que procurasse. Apareceu no tema "Até quando", que eu adorei porque consegui passar mais emoção, e foi o primeiro a ser gravado para este disco. Para mim é uma das melhores canções da minha carreira e a letra ganhou muito com a música tal como ela está. Empolguei-me com esse tema e, juntamente com o Liminha, continuei uma ideia que já tinha dado certo com o Itaal - uma música com mais peso, com mais energia.

[Y] O Gabriel não é um compositor e, por isso, necessita sempre de recorrer a produtores. Como aconteceu esta colaboração com Liminha e Itaal Shur?
[GoP] Eu não conhecia o Itaal mas ele procurou-me. Apesar de ser norte-americano, ele tem amigos no Rio de Janeiro, e contactou-me para fazermos um som juntos. A ideia era compor alguma coisa, sem existir algo já premeditado. Eu ainda nem estava pensando neste disco quando ele me contactou da primeira vez. Mas quando fui fazer dois espectáculos em Nova Iorque, encontrámo-nos e combinámos que eu passava no estúdio dele no dia seguinte. Então ele mostrou-me algumas coisas que estava a produzir na altura. Fiz algumas letras já com essas músicas em mente e começámos a trabalhar à distância. Falei com a editora e combinámos entrar em estúdio. Ele foi para o Brasil em Dezembro e ficou lá comigo até Fevereiro.
Entrosámo-nos muito bem. Desde o início, a variedade de estilos ficou logo muito clara para mim. Essa é uma liberdade que eu tenho e, para mim, é o melhor do disco. Empolguei-me tanto com o tema "Até quando", produzido pelo Itaal, que fui falar com o Liminha. Ele é baixista mas anda entusiasmado com a guitarra e, a partir daí, inventámos outras coisas. Ele também gosta de variar e também fez coisas muito diferentes como "É Para Rir ou Para Chorar", tipicamente em groove de hip-hop.

[Y] E as letras, como as encaixa nos temas? Recentemente, Adriana Calcanhotto elogiou a sua métrica.
[GoP]
Quando faço uma letra a pensar numa gravação, ela já vem com um ritmo, com uma melodia. Aí, já posso sugerir a um músico qual a onda que quero. Quando estou a escrever uma letra, já estou a pensar nos compassos.
Eu não diria que os rappers brasileiros ou portugueses pensem em inglês, mas a influência do hip-hop norte-americano é capaz de ser maior para eles. Os rappers brasileiros, por exemplo, talvez não tenham sofrido a mistura de influências musicais que eu sofri. Na minha adolescência, eu misturei o rap americano com Bob Marley, com músicos e compositores brasileiros. Talvez essa seja a base da minha criação. Eu talvez pense mais em português. Tenho uma irreverência ou uma ginga, em termos de letra, que é muito carioca, muito brasileira. Não é influência do rap americano, mas do samba que eu ouvia ou de outros compositores como Chico Buarque ou Raul Seixas que, para mim, foram muito úteis.

[Y] Como é visto, então, no seio do hip-hop brasileiro?
[GoP]
No começo da minha carreira, tentei criar um movimento hip-hop no Rio de Janeiro. Mas vi que isso não dava certo, porque a mentalidade de grande parte dos rappers não era igual à minha. Então tentei assumir isso publicamente, cada vez com mais clareza: que o meu trabalho não é para o público de rap mas para o público em geral. Não frequento o meio específico do rap por vontade própria. Vejo algumas coisas boas neles, como a intenção. Normalmente, a intenção dos caras que começam a fazer rap no Brasil é transformar o mundo através das palavras, consciencializar, denunciar... O que já não é o caso dos americanos, que hoje só fazem marketing puro.
Mas a visão dos rappers brasileiros é muito diferente da minha. A sua visão da televisão, dos media, das coisas que uso para expandir o meu trabalho - e que eles não usam porque preferem ficar no underground - são bem diversas.

[Y] Essa sua mudança de atitude reflecte-se também no título deste álbum: "Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo"?
[GoP]
Este título tem uma analogia com aquilo que eu já tinha dito sobre os playboys e as louras. É uma coisa que venho de há muito a incentivar nas pessoas: não seguir comportamentos pré-estabelecidos pela moda, pela televisão ou pelo consumismo. Tem a ver com essa minha ruptura com o "fake" real do hip-hop.

[Y] E como se tem integrado no meio da música brasileira? Num dos álbuns anteriores incluía um tema, "Festa da Música", em que citava inúmeros protagonistas da música brasileira...
[GoP]
Eu já estou bem integrado no meio da música brasileira. Sou muito caseiro, não fico nas badalações, nem trabalho em função disso. Mas já fiz algumas coisas com artistas que eram meus ídolos. Já fiz uma música com o Djavan, outra com o Caetano. Há pouco tempo fui a um espectáculo do Caetano e a seguir, a convite do próprio, eu e algumas pessoas fomos jantar fora. Ele falou muito bem do meu disco. Eu sei que ele adora fazer elogios, que não é difícil ganhar um elogio dele, mas é bom ouvir isso. Ele elogiou muito a música que assinei com o Lenine. Mas fiquei sem graça, porque, por mais que eu tenha essa relação de proximidade, eu me sinto tímido diante do Caetano.
Eu acho que sou bem querido pela galera. Sou simpático com todo o mundo...

[Y] A edição do livro "Diário Noturno" pretende estabelecer alguma complementaridade com o disco, ou com a sua obra musical?
[GoP]
Este livro parte de uma fase em que escrevi poemas, por volta de 1998. Um dia, na altura das gravações do álbum anterior, pensei editar esses poemas, mas esse projecto ficou esquecido. Mais tarde, ao arrumar um quarto da minha casa para fazer um estúdio (que ainda não fiz), encontrei algumas coisas escritas na escola, dos tempos de garoto, e decidi juntar isso com os poemas e lançar mesmo um livro. Fui exigente na selecção e, quando o projecto começou a tomar direcção, decidi retirar algunas contos de ficção. Porque o livro não tinha nada a ver com ficção, era uma coisa bem pessoal. Então escrevi mais poemas, voltei a escrever um diário, como fazia quando era garoto... Saía de um espectáculo emocionado, e aproveitava para escrever sobre isso. Funcionou mais como um canal adicional de comunicação, com as pessoas e comigo mesmo.
São muitas coisas diferentes, mas tem um lado que funciona como um diário, em que eu estou conversando comigo mesmo, desabafando, e tem outro lado em que me dirijo ao leitor e, então, falo do Brasil, dos espectáculos...

[Y] Nunca tentou aprofundar a sua relação com artistas portugueses?
[GoP]
Participei no concerto dos Delfins, "Saber a mar", quando eles gravaram no Rio de Janeiro uma versão do "Soltem os Prisioneiros". E o General D também gravou uma música que fizémos em parceria. Não participei nas gravações, mas fiz uma parte da letra.

[Y] Tem alguma perspectiva de internacionalizar a sua carreira?
[GoP]
Na Europa nunca actuei fora de Portugal. Nos Estados Unidos actuei várias vezes mas para um público brasileiro. É uma coisa que os artistas brasileiros fazem muito e que não significa nada de especial. Também fui a Cabo Verde, em 1995, e foi uma experiência óptima. Em palcos internacionais, também actuei no Japão. Quando editei o terceiro álbum, a editora quis lançá-lo no Japão e fizémos três espectáculos lá, mas para brasileiros - em Tóquio havia público japonês, que não falava português. Também actuámos em Buenos Aires mas, na verdade, não existe uma ideia para desenvolver esses mercados. As minhas letras são muito importantes e a internacionalização não é o meu objectivo principa