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GABRIEL
O PENSADOR
na PLAYBOY!
Gabriel
O Pensador
(maio.2003)
O
rapper carioca fala (muito!) de fugir da polícia no tempo
de pichador, do mico de dar show chapado, de ficar com fã
e da vida feliz com mulher e filho
Esta
entrevista que se estenderá pelas próximas páginas
parece grande, não? Tem cerca de 50 mil caracteres digitados,
e quem mexe com Word no computador sabe que é um texto
muito longo. Pois Gabriel Contino, o rapper Gabriel O Pensador,
acaba de lançar CD e DVD ao vivo com seus maiores sucessos.
O incrível é que todas as letras que ele canta no
show, somadas, alcançam mais de 47 mil caracteres. Quase
o tamanho desta entrevista. Em pouco mais de hora e meia, ele
canta praticamente um pequeno livro.
Gabriel
pensa, escreve, canta e fala muito. Lançou seu primeiro
álbum em 1993, com 19 anos recém-completados. Foi
um sucesso instantâneo, inserindo na MPB personagens como
a Lôra Burra e o Playboy Filhinho de Papai. Se o grande
público o aceitou facilmente, alguns rappers desconfiaram
do garoto branco classe média que disparava críticas
no ritmo que era praticamente propriedade exclusiva dos negros
da periferia.
Totalmente
na sua, o cantor e compositor, como ele gosta de preencher nas
fichas de hotéis, seguiu sua carreira de guinadas, de altos
e baixos. O segundo disco, mais "sério", sem
os refrões fáceis que haviam conquistado até
o público infantil, não foi bem. Mas veio então
Quebra-Cabeça, seu álbum mais irreverente, que estourou:
1,5 milhão de cópias e dois hits cantados pelo país
inteiro, 2345meia78 e Cachimbo da Paz (aquela da "maresia,
sente a maresia..."). De lá para cá, mais dois
CDs de estúdio e, agora, o registro ao vivo. Uma década
de carreira, fama consolidada.
Fama
que começou, na verdade, antes mesmo do primeiro álbum.
Em 1992, no auge das manifestações pedindo o impeachment
do então presidente Fernando Collor, Gabriel enviou a uma
rádio a fita demo do rap Tô Feliz, Matei o Presidente.
A censura baniu a música das rádios, mas os poucos
dias no ar acenderam boa polêmica, ainda mais forte com
o fato de a mãe do cantor, a jornalista Belisa Ribeiro,
ter sido assessora de Collor.
O Gabriel
que já falou em matar o presidente e atacou a "bundalização
na TV" parece estar um pouco mais calmo fora dos palcos.
Aos 29 anos, casado há oito com Aninha Lima, ex-colega
de escola e cantora de sua banda, ele é pai de Tom, que
comemora seu primeiro aniversário este mês. Entre
a família, ensaios, shows e o surfe, arrumou tempo para
um livro, Diário Noturno, com anotações e
poemas.
Em oito
horas de entrevista, divididas em sessões em São
Paulo e no Rio, o editor sênior Thales de Menezes surpreendeu-se
com Gabriel: "A primeira surpresa é que ele é
alto, quase 1,90 metro, muito mais alto do que parece em shows
ou clipes. E basta um pouco de conversa para admirar a capacidade
de articulação e a simpatia do rapaz. Jeito de bom
menino, lembra aquele garoto mais curioso da classe, o que conquista
os professores com tanto interesse pelas aulas. Fala pelos cotovelos
e fica se desculpando por não dar tempo para que o entrevistador
cumpra seu papel. Quando cita alguma de suas canções,
fica tímido e pede licença para cantá-la.
Tudo o que ele cantarolou durante nossos encontros daria para
editar um CD com performances inéditas.
É
fácil perceber que Gabriel é do tipo que pára
na rua e conversa com todo mundo. Sua adolescência passada
entre tribos bem distintas, como a galera da Rocinha e os playboyzinhos
da Barra da Tijuca, o deixa à vontade em qualquer canto
do Rio, e é desse convívio que ele tira combustível
para suas letras. Gabriel conta casos pessoais com sinceridade
transparente. Chegou a se emocionar em vários momentos
da entrevista. Recordou uma música que ele escreveu especialmente
para um disco a ser lançado apenas em Portugal, país
que o acolhe com carinho desde sua estréia. A canção,
com o título Tás a Ver?, foi composta numa de suas
viagens pela Indonésia, onde vai surfar com amigos quando
a agenda e a conta bancária permitem. A letra fala de solidão,
do sentido da vida, e Gabriel estava isolado, bem longe do filho
pequeno quando a escreveu. Ele conseguiu cantá-la inteira,
mas não evitou o choro. (Escute a gravação
de Gabriel cantando a música em nossa seção
Extra.)
Seu
bom astral foi posto à prova durante a sessão de
fotos para PLAYBOY, num hotel em São Paulo. Depois de posar
pacientemente para a lente numa quadra de squash, Gabriel não
percebeu a espessa parede de vidro transparente que delimita o
fundo da quadra. Bateu forte, muito forte mesmo, com o rosto e
o joelho. Teve de sentar no chão para não cair com
a tontura e passou vários minutos com uma bolsa de gelo
no rosto, o que não foi suficiente para evitar a enorme
mancha roxa na testa. Mesmo sem estar totalmente recuperado, fez
cara de durão e deixou o local caminhando sem ajuda, fazendo
piada com todos à volta. Um bom humor inabalável".
ENTREVISTA
Gabriel
O Pensador
O rapper carioca fala (muito!) de fugir da polícia no tempo
de pichador, do mico de dar show chapado, de ficar com fã
e da vida feliz com mulher e filho
Por
Thales de Menezes
Esta
entrevista que se estenderá pelas próximas páginas
parece grande, não? Tem cerca de 50 mil caracteres digitados,
e quem mexe com Word no computador sabe que é um texto
muito longo. Pois Gabriel Contino, o rapper Gabriel O Pensador,
acaba de lançar CD e DVD ao vivo com seus maiores sucessos.
O incrível é que todas as letras que ele canta no
show, somadas, alcançam mais de 47 mil caracteres. Quase
o tamanho desta entrevista. Em pouco mais de hora e meia, ele
canta praticamente um pequeno livro.
Gabriel
pensa, escreve, canta e fala muito. Lançou seu primeiro
álbum em 1993, com 19 anos recém-completados. Foi
um sucesso instantâneo, inserindo na MPB personagens como
a Lôra Burra e o Playboy Filhinho de Papai. Se o grande
público o aceitou facilmente, alguns rappers desconfiaram
do garoto branco classe média que disparava críticas
no ritmo que era praticamente propriedade exclusiva dos negros
da periferia.
Totalmente
na sua, o cantor e compositor, como ele gosta de preencher nas
fichas de hotéis, seguiu sua carreira de guinadas, de altos
e baixos. O segundo disco, mais "sério", sem
os refrões fáceis que haviam conquistado até
o público infantil, não foi bem. Mas veio então
Quebra-Cabeça, seu álbum mais irreverente, que estourou:
1,5 milhão de cópias e dois hits cantados pelo país
inteiro, 2345meia78 e Cachimbo da Paz (aquela da "maresia,
sente a maresia..."). De lá para cá, mais dois
CDs de estúdio e, agora, o registro ao vivo. Uma década
de carreira, fama consolidada.
Fama
que começou, na verdade, antes mesmo do primeiro álbum.
Em 1992, no auge das manifestações pedindo o impeachment
do então presidente Fernando Collor, Gabriel enviou a uma
rádio a fita demo do rap Tô Feliz, Matei o Presidente.
A censura baniu a música das rádios, mas os poucos
dias no ar acenderam boa polêmica, ainda mais forte com
o fato de a mãe do cantor, a jornalista Belisa Ribeiro,
ter sido assessora de Collor.
O Gabriel
que já falou em matar o presidente e atacou a "bundalização
na TV" parece estar um pouco mais calmo fora dos palcos.
Aos 29 anos, casado há oito com Aninha Lima, ex-colega
de escola e cantora de sua banda, ele é pai de Tom, que
comemora seu primeiro aniversário este mês. Entre
a família, ensaios, shows e o surfe, arrumou tempo para
um livro, Diário Noturno, com anotações e
poemas.
Em oito
horas de entrevista, divididas em sessões em São
Paulo e no Rio, o editor sênior Thales de Menezes surpreendeu-se
com Gabriel: "A primeira surpresa é que ele é
alto, quase 1,90 metro, muito mais alto do que parece em shows
ou clipes. E basta um pouco de conversa para admirar a capacidade
de articulação e a simpatia do rapaz. Jeito de bom
menino, lembra aquele garoto mais curioso da classe, o que conquista
os professores com tanto interesse pelas aulas. Fala pelos cotovelos
e fica se desculpando por não dar tempo para que o entrevistador
cumpra seu papel. Quando cita alguma de suas canções,
fica tímido e pede licença para cantá-la.
Tudo o que ele cantarolou durante nossos encontros daria para
editar um CD com performances inéditas.
É
fácil perceber que Gabriel é do tipo que pára
na rua e conversa com todo mundo. Sua adolescência passada
entre tribos bem distintas, como a galera da Rocinha e os playboyzinhos
da Barra da Tijuca, o deixa à vontade em qualquer canto
do Rio, e é desse convívio que ele tira combustível
para suas letras. Gabriel conta casos pessoais com sinceridade
transparente. Chegou a se emocionar em vários momentos
da entrevista. Recordou uma música que ele escreveu especialmente
para um disco a ser lançado apenas em Portugal, país
que o acolhe com carinho desde sua estréia. A canção,
com o título Tás a Ver?, foi composta numa de suas
viagens pela Indonésia, onde vai surfar com amigos quando
a agenda e a conta bancária permitem. A letra fala de solidão,
do sentido da vida, e Gabriel estava isolado, bem longe do filho
pequeno quando a escreveu. Ele conseguiu cantá-la inteira,
mas não evitou o choro. (Escute a gravação
de Gabriel cantando a música em nossa seção
Extra.)
Seu
bom astral foi posto à prova durante a sessão de
fotos para PLAYBOY, num hotel em São Paulo. Depois de posar
pacientemente para a lente numa quadra de squash, Gabriel não
percebeu a espessa parede de vidro transparente que delimita o
fundo da quadra. Bateu forte, muito forte mesmo, com o rosto e
o joelho. Teve de sentar no chão para não cair com
a tontura e passou vários minutos com uma bolsa de gelo
no rosto, o que não foi suficiente para evitar a enorme
mancha roxa na testa. Mesmo sem estar totalmente recuperado, fez
cara de durão e deixou o local caminhando sem ajuda, fazendo
piada com todos à volta. Um bom humor inabalável".
PLAYBOY
– Letras intermináveis, um livro lançado e
um site oficial recheado de textos seus. Escrever é tão
fácil assim para você?
GABRIEL – A palavra é minha ferramenta de trabalho.
Cada vez mais eu fico fascinado pela música, quero muito
aprender a tocar um instrumento, até hoje não aprendi,
não precisei aprender. Por mais que eu queira tocar guitarra,
saí do estúdio empolgado com isso, comprei uma guitarra
e tal, cada vez mais eu me apaixono por escrever.
PLAYBOY
– Você tem outros projetos de livro engatilhados?
GABRIEL – Eu estou escrevendo outras coisas depois do Diário
Noturno, coisas de ficção. É uma viagem totalmente
diferente escrever ficção, é algo que eu
já experimentei em algumas letras, quando eu começo
a viajar naquele personagem, mas numa letra de música é
uma coisa mais curta, não tem tanta vida como quando você
escreve um livro. Eu estou escrevendo um romance que tem o formato
dividido em poesia e prosa. Tenho um projeto para um livro infantil,
mas eu parei. Ontem pensei nele, deu saudade dos personagens.
PLAYBOY
– Você foi daqueles moleques que escrevem desde cedo
ou um dia teve um insight e começou a escrever?
GABRIEL – Eu gostava de escrever quando era moleque, mas
não era daqueles compulsivos em termos de quantidade, de
tempo dedicado a isso. Eu surfava, andava de skate, bicicleta...
PLAYBOY
– Mas era do tipo que tirava boa nota em português,
era aquele que a professora escolhia a redação para
ler em voz alta para a classe?
GABRIEL – Rolava. Teve uma vez que os amigos questionaram
se era minha mesmo aquela redação, acharam que eu
tinha colado de algum lugar, porque tinha essa coisa da professora
ler lá na frente e tal. Mas eu não era daquele tipo
de moleque que fica enfurnado lendo e escrevendo. Eu queria ter
lido mais, eu não li muito na minha vida e até hoje
também não leio tanto, mas tive sempre professoras
legais de literatura. Por isso eu dediquei meu livro às
minhas professoras e à minha avó, que me incentiva,
e à Tita, babá que também me incentivava
muito. Ela me deu uma máquina de escrever elétrica,
um presentão, eu era bem moleque ainda, tinha 11 anos,
sei lá.
PLAYBOY
– E continuou escrevendo? Quando veio a idéia de
escrever letras de música?
GABRIEL – Eu parei de escrever por um bom tempo, só
escrevia para a escola mesmo. Foi na minha época em São
Conrado, época de surfe. Comecei a surfar com 12 anos,
eu sempre falo que foi minha fase dos 12 aos 15 anos, quando convivi
com a galera da Rocinha, no Cantão. Foi um tempo rico de
aprendizado, de formação de personalidade, que eu
acredito mesmo que tenha sido importante pra mim. Nessa fase eu
estava muito mais esportista do que... pensador.
PLAYBOY
– Como você se aproximou da música?
GABRIEL – Foi o rap que despertou isso em mim, quando eu
tinha 16 anos. Não foi só rap, não. Bob Marley
foi forte. Não sei se foi a música ou a minha idade,
sei lá, mas eu comecei a querer me expressar, falar o que
eu achava do mundo, o que eu achava dos jovens, das meninas e
dos meninos, veio a Lôra Burra, o Playboy, comecei a fazer
essas críticas e passei a mostrar pros amigos. Dali pra
frente, eu não parei.
PLAYBOY
– Suas primeiras músicas são dessa época?
GABRIEL – Não, é curioso lembrar que eu fiz
umas musiquinhas quando tinha 11 anos, fico pensando como seria
se eu não tivesse parado esses anos. Estudei num colégio,
famoso até, o Senador Correia. Ele acabou, não existe
mais. O colégio era muito liberal, tinha muito filho de
artista estudando, o Moreno Veloso...
PLAYBOY
– Era como o Equipe, em São Paulo, por onde passaram
a maioria dos Titãs e outros futuros artistas.
GABRIEL – É, alguém comentou isso comigo,
parece que tem a ver sim. A Aninha, minha mulher, estudava lá,
a irmã dela, que também virou cantora, várias
pessoas de lá viraram cantores, artistas, dançarinos,
porque o colégio tinha aula de artes, de música,
e as outras aulas eram muito... Bem, eu sempre fico com pena de
falar que o ensino não era bom, fico chateado porque o
dono do colégio vai ler, só estou falando isso porque
o colégio fechou. Fiquei só um ano lá, depois
eu fui para o Andrews, que é um colégio mais puxado,
por isso eu posso comparar. Eu fiz a quinta série lá
no Senador Correia e eu não me lembro de nada da aula de
matemática, era uma aula moderna, tinha uns cubos, umas
coisas que eu acho que eram experimentais ainda, eu não
sei como passei de ano, tirei C e passei direto.
PLAYBOY
– E ali você se interessou por música.
GABRIEL – Se por um lado o ensino era fraco, esse colégio
tinha uma coisa legal voltada para a música, tinha sarau.
Era o momento do Rock in Rio, eu comecei a curtir Blitz, ouvia
muita rádio, Lobão, Camisa de Vênus, Ultraje
a Rigor...
PLAYBOY
– Você tinha uns 12 anos quando esse rock brasileiro
estava no auge, não?
GABRIEL – Acho que eu tinha 11, por aí. Deixe eu
ver, eu fiz 29 anos agora, dia 4 de março, acho que eu
estudei lá no ano do Rock in Rio... Puxa, eu poderia até
descobrir que ano foi, mas é uma conta meio complexa, minha
matemática do Senador Correia não permite tanto,
acho que eu preciso de uns cubos para poder calcular isso [risos].
Bom, eu comecei a curtir muito a Blitz e o Ultraje, aquela onda
de letras diferentes, aquilo me chamava muito a atenção.
Eu poderia citar outros, mas o importante é que eu comecei
a me interessar por letra de música. Aí, com essa
idade, eu fiz quatro musiquinhas, com melodia e letra.
PLAYBOY
– Como você fazia melodia sem tocar nada? Cantarolava?
GABRIEL – É. Eu gravava numa fita cassete no meu
quarto, ainda hoje eu faço desse jeito.
PLAYBOY
– Canta a letra no ritmo que você quer e o que fica
gravado já fica valendo?
GABRIEL – É isso. Componho uns sambinhas assim. E
o rap, que tem uma quase melodia, ele também sai assim,
a letra não sai sem vida, fria, ela já sai com aquele
andamento que deve ter, com sua métrica, seu formato, ou
qualquer nome que a gente dê.
PLAYBOY
– Você costuma escrever suas músicas de uma
vez só, por inteiro, ou às vezes fica trabalhando
uma idéia por um bom tempo, abandona e retoma várias
vezes uma música?
GABRIEL – Varia muito. Eu acho que com texto em prosa eu
sou mais chato, acho que tem que ser, demora um pouco, você
dá uma relida, sempre acha alguma coisa para trocar. Se
for ficção, fodeu, porque você pode ler e
ter uma idéia totalmente diferente. Mas nas letras e nos
poemas eu não mexo muito depois que estão prontos,
eu já demoro mais em cada verso, de uma forma assim definitiva,
sei lá. Há exceções, mas na música
e na poesia a coisa costuma sair pronta. Numa outra resposta à
sua pergunta, há casos em que a letra sai de uma vez, no
carro, no ônibus, ou aquela que eu fiz na fila do alistamento
militar, que eu acho que é o melhor exemplo, escrevendo
na fila mesmo. Estava com medo de entrar, apesar de um pistolão
que eu tinha, eu escrevi aquilo ainda preocupado de dar alguma
zebra e eu ter de servir. Mas uma outra música, Sem Saúde,
essa eu lembro de ter anotado algumas coisas que eu queria falar
e organizar tudo depois, ela foi feita com mais calma, com mais
frieza.
PLAYBOY
– Todas as letras de seu show mais recente somam mais de
47 mil caracteres. Uma quantidade absurda, quase um pequeno livro.
Você não esquece as letras no meio do show?
GABRIEL – Às vezes. Lembrei de uma coisa engraçada.
Inevitavelmente você iria me perguntar sobre drogas, então
vou falar dessa história, que eu não gosto de comentar
se eu fumo ou não fumo. Bom, é assim. Eu não
fumo, mas já fumei algumas vezes na vida. A única
vez em que eu fumei antes de entrar num palco foi na turnê
do primeiro disco, e foi a coisa mais ridícula da minha
carreira. Porque o Tito, o cara que cantava comigo nessa fase,
também não fuma.
PLAYBOY
– Era uma opção bem definida, você nunca
fumava mesmo?
GABRIEL – Eu não falo de uma rigidez total, de nunca
tocar num baseado. Bom, nesse dia alguém ofereceu, acho
que foi no Espírito Santo, sei lá... Nem me lembro,
eu tava doidão... [gargalhadas]. E a gente aceitou, fumou
um e foi fazer o show. Acho que foi um tapinha, nem sei se a gente
fumou muito, é que eu sempre fui fraco pra bebida, pra
fumo... Eu entrei no palco e, na hora da Lôra Burra, que
todo mundo sabia cantar inteira, até as crianças,
eu errei tudo.
PLAYBOY
– Com o público cantando junto não fica mais
fácil consertar?
GABRIEL – É, mas eu já comecei pela segunda
ou terceira estrofe, eu pulei a primeira, olhei pro Tito, a gente
ficou rindo, depois do refrão eu voltei a errar tudo. Quando
fui cantar O Resto do Mundo, que é uma música triste,
séria, que fala de um mendigo, deu ataque de riso, lamentável.
Nem sei se devia estar contando isso, mas é para ilustrar
os efeitos nocivos da droga. Foi horrível, a gente tentando
prender o riso. Bom, mas mesmo sóbrio acontece de esquecer
a letra. Aí eu improviso e até gosto de alguns resultados.
PLAYBOY
– Voltando à escola. Você e a Aninha, sua mulher,
se conheceram no Senador Correia. Vocês têm a mesma
idade?
GABRIEL – Ela é um ano e meio mais velha. Eu estava
na quinta série, ela estava na sétima, acho. Nesse
ano em que estudei lá, fiz quatro musiquinhas, com melodia
e letra. No ano seguinte, uma música minha foi inscrita
no sarau que tinha todo ano, defendida por um amigo, e ela concorreu
com uma música da Aninha. A minha ganhou, a dela ficou
em segundo. Essa música minha tinha a ver com uma merda
que eu fiz naquele colégio.
PLAYBOY
– Conte essa história.
GABRIEL – No intervalo era permitido que a galera saísse
para a rua, ficasse na padaria. Tinha uma onda de querer roubar
pão de queijo na padaria e roubar doces nas Lojas Americanas,
lá perto. A gente ia, roubava bala. Os garotos que pichavam
muro roubavam giz, enfiavam no bolso. E eu já estava nessa.
Um dia, eu peguei uma caixa de giz inteira e enfiei embaixo da
camisa. O segurança viu e me pegou. Eu levantei a camisa
e disse: "Eu vou comprar isso aqui, não vou, Rodrigo?",
virando pro amigo que estava do meu lado. E não é
que o filho da puta falou que não sabia de nada? Puxa,
fui levado para um quartinho, o cara disse que só não
me batia porque tinha um neto do meu tamanho. O diretor da escola
foi chamado, deu uma merda fodida.
PLAYBOY
– Você foi suspenso?
GABRIEL – Pior. A permissão de saída no recreio
passou a ser exclusiva de quem tivesse autorização
dos pais para isso. O cara mudou as regras por minha causa e me
suspendeu por dois dias. Quando eu voltei para a aula, todo mundo
tava querendo saber quem era o Pixote, meu apelido. Eu era conhecido
da galera da minha idade, mas os outros, incluindo a Aninha, barrados
no recreio, queriam saber quem era o Pixote e descobriram que
era aquele pirralhinho. Todo mundo puto comigo, ela também,
e é muito engraçado a gente ter se casado anos depois.
PLAYBOY
– Você ainda se lembra da música?
GABRIEL – Era assim: "Fui na loja americana/ com toda
a pinta de bacana/ mas na verdade sou pivete/ só fui pra
lá meter um jet [gíria de pichador para spray]/
o segurança me olhou/ a minha cara ele marcou/ mas logo
ele deu mole e foi embora/ aí eu vi que era a hora/ peguei
o jet e o meti/ vi que ninguém estava ali/ mas na saída
tudo sujou/ o segurança me pegou/ é o fim da picada/
ele me meteu a porrada..." Puxa, dizem que a galera foi ao
delírio no sarau. "Ele me meteu a porrada/ pegou o
jet e me chamou de pivete/ disse para eu não contar pra
ninguém/ senão me levava pra Funabem!"
PLAYBOY
– Mas você e a Aninha só namoraram muito tempo
depois?
GABRIEL – Eu perdi o contato com o pessoal desse colégio.
Eu mudava muito de bairro e escola, então trocava de turma
de amigos. Quando estava lá, estava começando com
a pichação e descobrindo break dance, eu morava
em Botafogo e queria dançar break. Mas aí eu mudei
para São Conrado e virei surfista, só queria surfar
e parei de fazer essas musiquinhas.
PLAYBOY
– Você morou em muitos bairros do Rio, não?
GABRIEL – Tijuca, Ipanema, Humaitá, Lagoa, São
Conrado, Barra... Mudei muitas vezes com a minha mãe e
meu irmão, a gente acompanhava a evolução
dela na carreira de jornalista. O casamento dos meus pais durou
apenas seis meses depois de eu nascer. Eu costumo dizer que eu
tive duas famílias muito diferentes. Meu pai se casou de
novo e ficou casado por 25 anos, só foi se separar agora,
há pouco tempo. Minha mãe teve outros casamentos,
teve meu irmão, que é meu grande parceiro, o Tiago,
três anos mais novo do que eu. Eu convivi bem com a estabilidade
da família do meu pai e as mudanças constantes da
minha mãe.
PLAYBOY
– Você via muita TV quando era criança?
GABRIEL – Não, até que não. Eu gostava
de programa de humor, do Jô Soares, do Chico Anysio. E muito
programa de esporte, lia direto jornais de esporte. Sou Flamengo
fanático, gosto de jogar futebol. Hoje eu gosto de ver
MTV, notícias, documentário, mas eu sou muito desorganizado,
não marco horários. A não ser jogo do Flamengo.
Sabe que hoje, se eu vou dar show em hora de jogo, eu armo o maior
esquema para gravar e tento não ficar sabendo do resultado,
aí eu posso assistir ao teipe com a mesma emoção
de quem está vendo ao vivo. Mas o chato é que sempre
aparece alguém para me dizer quanto foi o jogo e estraga
todo o plano. Até no meio do show alguém da platéia
já me falou.
PLAYBOY
– E você se dava bem com seus irmãos?
GABRIEL – Sim, muito, sempre. Aliás, talvez o meu
irmão se case com a minha irmã! [Pára e ri
da expressão incrédula do entrevistador.] Deixe
eu te contar isso, vai ser engraçado contar. Eu tenho uma
irmã, a Joana, filha do meu pai. E o Tiago é filho
da minha mãe com outro homem, não tem parentesco
com a família do meu pai e nunca teve muito contato com
eles. Agora eu descobri que ele está saindo com ela.
PLAYBOY
– Como você reagiu?
GABRIEL – Foi engraçado. Eu fui a um desfile da grife
que a minha irmã tem com uma amiga também chamada
Joana. É a Casa da Mãe Joana. E lá no desfile
eu encontrei o Tiago, achei estranho ele estar ali, só
esperava encontrar a família do meu pai. Então,
chega uma hora e ele vira para mim e diz: "Adivinhe com quem
eu estou saindo? Com a Joana". E eu, maior otário,
ainda perguntei: "Que Joana?" "Pô, tua irmã,
cara!" Foi uma surpresa, mas todo mundo recebeu bem a coisa.
Eles nunca tiveram convivência como irmãos, eles
são irmãos só para mim, né? E no fundo
eu acho que gostei. Afinal, a gente sempre é ciumento com
a irmã, e dessa vez eu sei muito bem com quem ela anda
saindo [risos].
PLAYBOY
– Vamos voltar a São Conrado, quando você virou
surfista.
GABRIEL – Minha fissura era o surfe, o skate
também, nessa época eu só escrevia o que
era necessário para a escola. Isso foi dos 12 até
os 15 anos, era a turma do Cantão, gente da Rocinha. Eu
era a exceção, o cara que tinha mais grana. A gente
jogava videogame na minha casa, fazia uns pagodes, íamos
a baile funk. Minha vida era bicicleta, skate e surfe. Aos 15,
eu fui morar na Barra pela primeira vez. Eu tive uma adaptação
esquisita lá, me enturmei com dois ex-pichadores, eu também
era um, apesar de ter sido uma coisa bem de garoto mesmo, sabe?
Era mirim. Ali eu virei um pichador de verdade, daqueles de tomar
ônibus para pichar em outros bairros, aquela coisa mais
arriscada.
PLAYBOY
– Passou por algum apuro?
GABRIEL – Muitos. A gente sempre arrumava confusão,
os seguranças odiavam a gente. Eu costumo falar que parei
de pichar por causa dessas encrencas, mas nunca conto em detalhes
como foi que aconteceu.
PLAYBOY
– Por que não?
GABRIEL – Acho que não é legal falar, sei
que pichar era uma coisa errada, mas era um vício. Teve
uma fase na minha vida que tudo girava em torno da pichação,
descobrir novos lugares... Olha, eu vou contar como foi toda a
história, nunca falei disso numa entrevista. Já
levei tiro da polícia. Fui com um amigo da Barra até
a Cidade de Deus. Estava rolando um baile funk, do lado de um
centro espírita. E o muro do centro tinha sido pintado
há pouco tempo. A gente pegou o spray e foi pichar. Aí
a gente ouviu uma gritaria no baile funk, uma correria, e de repente
um monte de carros da polícia estacionaram atrás
da gente. Saímos correndo e esse foi o nosso grande erro.
PLAYBOY
– O que aconteceu?
GABRIEL – Os policiais vieram atrás. Meu amigo jogou
o spray por cima do muro do centro espírita, mas corri
com o meu na mão por alguns metros. Joguei a lata junto
a uma árvore e continuei correndo. Os caras chegaram a
atirar na gente, de metralhadora mesmo, e a gente acabou parando
um pouco depois, cercados pelos policiais. Eles ficavam perguntando
onde estava a nossa arma, a gente falava da pichação
e a confusão foi geral. Só depois a gente soube
que rolou um tiroteio no baile funk. Os policiais achavam que
a gente tinha atirado e que o spray era uma arma.
PLAYBOY
– Como vocês se safaram?
GABRIEL – Fomos para a delegacia, lá tinha uns caras
que ficavam zoando com a gente, falando que a gente ia dormir
na cela do Pica Grande, essas merdas. Mas eles foram percebendo
que tinham cometido um engano, só que o policial que comandou
a operação ficou puto e resolveu me levar para um
reconhecimento no hospital. O cara que tinha tomado o tiro no
baile iria dizer se eu era o cara que tinha atirado ou não.
Comecei a pensar que o cara poderia ficar com medo e querer livrar
a cara de quem realmente atirou. E se ele me apontasse como sendo
o cara do tiro?
PLAYBOY
– O que aconteceu?
GABRIEL – O sujeito tinha tomado um tiro no pé e
estava dopadaço. O policial insistiu pra caramba, mas ele
disse que não tinha sido eu. Voltamos para a delegacia
e minha mãe já estava lá, na troca de esporros
com os policiais.
PLAYBOY
– Nessa fase você estava agressivo?
GABRIEL – Não. As gangues dos condomínios
da Barra eram coisa nova pra mim, mas eu não brigava. Sempre
fui crítico, tive então uma fase mais introspectiva,
mais "pensador", né? Aí voltou a vontade
de fazer música. Quando veio a faculdade, retomei o hábito
de ler, embora repita que gostaria de ter lido mais. Eu lia no
ônibus, no metrô...
PLAYBOY
– O que você lia?
GABRIEL – Ficção. Nelson Rodrigues, Carlos
Eduardo Novaes, também alguns livros de estudo que eu achava
legais, livros do Roberto da Mata. Sabe, eu tenho uma certa curiosidade
de tentar saber como seria se eu tivesse continuado na faculdade.
Larguei bem no início. Eu estava numa onda pessoal de querer
fazer a coisa direito, fazer a faculdade como se deve. Sabe como
é, dá para levar na gaita, mas eu estava amarradão,
queria fazer jornalismo, assistia a palestra do Caco Barcelos
[jornalista], do Silvio Tendler [cineasta]. Uma vez assisti a
uma do Leo Batista [veterano apresentador esportivo da TV Globo],
depois da palestra eu pedi uma carona para ele, fiquei conversando
um montão. Estava empolgadaço, mas aí pintou
o sonho de gravar o disco, as apresentações amadoras...
PLAYBOY
– Como veio a chance?
GABRIEL – Eu tinha uns 17 anos quando escrevi as primeiras
letras, sem contar as musiquinhas da quinta série. Houve
um luau em Ipanema e um baile funk na Rocinha, foram as primeiras
vezes em que mostrei minhas músicas para estranhos, para
gente que não fosse minha turma na faculdade. Acho que
na Rocinha rolou antes do luau. Um amigo meu chamado Tripa, lá
da Rocinha, conhecia um cara do baile funk, ele avisou que eu
iria lá ligar uma bateria eletrônica e cantar em
cima. Mas na hora eu vi que não tinha palco, eu cantei
grudado nas caixas de som, a maior microfonia, muito ruim. Cantei
duas músicas, uma era Tô Feliz, Matei o Presidente
e outra, que criticava a polícia, o nome era Fodam-se as
Autoridades que Abusam da Violência. O lugar era em frente
a um posto de policiamento, eu vi que o cara do baile ficou preocupado,
mas não empolgou a galera, o ritmo era rap, não
o funk, o pessoal ficou escutando, não empolgou, mas foi
a estréia.
PLAYBOY
– E o luau, o que rolou?
GABRIEL – O luau foi depois, mas foi a primera vez num palco
de verdade. Sem a bateria eletrônica. Eu não estava
programado para cantar. Fui lá, em Ipanema, com meu irmão
Tiago e um amigo, Vinícius. De bobeira, só pra ver.
Comecei a conversar com uns caras do morro do Cantagalo, por causa
de um boné de hip hop de um deles. Falei que era rapper
e um deles se empolgou, falou que era rapper também, começou
a cantar uma música falando que era dele, mas eu sabia
que era do Thaíde [rapper paulistano]. Ele cantou uns cinco
versos e eu completei o sexto e disse: "Essa é do
Thaíde, né?" Ele ficou constrangido.
PLAYBOY
– Você desmascarou o cara.
GABRIEL – É. Mas essa conversa me empolgou e eu vi
a oportunidade de cantar naquela noite. Foi anunciado um poeta
no palco, que havia pedido na hora para se apresentar. Ele estava
bebaço e declamou assim: "Me desculpe, meu pai, eu
vou sair na rua pelado, de pau duro..." Falou um monte de
merda e a galera vaiou. Um desperdício de palco. Entrei
numa de querer entrar lá, fui atrás do organizador,
numa escadinha que levava pro palco. Disse que era rapper, que
ia cantar uma espécie de poema, e o cara ficou apavorado:
"Poema? Ah, não vai dar, meu irmão! Não
viu o cara que subiu aí, porra?" Eu insisti, expliquei
que era um lance de música e acabei ficando horas nessa
escadinha, atrapalhando todo mundo. Aí, atrasou alguma
coisa, o organizador ficou sem saber quem chamar no palco, eu
acenei para o cara e ele fez sinal para que eu entrasse. E ele
me apresentou: "Com vocês, mais um POETA!" [gargalhadas].
PLAYBOY
– Deu para encarar?
GABRIEL – Fui recebido com uma vaia estrondosa! Aquele canhão
de luz no meu rosto, eu gritei: "Tira esse holofote da minha
cara!" E resolvi cantar uma música que era uma crítica
a boa parte da galera que estava ali, que era Retrato de um Playboy.
Subi lá de perna bamba, chinelinho, bermuda, boné.
"Olha, não é poema, não. É rap,
eu sou Gabriel O Pensador e vocês ainda vão ouvir
falar muito desse nome. Essa letra tem muito a ver com a rapaziada
que está aqui!" Nervoso pra caramba, mas cheio de
marra, né? [risos]. E todo mundo prestou atenção.
Teve gente que vaiou, alguns gostaram, mas foi uma barulheira
boa.
PLAYBOY
– E você desceu do palco sem problemas?
GABRIEL – É, fui dar uma volta na areia, encontrei
uma gatinha que eu conhecia, mas ela não tinha me visto
cantar. Mas pessoas que não me conheciam vieram falar comigo,
um hippie apareceu e elogiou a minha mensagem. Acho que foi nesse
dia que eu vi que a minha música podia agradar um monte
de gente diferente.
PLAYBOY
– A partir daí foi só sucesso?
GABRIEL – Não, a coisa começou a rolar mesmo
quando eu conheci outros rappers e a gente batalhou lugares para
cantar. Eu conheci o pessoal do Centro de Articulação
de Populações Marginalizadas, o Ivanir dos Santos,
ativista até hoje. Eles sempre criavam eventos ligados
à causa negra. Tinha também o pessoal da UNE. Olha,
eu sei que onde tinha brecha a gente pedia para cantar. Baile
funk, festa, onde pintasse. Uma vez eu fui ao Disco Voador, que
é um baile tradicional de charme no Rio. Depois de esperar
um tempão para cantar, a gente teve o som cortado no meio
da apresentação, acho que o cara não gostou
da letra ou do ritmo mesmo, porque logo em seguida ele colocou
mais charme para tocar.
PLAYBOY
– Quanto tempo você ficou nesse circuito até
gravar?
GABRIEL – Foi um período curto, principalmente se
comparado a outros artistas e outras bandas que eu conheço,
mas foi um tempo bom de relembrar. Eu fui para São Paulo,
conheci a turma da estação São Bento do metrô,
onde a galera dançava break, adorei. O break é um
lance que ficou comigo desde moleque, eu nunca consegui dançar,
nunca tive a competência, mas tem muito a ver com a pichação.
Tudo para mim fazia parte de um grande universo hip hop.
PLAYBOY
– Como você foi parar nas rádios?
GABRIEL – É, esse período de ir à luta
coincide com a história de Tô Feliz, Matei o Presidente
na rádio. Uma data marcante na minha carreira, setembro
de 1992. Eu mandei uma demo dessa música para uma rádio,
a RPC, do Rio, que não existe mais. A música ficou
cinco dias no ar, era a mais pedida, e aí ela foi censurada.
Isso me deu meus primeiros 15 minutos de fama.
PLAYBOY
– E contribuía o fato de sua mãe trabalhar
com Fernando Collor.
GABRIEL – Também, também. O governo
tentou esconder que existira uma censura oficial, mas aí
o Célio Borja, ministro da Justiça na época,
teve de assumir para o Jornal do Brasil, foi um lance meio podre.
Na verdade eles fizeram uma ameaça às rádios
que tocassem a música. O pessoal de rádio conta
que as emissoras foram ameaçadas de sofrer devassa fiscal,
algo bem nojento. Isso o ministro não confirmou, mas disse
que houve um pedido para que a música não fosse
tocada porque poderia estimular um homicídio real. A música
foi ao ar pela primeira vez no dia 9 de setembro, e o Collor deixou
o governo menos de 20 dias depois.
PLAYBOY
– Você ganhou a mídia.
GABRIEL – Rolou uma página na Veja, matéria
na MTV, mas nada que me garantisse nenhuma expectativa junto às
gravadoras. Eu cantei a música em alguns eventos em São
Paulo, o pessoal gostava, eu cantava também Lavagem Cerebral,
que é uma letra forte sobre racismo. A boa recepção
da galera me dava confiança. O público já
começava a cantar Lôra Burra junto comigo nos shows,
eu sentia que ia rolar, que muita gente diferente gostava do que
eu fazia. Era um público variado, na UERJ (Universidade
Federal do Rio de Janeiro) era um tipo, no baile funk era outro.
Por isso recusei um contrato com uma gravadora de São Paulo,
porque vi que o esquema era restrito para um público de
hip hop e eu sentia que poderia ter mais sucesso do que isso.
PLAYBOY
– Como você chegou até a gravadora Sony?
GABRIEL – Quando fui lá, quem me recebeu foi o Sergio
Lopes, responsável pelo setor internacional. Ele não
tinha nada a ver com ouvir artista novo, e eu nem tinha fita demo.
Eu cheguei com uma pastinha com as letras e uma fita com a batida,
para eu cantar em cima. E eu convenci o cara a me ouvir.
PLAYBOY
– Você cantou na sala dele?
GABRIEL – Foi, só fazendo isso para ele entender.
A princípio ele pensou em me ajudar, mas fiquei esperando
durante o Natal e o Ano-Novo por uma resposta. Ele veio então
com uma verba da gravadora para que eu pudesse usar um estúdio
para fazer a minha demo. Trabalhei com um produtor profissional,
o Ary Sperling. A coisa deu certo, fui contratado, mas fiz o disco
com o Fabio Fonseca, que a gravadora achava que combinava mais
com meu estilo. E ele trouxe o Memê, que teve uma participação
fundamental. O disco saiu rápido, foi para as lojas em
maio.
PLAYBOY
– E nessa época você ainda estava na faculdade?
GABRIEL – Tive que trancar, eu mesmo andava por aí
fazendo minha divulgação, ia às redações
dos jornais levar foto, descolava participação em
programas. Na época do Tô Feliz, Matei o Presidente,
fui ao Amaury Jr., em São Paulo. Fui de avião, podia
levar acompanhante, então fui com um amigo rapper, ficamos
num baita hotel. Aí eu cantei a música falando mal
do Collor, disse umas coisas, e o Amaury nunca pôs no ar.
Com essas e outras eu perdi muitas aulas, a coisa foi ficando
complicada.
PLAYBOY
– De onde veio o seu nome, Gabriel O Pensador?
GABRIEL – Eu inventei numa dessas letras em que eu me coloco
na terceira pessoa, falo de mim como se fosse outro cara. Um amigo
meu da Barra, quando eu disse a ele que realmente iria me tornar
um rapper, perguntou qual seria o meu nome artístico, algo
como MC Gabriel, ou coisa parecida, e eu respondi logo, "vai
ser Gabriel O Pensador". Ele na hora achou que eu estava
fodido com um nome desses, mas só me falou muito tempo
depois.
PLAYBOY
– Até hoje você se define mesmo como um rapper?
GABRIEL – Sim, acho que no começo da carreira eu
estava mais alinhado com o rap do que estou hoje, até nas
roupas que eu usava. Mas sempre fui rapper. Sei que uma parte
do público estranhou quando eu lancei o terceiro disco,
com a música que falava sobre molhar o biscoito e tal [2345meia78],
era um álbum mais... engraçado, né? Mas os
rappers, desde o pessoal old school, nos anos 80, também
faziam música de sacanagem.
PLAYBOY
– Quem são seus fãs?
GABRIEL – É difícil definir. Eu tenho até
fã surdo. Sério. Estava dando autógrafos
em Portugal e um casal veio falar comigo. Quer dizer, ela falava,
dizia como ele gostava de mim e dos meus discos e tal. Eu achei
que o cara era de outro país e não falava português,
o que já seria estranho, né, um cara que não
falasse português e gostasse do meu trabalho. Mas aí
eu percebi a linguagem de sinais e vi que ele era surdo. Fiquei
surpreso, e a ficha caiu mesmo quando ele perguntou por que eu
não tinha colocado a letra de uma das músicas no
encarte. Expliquei para ele que aquela era, na verdade, uma faixa
instrumental. Incrível.
PLAYBOY
– E o sucesso com as crianças?
GABRIEL – Olha, foi desde o primeiro disco, com Lôra
Burra, Retrato de um Playboy e tal. Mas eu nunca iria imaginar
que rolasse. Porque antes de eu estourar, com o disco na rádio,
eu só tinha me apresentado em lugares como bailes funk,
shows da UNE, apresentações no meio da madrugada.
Quer dizer, nenhum contato com criança. E deu nesse sucesso
todo, que rendeu uma história engraçada, quando
fui convidado para fazer comercial de TV.
PLAYBOY
– De que produto?
GABRIEL – Era um videogame, um console de game. Eles sabiam
que as crianças se amarravam em mim e fizeram o convite,
para que eu cantasse uma musiquinha no anúncio. Eu relutei,
mas meu empresário achava uma boa ação naquele
momento, resolvi topar, desde que eu pudesse escrever a musiquinha.
E aí eu fiz uma música que, para dizer o mínimo,
criticava o videogame. Falava que a vida era mais do que um jogo,
coisas assim, e lógico que não passou e eu nunca
fiz o comercial. Mas a verdade é que eu escrevi aquilo
na boa, sabe? Sinceramente, não achava que eles não
iriam gostar, fui ingênuo pra caramba.
PLAYBOY
– O que você gosta de fazer longe da música,
dos shows?
GABRIEL – Além de ficar com a família, eu
gosto de surfar.
PLAYBOY
– É daqueles que acorda às 5 da manhã
para pegar onda?
GABRIEL – Não, eu acordo tarde, mas adoro
surfar. Às vezes eu não consigo entender como é
que eu fiquei uns anos sem o surfe, naquela fase da Barra. Hoje
eu não fico sem. No dia em que eu abri o show do U2 aqui
no Rio, eu fui direto da Prainha para o show. Passei na casa do
Lazão, baterista do Cidade Negra, tomei um banho e fui
para Jacarepaguá fazer o show. Uma sensação
ótima.
PLAYBOY
– Você está rico? Qual é a sua expectativa
de vendas quando lança um disco?
GABRIEL – Bom, o artista ganha mais fazendo show do que
vendendo disco. O disco é muito caro para as gravadoras,
tem a produção, a divulgação. Por
isso é justo que a maior parte do dinheiro vá para
elas. Existem artistas que vivem bem vendendo pouco, mas constante,
e ganham a vida mesmo na estrada. Eu vendi muito na estréia,
uns 350 mil discos, fui surpreendido com o segundo disco, que
não emplacou. Aí vendi 1,5 milhão de cópias
do meu terceiro CD, Quebra-Cabeça, mas nunca mais repeti
esse patamar, até porque toda a indústria retraiu,
com a crise financeira e a pirataria. Acho que, mais importante
do que vender, eu quero é que a minha música chegue
até as pessoas, quero que as pessoas tenham o disco. Até
porque no show não posso mostrar todo o repertório
de um disco novo. E eu tenho uma vida boa, do lado financeiro.
PLAYBOY
– Quais são seus sonhos de consumo?
GABRIEL – [Demora um pouco para responder, situação
raríssima durante toda a entrevista.] Viajar para surfar,
já fui cinco vezes para a Indonésia, para ficar
15, 20 dias por lá. Isso é algo em que eu gasto
algum dinheiro. Não sei se tem mais alguma coisa... Só
fui comprar um aparelho de DVD agora, quando lancei o meu próprio
DVD [risos]. Ah, eu tive um ataque de consumismo, comprei um aparelho
de DVD para cada cara da minha banda. Eles mereciam, deram muito
duro nos ensaios e na gravação do programa. Fui
com a Aninha na loja e perguntei: "Tem um DVD maneiro aí,
não muito caro? Ah, tem? E se eu comprar dez tem desconto?"
Mas acho que eu não compro muita coisa mesmo.
PLAYBOY
– Pranchas de surfe, talvez?
GABRIEL – Ah, não vale, porque eu ganho de graça.
Não, uma vez eu comprei duas pranchas californianas, da
Rusty, eu quis comprar, apesar de ganhar pranchas da marca Maresia.
[Ele sorri malicioso; um de seus maiores sucessos, Cachimbo da
Paz, tem o famoso refrão "maresia, sente a maresia".]
PLAYBOY
– Qual a ligação entre você e a marca?
GABRIEL – Totalmente informal, a marca já existia
antes da música, aí eles passaram a me mandar roupas
e pranchas, como um agradecimento. A empresa é legal, investe
mesmo nos atletas. Eu pedi, e eles mandaram roupas para dar de
prêmio no campeonato de surfe da Rocinha. Bem, é
natural que eles queiram dar esse apoio, pelo grande atleta que
eu sou [risos].
PLAYBOY
– Você surfa bem?
GABRIEL – Razoavelmente bem, surfo legal. Nessas viagens
eu desenvolvo mais o surfe, depois passo um tempão parado
e fico meio prego. Mas encaro ondas grandes, eu me benzo e vou.
PLAYBOY
– Você é religioso?
GABRIEL – Estou numa fase meio devagar, mas todo dia eu
faço uma coisa simples, um agradecimento antes de dormir,
peço proteção. Antes de entrar no mar para
surfar eu peço, eu tenho um Deus na minha cabeça.
Mas quando você vê tanta desgraça acontecendo,
fica difícil racionalizar essa fé. Quando criança
eu era católico, mas na adolescência eu descobri
o lado ruim da história da Igreja Católica. Parei
de rezar as orações católicas e inventei
um novo jeito de me benzer. Mas hoje eu admiro a luta da Igreja
por causas sociais.
PLAYBOY
– Falando em causas sociais, o que dá para fazer
para consertar o Rio?
GABRIEL – A cidade está mesmo muito violenta. O que
pode ajudar é o trabalho das ONGs nas favelas, com crianças
e adolescentes. Só a inclusão social vai resolver,
é preciso integrar o jovem com cultura e educação,
com o esporte também. Só isso funciona. Combater
a violência está cada vez mais difícil. O
melhor é tirar essa galera da zona de exclusão,
da terra de ninguém.
PLAYBOY
– Você tem uma atuação direta?
GABRIEL – Estou trabalhando com uma ONG americana, chamada
Dreams Can Be. A Lisa, presidente da ONG, me levou para conhecer
alguns projetos, é uma ONG que ajuda a financiar projetos
que já existem. Assim eu conheci um monte de ações
legais, gente que saiu do crime para fazer circo, teve cara que
evitou o crime indo lutar boxe, pegar onda. Na Rocinha há
um projeto para manter a criança na escola. Isso é
fundamental, porque essas estatísticas estão todas
erradas.
PLAYBOY
– Que estatísticas?
GABRIEL – Você lê por aí gente falando
que 70% das crianças estão na escola, ou 90%, algo
assim, mas quando eu paro no sinal e a moçada vem falar
comigo: "Ei, Gabriel, e aí?", eu sempre pergunto
se eles estão na escola. Muitos ainda mentem, mas tem aqueles
que falam "parei, parei", moleques de 12, 13 anos. Eu
arrumei uma história de montar um time de futebol, comprar
uniforme, um projeto com essa ONG que eu falei, mas eu digo pra
eles que só vai entrar quem estiver na escola, e então
todos eles querem voltar. Eles saem porque não têm
estímulo, é uma coisa triste, sem sentido. A gente
até tentou colocar na escola um garoto que nunca estudou,
um atleta da Rocinha, campeão de bodyboarding, de 14 anos,
mais ou menos, porque também não sabe a data de
nascimento. Ele não ficou, não teve o hábito.
Tem casos muito difíceis, mas esse é o caminho.
PLAYBOY
– Você já foi vítima da violência?
GABRIEL – Já, já fui assaltado quando era
moleque, esse lance de roubar tênis, skate. Uma vez me safei
de ser roubado no ônibus porque reconheci um dos carinhas
da turma, o reconheci de uma noite de pichação.
Já fui assaltado com arma, roubaram meu relógio.
Essa coisa de roubarem meu skate foi engraçada, porque
a gente tentou recuperar, eu e meu irmão, mas sem sucesso.
Havia um garoto com o mesmo nome e a gente foi reclamar na casa
errada, um horror, o pai quase bateu no moleque. Mas acho que
tive sorte de não ter uma história pior. É
só sorte mesmo. Quando acontece com um amigo próximo,
vem aquela sensação de que poderia ter sido com
você.
PLAYBOY
– Apenas sorte? O combate à violência, como
é feito hoje, não adianta nada?
GABRIEL – Não sei como combater a violência,
não sou militar nem policial. Eles que se virem. Eu sei
é que esses garotos que eu conheço, essa turma que
fica no sinal perto de onde eu moro, eles estão a um pulo
do crime. Um deles, de quem eu gostava muito, ele pegava onda,
tinha sonho de ser surfista, eu perguntei por ele, porque o menino
estava sumido, e aí me falaram que tinha virado bandido.
É a falta de expectativa, a falta de tesão por outras
coisas.
PLAYBOY
– Você sempre conversa com esses garotos, não?
GABRIEL – Quero ouvir o que eles têm a dizer. Uma
conversa interessante rolou num evento que eu fui a convite da
Unesco, numa das casas de detenção de menores aqui
do Rio. O Tito, o rapper que tocava comigo, tem um projeto de
hip hop nesse local. Eu nem fui para cantar nem nada, mas cantei
umas músicas no playback mesmo. Aí rolou uma conversa
sobre a música Pra Onde Vai, que fala de um cara que foi
assassinado por um assaltante. Alguns garotos ali são assassinos,
mas eles pediram essa música, porque muitos deles já
perderam também parentes e amigos, a morte está
muito próxima de todos. Eles sabem que se eles ficarem
nessa vida a morte vem cedo. Lá tem uma galera pesada,
eles ainda não têm 18 anos, mas vão continuar
no crime. E teve uma outra história que me marcou muito.
PLAYBOY
– Pode contar?
GABRIEL – Eu conheci uma vez um garoto de 12 anos que já
tinha matado três pessoas. Ele apareceu lá em São
Conrado, vindo de São Paulo, fugiu dos traficantes da favela
dele, porque ele matou um cara deles. A gente começou a
conversar na praia, eu estava com amigos da Rocinha. Ele estava
até com sangue na camisa. Me procurou ali na praia porque
queria um colchão para continuar dormindo escondido, perto
do hotel Sheraton. Ele foi pedir emprego no tráfego da
Rocinha, mas não aceitaram.
PLAYBOY
– Ele contou sobre os assassinatos numa boa?
GABRIEL – Primeiro tentou inventar uma outra história,
mas depois confessou pra gente. O moleque já estava perdidão,
entrou de cabeça no crime. Ele contou como matou a primeira
vez, mandaram ele matar, como no filme Cidade de Deus, era uma
prova para entrar no crime. O segundo caso foi num assalto, "eu
acabei atirando", ele falou, contando de uma forma bem banal.
A terceira vez foi essa, que deu o rolo. Mandaram o garoto matar
o sujeito, e, do jeito que ele contava, dava para ver que era
verdade mesmo.
PLAYBOY
– O que aconteceu depois?
GABRIEL – Pensei em ajudá-lo de algum jeito, marquei
um encontro com ele à noite na Rocinha. Conversei com pessoas
das comunidades, tentando ver que tipo de ajuda poderia oferecer,
mas ele não apareceu no encontro e nunca mais o vi. Puxa,
pode me chamar de babaca, de emotivo, mas teve uma hora que marcou
mesmo. Uma hora que ele disse não ser nenhum "grande
homem, porque só matei três pessoas". Deu para
sacar os valores invertidos, né? E emocionou mesmo quando
eu perguntei se ele sabia fazer alguma outra coisa na vida, e
ele respondeu: "Sei fazer mágica!" Porra, pode
me chamar de ingênuo, mas vi o brilho nos olhos dele, coisa
de criança mesmo, ele saiu pelas barracas na praia perguntando
se alguém tinha um baralho para ele demonstrar os truques
pra mim. Puxa, naquele momento, vi que ele era uma criança
mesmo. Quer dizer, deu pra lembrar que ele era uma criança.
PLAYBOY
– Você fica muito com seu filho?
GABRIEL – Fico, agora mais ainda. Porque tem uma fase inicial
que é mais com a mãe, né? Ele está
com quase 1 ano, nasceu no dia 5 de maio, às 5h05, tudo
com o número 5. Parto normal. Fico bastante com ele, mas
eu acordo tarde, perco as coisas da manhã. Lá em
casa tem um piano, que era dos pais da Aninha. Eu não sei
tocar, mas sento e faço uns acordes e ele vem, por conta
própria, engatinhando, querendo subir. Aí eu coloco
o Tom no meu colo e deixo-o bater nas teclas. Ponho música
para ele ouvir, a gente fica vendo MTV juntos. Coloquei para ele
o meu DVD. Na primeira música, 2345meia78, é um
momento do show em que aparece bastante a mãe dele. Ele
fica louco. A gente bota pilha também, fica falando "mamãe,
mamãe", ele gruda na tela da TV, pira mesmo. Ele vai
aos ensaios também.
PLAYBOY
– O que veio primeiro entre você e a Aninha, foi o
trabalho ou o namoro?
GABRIEL – Ela já cantava com a Fernanda Abreu, mas
eu não me aproximei dela por causa disso. Eu a vi na platéia
de um show dos Paralamas, no Canecão, eu já era
famoso. E vi a Aninha, gostei, fiquei de olho, e um amigo meu
disse que ela tinha namorado. Depois de um tempo, fui a uma discoteca
para ver o Shaquille O’Neal, o astro da NBA que estava no
Brasil e também era rapper. Fui junto com o MV Bill, mas
o Shaquille furou.
PLAYBOY
– E a Ana estava lá?
GABRIEL – Ela estava dando uma festa ali, e eu encontrei
a Mariana, que é irmã do meu irmão, Tiago.
Pois é, ele também tem irmãs que não
são minhas irmãs, só que nunca namorei nenhuma
das duas [risos]. Ela era amiga da Aninha, que era a aniversariante.
Ela tinha terminado o namoro um mês antes. Aí eu
fui falar com ela, a gente lembrou do colégio e já
teve assunto para a noite inteira. Já demos uns beijinhos.
Isso foi há nove anos.
PLAYBOY
– Quando ela passou a cantar com você?
GABRIEL – Logo depois dessa festa, eu fui para Portugal.
Sempre fiz muito sucesso lá, desde o primeiro disco. Um
radialista português comprou o CD aqui e levou para tocar
lá e houve uma empatia forte. Todos os meus discos venderam
bem lá, ficam entre os dez mais vendidos. E, aí,
voltando ao namoro, eu estava de viagem marcada para lá
quando rompi ligamentos do pé jogando bola. A Aninha passou
a cuidar de mim nessa fase, e eu pedi aos contratantes de Portugal
uma passagem a mais, para que ela pudesse ir comigo.
PLAYBOY
– Foi uma lua-de-mel?
GABRIEL – Foi importante pra caramba no nosso relacionamento,
aí que passamos a ficar juntos 24 horas por dia. E lá,
num daqueles shows que fiz em cadeira de rodas, ela deu uma canja,
uma brincadeira. Na segunda turnê ela teve umas participações
e, a partir do terceiro disco, eu reformulei a banda no palco,
saiu o Tito, o rapper que cantava comigo, e eu passei a usar um
casal de vocalistas. Aí a presença da Aninha ficou
definitiva. Ela dança, a galera se amarra. Planejo fazer
mais coisas com ela.
PLAYBOY
– Casar cedo cria um escudo contra o assédio das
fãs? Como você lida com isso?
GABRIEL – Quando eu era solteiro, acho que eu assediava
mais as fãs do que elas me assediavam [risos]. Nunca tive
muito grilo desse lance de ficar com fã. Tinha 18 anos
quando comecei a fazer sucesso, muitas fãs eram mais velhas
do que eu.
PLAYBOY
– E elas partiam para cima, desde o início?
GABRIEL – É, mas às vezes eu era chato pra
caramba. No meio do show, eu ali cantando, umas meninas na primeira
fila ficavam berrando sem parar: "Lindo! Lindo!" Eu
ficava puto, entre um verso e outro eu olhava para elas e mandava:
"Pô, se liga! Presta atenção na letra,
caramba!" Nossa, que cara chato e marrento que eu era. Mas
fora do show eu adorava.
PLAYBOY
– Rolou um certo deslumbramento?
GABRIEL – Acho que foi tudo natural, eu curti bem essa fase
de solteirice. Casei cedo, mas mesmo durante essa fase de amor
livre, não só com fãs, com garotas descomprometidas...
ou não [risos], acho que eu sentia solidão de alguma
forma. Tinha relacionamentos carinhosos, mas era só ficar
e tchau. Eu ficava com as garotas, mas não tentava namorar
sério. Acabou acontecendo naturalmente com a Aninha. Eu
saí de casa para morar com ela quando eu tinha 20, 21 anos.
Ela se tornou um ponto de referência na minha vida. Agora,
com o Tom, ficou mais forte.
PLAYBOY
– Tom veio na hora certa, foi planejado?
GABRIEL – Veio. Teve uma gravidez anterior que não
foi pra frente, foi triste pra caramba. A gente queria muito ter...
Puxa, isso eu nunca contei em entrevista. Eu estava na Indonésia,
sem a Aninha, fui surfar nessas viagens que não tem mulher.
A menstruação estava atrasada, a Aninha ia fazer
o exame. Na primeira manhã no barco, eu acordei e vi uns
papéis enfiados por baixo da porta. Era um fax dela, lindo,
simples, dizendo que eu ia ser pai. Ajoelhei no chão, uma
maravilha, uma sensação indescritível. Liguei
para ela, a gente comemorou por telefone. Aí escrevi um
texto de cinco páginas, que começava "hoje
é o dia mais feliz da minha vida, descobri que vou ser
pai". Na volta, curtimos a gravidez, mas, na terceira ultra-sonografia,
veio a tristeza. Teoricamente, a gente deveria esperar um pouco
antes de tentar de novo, mas, por sorte, a gente se enganou lá
e veio a gravidez do Tom. Ele nasceu no dia 5 de maio. A gente
teve de ficar uma semana no hospital, e eu estava com meu laptop.
O texto que eu tinha escrito na Indonésia estava dobrado
na bolsa do laptop, eu nunca mais tinha lido. Então, de
madrugada no hospital, sem nada para fazer, eu fui pegar aquele
texto. Aí, puta, cara, o Tom nasceu dia 5 de maio de 2002,
né? Eu peguei aquele texto e estava lá, escrito:
"Bali, 5 de maio de 2001..." Que loucura! Acho que era
para ser desse jeito mesmo.
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