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Texto e Entrevista no livro "Para Entender o Brasil"
Por
Gabriel O Pensador
Por
mais que eu possa pensar sobre o Brasil ou até mesmo pensar que
eu entendo o Brasil, eu continuo pensando que eu não entendo o
Brasil. Pensando bem, eu acho que o Brasil também não se entende,
se é que você me entende. Será que o Brasil me entende? Pelo menos
eu vou tentar ser menos complicado do que ele, porque eu é que
daqui a pouco não tô entendendo mais nada.
Confesso que poderia ser mais estudioso e dedicado nesta tarefa
de entender o que ninguém entende. Poderia ler Raízes do Brasil,
Casa Grande & Senzala, ver todos os filmes do Glauber Rocha,
analisar, discutir, anotar, pensar, pensar... Esse talvez fosse
um ótimo caminho, mas mesmo assim não tenho certeza de que entenderia
o bastante. Outra maneira interessante de alcançar este entendimento
seria através da escola, desde criança. Ah, como seria bom se
tivessem me ensinado a História do Brasil e as histórias e estórias
de Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Antônio Conselheiro e tantas
outras! Quem me dera ter aprendido sobre as ditaduras, os golpes
e os contragolpes, algumas noções básicas sobre política, e quem
sabe até economia, desde pequeno, em vez de decorar um monte de
datas e nomes de capitanias hereditárias... Sempre passei de ano
direto, entre os melhores da classe, mas agora eu entendo que
na verdade não entendia nada e não entendi até hoje.
Não sei se eu sou ignorante por falta de estudo e informação ou
por excesso de mau estudo e má informação. A televisão me deixou
burro, muito burro demais. Agora eu vivo dentro dessa jaula junto
com os animais. Tem os porcos, fazendo sua velha sujeira, cagando
todo o chiqueiro e limpando todo o dinheiro, enchendo lingüiça
nos palanques e projetos e jogando os seus dejetos pros insetos.
Bichos escrotos, saiam dos esgotos! Tem o Leão, cada vez mais
faminto, atacando os peixinhos miúdos e fazendo vista grossa para
os grandes tubarões, caçando tudo o que pode dentro dos limites
do seu rabo preso, mordendo e matando (literalmente) para alimentar
a porcalhada, sem deixar uma migalha sequer para as formigas,
sempre trabalhadoras porém não muito organizadas. Formiga brasileira,
dá pra entender, né? É, mas eu não entendo não. Tem muito lobo
em pele de cordeiro de um lado (o de cima) e muito cordeirinho
e pouca ovelha negra no outro (o debaixo, debaixo de porrada).
Ê! Oô! Vida de gado! Povo marcado, povo feliz!
Vamos cantar feito passarinhos e pular feito macaquinhos porque
é festa na floresta e toda a tribo é carnaval. Olha lá no camarote!
Quanta gente bonita e elegante!
Olha lá os Doutores! Aqueles que tinham um campo de concentração
pra matar os velhinhos e agora voltaram a exercer a medicina,
com suas fantasias brancas com detalhes verdinhos saindo dos bolsos.
Olha ali também o pessoal do Conselho Federal de Medicina, com
suas fantasias brancas com detalhes verdinhos entrando nos bolsos,
ali na rodinha dos donos de planos de saúde e de agências funerárias.
Dá um velhinho pra eles!
Olha lá os Governadores e os nobres deputados! Aqueles que constroem
mansões na cidade e na floresta, e mandam matar com um tiro na
testa qualquer concorrente ou gente que "não presta".
Qualquer testemunha metida a ser honesta tentando estragar essa
festa. Dá um tchauzinho pra eles!
Olha lá o ex-presidente e seus amigos sorridentes, todos ricos,
imponentes... Aquele que confiscou o dinheiro das poupanças e
saiu impunemente. Já voltou a entrar na dança. Tá cantando alegremente.
Que folia, minha gente! Dá um votinho pra ele!
Olha lá os outros políticos, os senhores Senadores, os vários
vereadores... Aqueles que são donos de fazendas e coberturas pelo
Brasil afora e que exigem e recebem seus auxílio-moradia de não
sei quantos salários-mínimos. Quanta gente desinibida e importante!
Dá um auxílio pra eles!
Olha lá os credores da nossa dívida externa, de olho nas nossas
pernas. Aqueles turistas mercenários que vêm aqui de vez em quando
cobrar seus juros milionários e nos lembrar o quanto nós somos
otários. Eles é que comem nossas criancinhas! Dá um bilhãozinho
pra ele!
Olha lá o garçom que serve o uísque escocês... Aquele que trabalha
de verdade e é sortudo por ter um emprego porque o país dá mais
atenção pros banqueiros. Aquele que recebe um salário- mínimo
miserável que não pode ser aumentado porque o país está em contenção
de despesas. Dá uma gorjetinha pra ele!
Esse garçom é a cara do Brasil: sempre sambando e entregando tudo
de bandeja. Que maravilha! Que carnaval! Moro num país tropical!
Abençoado por Deus! E bonito por natureza! Que beleza! É hora
de soltar a franga e sambar sorridente e chamar urubu de meu louro.
Fora da avenida, durante toda a vida, jumento trabalha de graça,
mas quando o estandarte do sanatório geral passa, todo burro de
carga já virou um manga-larga puro sangue, sangue bom, ai que
vida boa olelê! A bicharada animada descendo a favela na banguela
e banguela, mas em cavalo dado não se olha os dentes, e pra que
servem os dentes sem nada na panela? Entendeu? Nem eu.
Agora eu fui convidado pra falar do Brasil e tentar entender o
Brasil. Pátria que me pariu! Não é carnaval e nem Copa do Mundo.
Não estamos em festa. Eu sou um burro que fala enquanto o outro
abaixa a orelha e assim continuamos carregando os porcos nas costas
sem nos entendermos e sem entender o problema. Sem entender o
esquema. Sem entender o sistema, pois somos apenas índios, ou
bichos, tanto faz, sempre barrados no baile, tratados como maus
elementos. Excluídos da festa e do porto seguro, comandados pelos
piratas do Caribe, das Cayman, da Suíça, das ilhas da fantasia
espalhadas nesse mar de lama. E o próprio sistema não quer se
fazer entender. Os mocinhos bandidos não querem que os índios
se entendam e adoram que os índios se rendam às armas de fogo
e às regras do jogo, pois eles controlam as armas e as regras,
e nós só aceitamos. Uga, uga. Oh, yes. Eles disparam as armas
e nós aceitamos. Eles transformam as regras e nós aceitamos. Que
bela democracia! Será que dá pra entender?
Estranho... Por um instante me parece que o Brasil não é tão difícil
assim de entender. Parece até que se o próprio Brasil fizesse
uma forcinha pra tentar se entender dava pra acertar um pouquinho
o meio de campo. De repente um contra-ataquezinho, hein? É, mas
tá tudo desentrosado... Nem parece um time de verdade! E olha
que a gente tem capacidade pra formar um timaço! Pena que estamos
acostumados a ficar só na torcida, olhando, sofrendo, aplaudindo,
às vezes xingando, vaiando, mas sem assumir a responsabilidade.
Sem entrar em campo e chamar o jogo pra nós mesmos. Ficamos que
nem aqueles comentaristas de futebol que nunca tentaram bater
uma pelada e não sabem o que dizem com suas teorias, e tomamos
mais uma na mesa do bar, vendo o jogo de novo depois da novela.
De olho na tela eu assisto à jogada e já penso que entendo, mas
não sei de nada. Parece reprise mas sei que não é, e sei que não
vale a pena ver de novo! E quando eu me ligo, desligo a tevê.
Cansei desse jogo, não quero entender!
Eu entro no campo com raça e coragem, e na dividida não perco
a viagem. O ataque é a melhor defesa e nós temos que nos defender.
Com raiva e amor, com fé e razão. Filho da puta! O juiz é ladrão!
Vai ser tudo ou nada, então entra de sola, porque se não somos
os donos da bola, ao menos jogamos em casa. É isso! Nós somos
os índios, os donos da casa. A nossa virada depende de nós. Depende
da voz, de mim, de você. Defende o que é nosso! Transforma esse
troço! Não posso, não pode, não vamos perder!
Uma personalidade brasileira?
O Lula, do PT, por ter vindo de baixo e conseguido se transformar
numa pessoa importante na política brasileira. Sem entrar no mérito
partidário ou eleitoral, sua própria trajetória já serve como
exemplo para todo brasileiro saber que é possível ser um cidadão
atuante na vida social e política do país, em qualquer escala.
O falecido sociólogo Betinho, da Campanha Pela Cidadania Contra
a Fome e a Míséria, é um outro exemplo disso.
Um período notável?
A luta pelas diretas, um dos poucos momentos em que os brasileiros
se mobilizaram por uma causa política nos últimos anos.
Um episódio que gostaria de esquecer?
O Brasil atual, cheio de corrupção e impunidade, cheio de miséria
e sonegação, cheio de hipocrisia e desrespeito a nós, cidadãos,
é uma fonte abundante de episódios surreais, como o desvio do
TRT, a fuga do Cacciola, o caso Pitta, o desabamento do Palace
do Sérgio Naya, e outras obscenidades como as absolvições e os
arquivamentos de processos e CPIs, para não incriminar bandidos
importantes que possuem ligações mais do que comprometedoras com
o governo (e/ou governos estaduais, prefeituras, câmaras, tribunais,
delegacias...), ou porque eles sabem demais, ou porque financiaram
esta ou aquela campanha eleitoral, com o próprio dinheiro sujo
desviado do povo, que morre de fome e sem remédio nos hospitais.
Não é hora de fecharmos os olhos para tudo isso, mas espero que
no futuro eu possa esquecer episódios absurdos como esses, que
infelizmente o brasileiro está se acostumando a aceitar.
Fatos/eventos/momentos decisivos?
A Anistia, que trouxe uma abertura política e uma liberdade de
expressão duradouras e quase ilimitadas, a não ser pela tirania
dos poderosos que ainda censuram e matam desafetos e testemunhas
por debaixo dos panos. Outro episódio que parecia ser decisivo
para o progresso do país foi a criação da nova Constituição em
1988, mas infelizmente ela continua sendo remendada de acordo
com interesses políticos, guerrinhas de lobbies e leilões de cargos
do governo, sem que nada disso signifique que suas leis sejam
cumpridas. O impeachment do presidente Fernando Collor também
deu a impressão de que seria um marco na luta contra a corrupção
na política, mas hoje somos obrigados a reconhecer que a impunidade
e o dinheiro continuam falando mais alto, aparentemente cada vez
mais alto. A esperança é que esta nova geração de Procuradores
Públicos, juntamente com os novos juízes, consiga realizar o seu
trabalho com sucesso -- apesar dos defensores das mordaças e dos
seus superiores da Procuradoria, que gostam de engavetar os processos
-- porque suas investigações podem trazer à tona muitos fatos
que têm sido decisivos para o nosso mal e marcar o começo de uma
virada na Justiça do Brasil, que seria sem dúvida decisiva para
o nosso bem.
Uma novidade que mudou tudo?
O direito de votar é uma conquista ainda recente na cabeça do
povo brasileiro, mas pode mudar muito mais o país quando soubermos
entender e valorizar a importância desse detalhe, como direito
e também como dever.
Já se disse que somos (ou fomos) o país do jeitinho, e outras
imagens semelhantes. Qual seria hoje o paradigma brasileiro?
Ainda somos o país do jeitinho, onde o malandro é o desonesto
que leva vantagem em tudo e os honestos e trabalhadores se sentem
e são tratados como grandes otários. Os exemplos vêm de todos
os lados, do Judiciário, do Legislativo, do Executivo... O povo
simplesmente aprende a lição, que pode ser ensinada pela televisão,
pelo jornal, ou por um policial ou qualquer outro funcionário
público que cobra a rotineira propina para "resolver o problema",
seja numa tentativa de "evitar" uma multa de trânsito
exorbitante -- cujo pagamento, apesar de gerar fortunas, não é
compensado por melhorias nas vias públicas (que por ventura ainda
não tenham sido privatizadas) -- ou na necessidade de "comprar"
uma disputada vaga em instituições semi-abandonadas conhecidas
como escolas ou hospitais - que, apesar de todos os CPMFs e impostos
que tenham sido ou que possam vir a ser inventados no futuro,
parecem estar eternamente relegadas ao segundo plano, terceiro,
último, na lista das prioridades entre as velhas e batidas mazelas
nacionais, ao contrário do que dizem as campanhas na época das
eleições (e reeleições). Mesmo assim, ainda há os que insistem
em ser honestos, e não sonegam e não corrompem, mas se sentem
um pouco mais otários a cada dia que passa, enquanto os espertos
de todos os níveis quase sempre fazem a festa impunemente.
Algo/alguém que sintetiza o que é Brasil?
Toda regra tem sua exceção. Feita essa ressalva, o Brasil é idêntico
a uma grande favela: a miséria, a falta de atendimento médico
e escolar e a ausência de condições dignas de vida em geral; a
repressão violenta nos raros casos de rebelião popular, as mortes
dos inocentes, o sofrimento das vítimas; a imposição do silêncio,
a inoperância da Justiça e o profundo desrespeito aos direitos
mais primários que um trabalhador deveria ter numa democracia.
Tudo isso contrastando com os sorrisos pacíficos e humildes da
enorme massa de trabalhadores e desempregados. E no poder, controlando
o movimento, uma meia dúzia de bandidos que vão mudando de nome
com o tempo.
Um talento e um defeito (ou mania) bem nacionais?
O brasileiro tem um talento natural para o esporte, a música e
as artes em geral. Isso é uma qualidade indiscutível. O brasileiro
é esperto, no bom sentido mesmo, sabe tirar o melhor possível
do pouco que tem nas mãos. O defeito é que ele acaba aceitando,
de uma certa forma, esse desafio de viver numa eterna corda bamba.
Acredito que se o nosso povo tivesse acesso ao estudo, à informação,
às oportunidades e ao investimento no ser humano que existem em
outros países, teríamos não apenas milhões de Pelés e Michael
Jordans, mas também milhões de cientistas geniais, artistas, dançarinos,
médicos e profissionais de todas as áreas dando show por aí.
Um exemplo made in Brazil para o próprio Brasil dar valor?
A riqueza da nossa cultura é admirada por estrangeiros do mundo
todo, mas nem sempre recebe o devido valor aqui dentro, assim
como ocorre com as nossas belezas naturais.
Para você, o que significa: modernidade, desenvolvimento, competitividade,
globalização, tecnologia de ponta, ética, justiça social?
Modernidade
Plantar no presente para colher no futuro, sem tentar antecipá-lo
a qualquer custo.
Desenvolvimento
Depende do investimento. É óbvio. Ou será que não?
Competitividade
É boa, mas não tanto para os perdedores.
Globalização
Sei não... Acho que não querem que a gente entenda direito esse
trem aí não...
Tecnologia de Ponta
Se não for pra fabricar armas e bombas, tá bão, né?
Ética
Esse conceito deve ser mais discutido, valorizado, recuperado.
Isso é tudo que não podemos perder, de jeito nenhum! A vaca está
indo pro brejo, porque a lama está querendo soterrar a ética.
A solução é acabar com a lama e com os porcos que tiram proveito
dela.
Justiça Social
Parece uma utopia mas não é. Parece complicada mas é simples,
como a matemática. Tem tanto dinheiro no Brasil, meu Deus do céu!
Se pudesse escrever de novo um episódio da história do Brasil,
qual seria? E como ficaria, em sua versão?
Aí ficou difícil! Nem sei por onde começar... Pensando bem, é
melhor começar a mudar a história a partir de hoje, agora."
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