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GABRIEL
O PENSADOR
nos DROPS da MTV BRASIL (TV por assinatura)
Gabriel O Pensador de volta às paradas
(20.maio.2005)
Por Jorge Papa
De volta às paradas musicais com “Palavras Repetidas”, sua recriação de “Pais e Filhos”, do Legião Urbana, Gabriel O Pensador chegou à entrevista meio chateado por ter confundido pasta de dente com creme para espinhas.
Apesar do hilário contratempo, sentou-se sorridente para falar sobre seu (ainda inédito) CD “Cavaleiro Andante”. Sempre inteligente e politizado, o rapper mostrou-se preocupado com a violência no mundo, e decepcionado com o governo Lula.
mtv.com.br: Pouco se sabe sobre seu novo álbum...
Pensador: Esse disco é a minha volta ao estúdio depois do “MTV Ao Vivo”, que foi feito aqui na MTV. Como sempre, caprichei muito nas letras e viajei pra caramba nos temas que atingem a nossa sociedade. Acho que nesse disco rolou um cuidado especial com a sonoridade, na mixagem com o peso do groove e da batida. Gravamos uma parte do disco lá fora, em Nova Iorque, e outra no Rio. Parte do disco foi mixada pelo Troy HighTowers, um engenheiro de mixagem que tem no currículo LLCool J, DeLaSoul, Fugees, e um monte de outros nomes que têm a qualidade que eu estava procurando. Eu e o Itaal Shur, meu produtor, gostamos muito do que foi feito. Outro cara que eu queria destacar é o Leandro Neurose, meu parceirão desde o início da carreira, e produziu uma faixa desse disco também. Tô orgulhoso porque é a primeira vez que ele produz uma coisa minha. No geral, foram nove músicas produzidas pelo Itaal, uma do Leandro, e uma do Berna Ceppas, que produziu uma faixa com a participação especial da Adriana Calcanhoto. Eu coloquei o clipe dessa música como faixa extra do novo CD. Ficou muito maneira!
mtv.com.br: No clipe de "Palavras Repetidas", você passa o tempo inteiro cantando debaixo da água. Qual é a idéia por trás disso?
Pensador: Eu estava com muitas saudades de fazer um clipe. Reencontrei o Oscar e o Nando, diretores com quem eu já havia trabalhado. "Palavras Repetidas" é uma música difícil e com o tema forte da violência. A gente queria passar uma idéia de angústia e aflição de uma maneira diferente, então resolvemos fazer o clipe inteiro debaixo da água, ao invés de ilustrar a letra com coisas do cotidiano e cenas jornalísticas. O uso da água no clipe não é literal, não tem sentido próprio. Eu quis passar a sensação de falta de ar, e do desespero que a gente sente vivendo atrás das grades, presos dentro de casa morrendo de medo. Os diretores escolheram um enquadramento bem fechado, claustrofóbico, para a filmagem, que se abre durante o refrão para dar uma aliviada. Também tem um lance de mudança de cores muito maneira. Acho que deu pra passar bem a emoção que agente estava procurando. A idéia deu um resultado incrível, fiquei empolgadão! Tenho que bater palma para os diretores, e para o Tim Tim, diretor de fotografia, que mandou bem pra caramba. Eu ainda investi um pouco mais do meu bolso para ver esse trabalho realizado, porque o orçamento da gravadora não dava. Valeu muito a pena!
mtv.com.br: Como foi ficar gravando tanto tempo debaixo d'água?
Pensador: Desde que a idéia surgiu, os diretores me perguntaram: “Gabriel, você vai agüentar ficar bastante tempo debaixo da água?” Porque o ideal era mostrar o sufoco do fôlego para que a galera tenha a sensação de que o ar vai acabar! Tínhamos uma equipe de mergulhadores lá para eu não precisar ficar subindo e descendo da água. Isso seria uma merda porque eu tinha que usar pesos para conseguir ficar em pé lá no fundão. Eu chamava o mergulhador e ficava respirando ali mesmo, submergido, até acalmar a respiração, até dar o sinal para mais um take. Em uma dessas eu fiquei meio doidão com aquele oxigênio da garrafa, e por mais que eu conseguisse agüentar o fôlego, eu errava a letra. Depois meu cérebro se acostumou e a gravação rolou bem. Fiquei a madrugada inteira na água, tremendo pra caralho, até o mergulhador pedir para eu sair porque estava com princípio de hipotermia. Me cuidei, botei uma roupa de borracha por baixo e caí na água de novo!
mtv.com.br: O que você acha do violento “gangsta rap” norte-americano? Não parece ser muito a sua praia...
Pensador: Desde 97 eu já comecei a criticar o rap lá fora, desiludido com os caminhos que ele estava tomando. Acho importante que uma parte da cultura hip hop também fale sobre diversão, azaração, mulherada, e tal. Eu me divirto no palco, canto muito sobre festa e sobre sexo. Lá fora, as minorias usaram a linguagem do rap para conquistar um status de igual para igual com os brancos. Os negros não tinham atores como galãs em Hollywood, e não tinham grana em geral. Surgiu o LL Cool J para ser o galã deles. Eu já não gostava muito dele com a onda de galã porque eu não curtia muito esse lado. Comecei a questionar os ideais por trás das músicas quando comecei a gostar de hip hop. Na época eu via um lado bom na ruptura de censuras, e também porque eu era moleque e toda essa putaria acaba sendo atraente para a molecada. Fui crescendo e entendendo... “Porra, porque que esses caras ficam esbanjando grana? Porque até o Ice T, que têm letras bem feitas e é um cara consciente, joga dinheiro no palco se os 'homeboys' dele são duros?” E aí ele mesmo numa entrevista explicou que essa era uma forma de dizer que os negros também podem. Sempre achei muito feio todo aquele ouro que acho caído, mas era justificável. O problema é que hoje em dia, isso virou a essência do hip hop. A cultura do gangsta, de ter grana e ostentar, de certa forma virou um incentivo à violência. Os caras se matam nas escolas em parte pelo cinema, televisão, e muito pelo hip hop. mtv.com.br: Você acha que a febre pega no Brasil?
Pensador: No Brasil eu não faria essa crítica ainda. Pelo o que eu vejo no geral, a galera ainda tem uma consciência bem maior do que lá fora, não nosso som como cópia desse estilo do hip hop de lá. Se tiver gente entrando nessa, vai ser a minoria. Eu não observei ainda ninguém seguindo esse mau exemplo. Se tem uma galera fazendo um som mais de diversão e curtição, eu acho que é relax, desde que não seja pregando o que é nocivo aos jovens, como é o que os caras pregam lá.
mtv.com.br: Você gostaria de ver o Presidente Lula sendo reeleito?
Pensador: Tá sendo uma decepção. Sempre falei bem dele, e acho que foi importante para o Brasil ter uma eleição de um cara como o Lula. Fiz inclusive uma música no "MTV Ao Vivo” chamada “Cara Feia”, que fala justo sobre o preconceito que rolava de ter um cara como ele no poder. Como aquela história toda do medo da Regina Duarte, que fez as pessoas duvidarem da capacidade dele por isso. Eu acho que ele demonstrou no começo que tinha condições de mudar muita coisa, mas acabou se envolvendo com uma rede de macacos velhos que sugam o sangue do Brasil há muito tempo. Agora ele está aí, apoiando esses caras… e se queimou feio defendendo neguinho sujo contra CPI! São coisas como essa que ele se envergonharia algum tempo atrás. Mesmo assim, ainda tenho simpatia pelo Governo e torço para que consigam resultados positivos. O legislativo me provoca muito mais raiva do que o executivo, mas é tudo muito misturado. Para ser sincero, desde que eles (PT) se aliaram ao PL antes da eleição, eu já fiquei decepcionado, mas continuei com a esperança que era uma opção para tentarmos uma mudança que ainda não veio na praça. Acho legal a gente enxergar que conseguiram manter ou até melhorar alguns índices econômicos. O problema é que na prática não mudaram a maneira de fazer política, no pior dos sentidos.
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