GABRIEL O PENSADOR
no site do Marcos Mion {SobControle}

Gabriel, o Pensador comemora 10 anos de carreira com disco Ao Vivo
(21.março.2003)

O menino Gabriel cresceu vendo de sua janela a maior favela da América Latina: a Rocinha, no Rio de Janeiro. O apelido pensador veio quando, ainda na adolescência, ele começou a escrever letras de músicas que refletiam sobre as desigualdades sociais brasileiras. A música ‘Tô feliz (Matei o Presidente)’ foi a primeira estourar nas rádios e seu primeiro disco vendeu 1,5 milhão.

Dez anos se passaram e mais quatro discos prosseguiram com o trabalho do rapper crítico e reflexivo. Agora, Gabriel, o Pensador comemora seus anos de música com o lançamento de um CD e um DVD Ao Vivo, bancados pela MTV. Na entrevista, Gabriel conta tudo sobre o novo trabalho, fala da nova situação política brasileira e ainda reflete sobre a Guerra do Iraque. Veja.

Você lançou disco em 93, 95, 97, 99, 2001 e agora em 2003. É superstição lançar álbum em anos ímpares?
Não, é por acaso, acabou saindo em 2003. Não tem superstição não, eu demoro um pouco para elaborar cada trabalho, fazendo as músicas, e neste caso foi um disco ao vivo. Mas, a gente curtiu bastante esta onda de fazer novos arranjos e acho que teve um tempo para saber que tipo de disco eu ia querer fazer também. Eu gosto de ter um espaço entre um disco e outro. Na verdade, a gente fez tudo mesmo, com a mão na massa, durante um mês de ensaio.

Vocês tiveram um tempo super rápido para o ensaio. Quais as dificuldades que encontraram?
Foi um mês de ensaio mesmo e um pouquinho antes para criar o repertório, escolher o que ia entrar de inédita. Acabou que foi por um lado bom porque a gente fez tudo com muito gás, porque tinha um prazo apertado mesmo e a motivação foi forte para todo mundo. Os músicos deram muitas idéias, a gente dividiu bastante essa criação. Mudou tanto as músicas de um jeito que eu nem imaginava. Nos entregamos a este espírito de renovação.

Como foi a escolha do repertório? Qual foi o critério para decidir o que ia entrar no disco ao vivo?
Eram cinco discos já e realmente tinha muita música. É uma coisa trabalhosa porque você acaba excluindo muita música que a galera curte, mas é inevitável. Eu procurei não deixar de fora muitas músicas que fizeram bastante sucesso e são boas de palco. Baseei-me nisso e também no equilíbrio entre estilos, porque acabei tendo no meu som uma parte que vai mais para o rock, uma parte mais dançante, outra parte calma. Neste disco tentei equilibrar na hora de escolher as músicas. E tem o equilíbrio do astral das letras, tem letras de protesto, outras mais alegres, outras com as duas juntas e aquelas mais intimistas, mais reflexivas.

Como rolaram as parcerias com Lulu Santos e os Titãs?
O Lulu tinha que estar mesmo, é um parceiro importante na minha carreira, fora a força que ele dá. Ele teve uma participação decisiva em duas músicas importantíssimas: O ‘Cachimbo da Paz’ e ‘O Astronauta’. Liguei pra ele perguntei qual das duas ele queria fazer e ele preferiu fazer ‘O Astronauta’. Foi uma das poucas músicas ou a até única que quase não mudou.

Já com os Titãs, eu fiz uma letra e o Liminha fez a música, e ela estava indo para o rock. Então, musicalmente lembramos dos Titãs e pelas vozes que queríamos também. Mas acima de tudo, acho pela personalidade deles para falar daquele tipo de assunto. Achei importante ter um convidado que não chegasse de pára-quedas e caísse numa letra daquele tipo e realmente eles deram o tom certo na interpretação.

O que você acha que mudou do Playboy de 93 para o Playboy de 2003?
Acho que o comportamento é bem parecido, mudaram alguns detalhes para pior. Antigamente, você não ouvia falar de agressão de homem e mulher na noite. Mas, este tipo de briga a ponto de um cara agredir as mulheres é novidade. O fato deles agredirem gay e terem essa homofobia, isso eu usei na minha crítica como uma forma irônica de abordar a questão sexual mal resolvida dos caras. E isso é uma coisa que acho bem absurda. E outra coisa é o pitbull, que é um caso a parte, que é uma moda recente também, mas quero fazer a ressalva porque tem muitos pitbulls mansos e nem todo dono tem a ver com este personagem da música. Além disso, cito os pais que vão lá buscar o filho na delegacia e passam a mão na cabeça e acabam incentivando este tipo de atitude ou comportamento.

E a ‘Loraburra’?
O Yuka (Marcelo – ex-baterista do Rappa) foi importantíssimo no disco e ele estreou como produtor. Ele fez a produção da ‘Lôraburra’, mudando bastante o som da música para melhor, todo mundo achou.

Ele também fez a inédita ‘Mandei Avisar’. Do que fala a nova música?
A letra emocionou a gente. Fala da amizade e o refrão que ele fez lembra que a amizade vale mais que dinheiro, uma frase bem óbvia, mas às vezes, as pessoas parecem estar esquecendo. A cultura individualista faz com que as pessoas esqueçam um pouco disto. Musicalmente foi uma música bem diferente, bem quebrada, com uma bonita melodia, adorei.

Em uma de suas entrevistas você considerou o Lula como personalidade brasileira. Agora que ele está no poder, acredita que as coisas irão mudar?
Acho que há esperança, mesmo para quem está criticando, cobrando e com pressa de ver as mudanças. Essa cobrança é fruto dessa esperança, o pior seria se a gente continuasse naquele caminho de cada vez mais cobrar menos da política. O povo agora está sabendo que é uma nova era, uma nova fase de política no país e sabe que é difícil porque quer ver as mudanças rolarem.

O que você tem a falar sobre a Guerra do Iraque?
O principal são as perdas de vidas de inocentes que sempre rolam, independentes da duração da guerra. Eu só lamento. O Bush foi um cara que foi eleito por menos de 20% dos americanos e os americanos também estão revoltados. Aí sim, acho legal falar que eu sou um cara nacionalista, falo bem do Brasil, critico as pessoas que são muito americanizadas, mas acho que o ruim é começar ter raiva dos americanos. O cidadão americano não tem nada a ver com isso. O Bush está conseguindo fazer com que o mundo inteiro alimente esse sentimento antiamericano, que prejudica, acima de tudo, os próprios americanos.

No Sobcontrole foi a primeira vez que sua banda tocou junta. O que você achou do resultado?
Achei ótimo, o som estava ótimo. Isso, as vezes, não é legal em programas de televisão porque o som não é tão bom e aqui estava bom. A galera estava animada e todo mundo participou bem. O Mion é um cara que me deixa bem a vontade, a gente fala a mesma língua, ele tem uma consciência legal sobre vários assuntos e está sempre bem informado. E também é bem humorado, acho que temos bastante coisas em comum e gosto dele, gosto de estar no programa dele.