GABRIEL O PENSADOR
no Jornal de Notícias, de Portugal (www)

"Gosto dos recomeços"
(07.junho.2005)

No novo disco "Cavaleiro andante" Rapper brasileiro reforça o seu estilo de intervenção social.

Marta Neves

Éconhecido pelo seu rap de intervenção com que vai tocando em temas delicados da realidade brasileira. "Cavaleiro andante", o novo disco, não é excepção, e marca, como admite o compositor, um "novo recomeço". O álbum, que traz um punhado de convidados, inclui um 'sample' de Sérgio Godinho, autor porquês que Gabriel o Pensador diz admirar. "A primeira vez que o ouvi chorei de emoção", confessou ao JN.

[Jornal de Notícias] Em "Cavaleiro andante" continua a expressar revolta contra a violência. Está decepcionado com o Governo de Lula da Silva?

[Gabriel, O Pensador] Estou. Na época em que fiz este disco até estava a tentar dar um resto de crédito. Mas agora, todo o mundo que ainda estava tolerando os erros dele perdeu a paciência. Comprometeram-se de mais com os políticos corruptos de sempre. E são já poucos os nomes que se salvam - como Gilberto Gil.

O que é que mudou na sua música desde que apareceu, em 1993, a criticar o Governo de Collor de Melo?

Muita coisa. A gente tenta mudar sempre, principalmente fazendo evoluir o som. Mas, em geral, o rap evoluiu bastante. Sempre tentei fazer fusões com outros estilos, e a maneira de dizer as coisas, tanto na forma, como no conteúdo, também vai mudando.

Mas a vontade de mexer com as consciências mantém-se...

Pois é! Isso é o lado importante da minha música. Mas também há um outro lado, que é uma parte mais divertida...

Como em "12 vezes por ano"?

[risos] É! Eu gosto muito desse lado, porque nos divertimos bastante nos shows. A música serve também para descontrair, para aliviar. Isso acaba por criar um grande contraste dentro do meu próprio espectáculo, porque ao mesmo tempo que paro para chamar a atenção para certas coisas, para falar a sério, também tenho esse escape. Se não a energia fica muito pesada o tempo todo.

Como foi ter voltado ao estúdio, depois do disco "MTV ao vivo"?

Foi ao mesmo tempo um reencontro com a composição, mas também uma busca por uma nova forma dentro dessa linguagem que é o rap. Houve uma inovação musical, muito influenciada pelo meu novo produtor, Itaal Shur, porque além de ele estar sempre muito actualizado, é também um músico muito versátil - conhece tudo de hip-hop e de música brasileira. E aí, ele brinca com os estilos. Ele é fera, mas eu sou suspeito para falar. No entanto, foi ele que guiou esse novo rumo.

Foi por influência dele que acabou por gravar parte do disco em Nova Iorque?

Foi, porque dessa vez fui atrás dele, em vez de o trazer para o Brasil. O básico do álbum, o principal, digamos assim, foi todo feito lá. Depois, ele veio ao Brasil para trabalharmos com os convidados.

Como aconteceram essas participações especiais?

A Adriana [Calcanhotto] já estava gravada no "Tás a ver". Com os Detonautas tenho uma ligação forte de amizade, muito antes de aparecerem no mercado discográfico. Eles abriam os meus shows e eu incentivava-os, mas nunca tínhamos feito nenhum disco juntos. A ideia concretizou-se quase no final da gravação. Já a Negra Li, estávamos a comentar que ela simbolizava aquela outra onda da curtição, falando da noite. E verificou-se uma novidade para mim, porque já tinha falado de sexo, mas de uma maneira muito mais cómica, enquanto a música que partilhamos tem um lado mais sensual [risos]. Ela tem essa sensualidade - além de ser uma rapariga que canta bem e é bonita.

A inclusão da voz de Renato Russo em "Palavras repetidas" foi uma homenagem aos 20 anos dos Legião Urbana?

Foi! Eu sempre 'samplei' coisas que gosto. Essa, especialmente, é coisa de fã. Adoro o trabalho deles! Peguei uma música que é dos clássicos da Legião e ela caiu ali como um antídoto daquilo que a música vem dizendo.

Qual a intenção de também ter 'samplado' o português Sérgio Godinho?

Outra homenagem. Ele é um cara que já virou meu amigo. Quando ouvi o trabalho dele pela primeira vez, chorei de emoção.

O que significa "Cavaleiro andante", neste momento na sua carreira?

Pelo facto de ter ficado muito tempo com a digressão do "Ao vivo", este novo disco tem um gosto de recomeço.