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GABRIEL
O PENSADOR
"Nós
somos bundões"
Revista
Isto é Gente
Por
Rosângela Honor
Cantor
critica políticos espertos e nudez na tevê e diz
que não usa drogas
Filho
da jornalista Belisa Ribeiro e do médico Miguel Contino,
o menino Gabriel Contino passou parte de sua infância e
adolescência em São Conrado, um dos bairros mais
contrastantes da zona sul do Rio. Da janela de sua casa, ele vislumbrava
a maior favela da América Latina, a Rocinha. Foi ali que
Gabriel presenciou desde cedo o abismo entre ricos e pobres, que
o inspiraria mais tarde a compor suas músicas. Quando trocou
a faculdade de Jornalismo pela carreira de músico, teve
o apoio dos pais. O rapper Gabriel O Pensador surgiu em 1992,
quando a música "Tô Feliz (Matei o Presidente...)"
estourou nas rádios. O sucesso lhe rendeu seu primeiro
contrato com a Sony Music, sua atual gravadora. Mas foi em 1997,
com o CD Quebra Cabeça, que Gabriel O Pensador conquistou
a marca de 1,5 milhão de cópias vendidas. Hoje,
aos 25 anos, acaba de lançar seu quarto CD, Nádegas
a Declarar, cuja principal música é "Cachorrada".
Em entrevista a Gente na praia de São Conrado, depois de
surfar, ele disse que não se considera um porta-voz dos
menos favorecidos. Também rejeita o rótulo de machista
e defende o direito de as mulheres serem cachorras, embora reclame
da overdose de bundas na tevê. Diz que é suscetível
aos efeitos do álcool e da maconha, mas teme ser mal interpretado
caso venha a defender a legalização da droga.
Você
quer provocar polêmica em seus discos?
Sei que algumas vezes pego mais pesado do que o tema pede. É
o meu estilo. Isso aconteceu com a música "Lôraburra".
Às vezes exagero na dose de agressividade e de sarcasmo
para chamar mais atenção. Então, sob este
aspecto, a polêmica é intencional, quero mexer com
a cabeça das pessoas. Na música "Nádegas
a Declarar" quero mostrar um outro lado, o da bundalização
do Brasil. Não sou um cara moralista. Mas é a visão
de uma pessoa que defende outras questões a serem discutidas.
A cultura está concentrada na bunda. Só vemos isso
na televisão e nas músicas. Só tem mulher
de biquíni mostrando a bunda. Chega a incomodar, é
muito repetitivo e sem conteúdo.
É
uma crítica às bailarinas do Tchan, à Tiazinha
e à Feiticeira?
Não é nada pessoal. Não é contra
ninguém. É para mostrar que assim como tem a bunda,
tem a cabeça também. A garota que estiver ouvindo
minha música não deve pensar que a bunda é
a única saída. A cultura da bunda não é
só uma coisa da mulher, é do homem também.
Não tenho nada contra danças, coreografias, mas
acho que passou do ponto. Estamos vivendo uma overdose de bundas.
Hoje é a vez da lingerie, amanhã será do
vibrador. Sou responsável nas minhas letras e nas coisas
que faço. Pensei duas vezes antes de colocar um fio dental
na capa do disco. Achei que cabia dentro de uma visão irônica.
Não quero ser moralista demais, mas acho que as pessoas
têm que ser mais responsáveis. Não faço
músicas para decretar nada, mas acho muito legal discutir
essas questões.
A
música "Cachorrada" é uma provocação
às mulheres?
Não. A situação dita na música
acontece com homem e com mulher. Tem gente que só está
a fim de transar, de curtir mesmo. Nas discotecas, os DJs colocam
a música "Cachorrada" e na hora do refrão
a mulherada grita: "Eu sou cachorra". Não queria
provocar polêmica. Estou casado há cinco anos, mas
tenho amigos que saem, que são cão de caça.
E eles contam que tem muita cachorra por aí. Estou valorizando
a gata de responsa. Às feministas que me criticarem devo
dizer que existe cachorra sim e que estou fazendo uma crítica
construtiva, de maneira brincalhona. E vale o inverso também.
Tem o homem cachorro e tem o decente e respeitador, como eu.
Em
algumas letras você fala de temas delicados e até
perigosos. Até que ponto vai sua ousadia na música?
É gostoso brincar com temas perigosos, mas sem arriscar
meu pescoço. Muitas vezes não é uma idéia
pensada, surge espontaneamente.
Quem
são os políticos "bundões" que
você cita na música "Matador", de seu último
disco?
Nós somos bundões. Os políticos são
espertos. Eles estão se dando bem e nós, os brasileiros,
é que estamos mal. Estamos tão preocupados com a
bunda que acabamos virando bundões. Para mim, o bundão
é aquele cara que fica sentado no sofá em frente
à tevê e que não faz nenhum protesto. A culpa
não é da Tiazinha. Não é para levar
para esse lado. Quero mostrar que a gente pode usar mais a cabeça.
Isso não é uma discussão pequena.
O
humor é a marca de seu trabalho?
É um traço da minha personalidade. Sou muito
brincalhão, sacana, criativo para falar besteiras. Gosto
de fazer piadas com os amigos, de brincar. É legal saber
que as pessoas se divertem quando ouvem meu disco ou assistem
a meu show. Acho um privilégio fazer as pessoas se divertirem.
Você foi acusado de fazer apologia da maconha...
"Maresia" falava sobre a liberação da
maconha. Mas até hoje eu não sei se quero que a
maconha seja liberada. Não é fácil, não
sei se vai adiantar alguma coisa. Tem muita gente que acha que
sou consumidor. Já fumei algumas vezes, mas nunca comprei.
Sou muito fraco para bebida, para maconha... Nunca tomei um porre.
Eu sou muito careta. Às vezes tomo uma taça de vinho
e fico tonto. Se eu der um tapinha num baseado fico doidaço.
Se tomar ácido, acho que não volto. Eu me divirto
tranqüilamente sem precisar de drogas. Fico com medo das
pessoas acharem que "Maresia" é apologia. Não
é. Tem que existir alguma mudança na lei. Acho ruim
o cara ser julgado, ser preso por causa da maconha. Na letra eu
quis falar mais disso, dessa hipocrisia e da falta de critério
em relação às drogas.
Afinal,
você é a favor ou contra a descriminação?
Estou tentando não ficar em cima do muro, mas a questão
é muito delicada. Acho que poderia ser testada uma nova
lei. Sou contra o que é feito hoje, que na verdade é
um incentivo ao tráfico. Muita gente ganha dinheiro com
o tráfico, até a própria polícia.
Muitas vezes um consumidor é preso e condenado como se
fosse um traficante. Se comparar a maconha com a cachaça,
não sei qual é o pior. Acho que as pessoas deveriam
ter o direito de fumar porque é uma coisa muito comum,
muita gente fuma. Acho que poderia ser testada a legalização.
Mas tenho medo de acabar incentivando o uso de outras drogas.
Sou totalmente contra cocaína, crack e outras drogas mais
pesadas. Eu nunca experimentei.
Em
que períodos você experimentou maconha?
A primeira vez que experimentei tinha 14 anos e depois fumei
algumas outras vezes. Mas nunca fui um consumidor freqüente.
Nunca falei sobre isso, mas acho legal falar agora porque as pessoas
ficam achando que faço apologia. Até queria fazer
uma música bem clara contra as drogas, contra o álcool,
mas ainda não consegui. Queria mostrar que realmente estou
fora de drogas. Meu negócio é esporte, é
música. Acho que a gente pode viajar de diversas formas.
Já me chamaram até para fazer palestras. Nunca fui
porque acho que não sou bom para falar em público.
As pessoas acham que sou doidão pelo meu jeito de falar,
de me expressar. Acham que cheiro, que sou louco... Não
me preocupo, não tenho nenhum tipo de preocupação
com a minha imagem. Enquanto as pessoas acham que estou incentivando,
na verdade estou falando que não acho uma boa onda ser
doidão, maconheiro.
Há
uma preocupação social no seu trabalho?
Existe, mas acontece de maneira bem natural. O protesto e
a denúncia vieram desde as primeiras letras. Sempre tive
consciência e responsabilidade em tudo o que falo.
Você
se considera um porta-voz das classes menos favorecidas?
Não. Não acho que eu seja um porta-voz de uma classe
ou de alguns brasileiros. Falo como cidadão, de coisas
que me incomodam. Não me vejo como um defensor. Minha alma
não tem classe social, nunca diferenciei a classe dos outros
e nem a minha.
Como
as mulheres reagiram à música "Cachorrada"?
Não estou sendo cobrado pelas mulheres, está
claro que é uma brincadeira. Cachorra é a mulher
que ataca, que usa e abusa da sua liberdade sexual. Acho que ela
tem o direito de ser assim. Não estou recriminando. Mas
na letra é um cachorro que está a fim de uma gata
de responsa. Minhas letras são muito mais feministas do
que machistas. Só que eu tenho uma maneira agressiva de
falar, irônica. É preciso ter um mínimo de
atenção para entender.
Você
acredita que estamos vivendo uma nova mudança no comportamento
feminino?
Quando eu estava solteiro, o comportamento já era bem
moderno. Hoje parece que está mais liberal ainda, as mulheres
estão atacando mesmo. Acho que é preciso encontrar
um equilíbrio. A mulher tem que ter ousadia, iniciativa.
Não tem que esperar o homem começar alguma coisa.
Acho supernatural. Mas, às vezes, a mulher ataca como se
fosse um homem tarado. Mas acho tudo muito normal, tenho a cabeça
bem aberta para tudo.
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