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Feijão
Maravilha
Gabriel O Pensador é sucesso entre adultos, adolescentes
e crianças
Eliane Lobato
Revista ISTOÉ (19/09/2001)
Gabriel O Pensador tem
um jeito indolente como os malandros de morro. As aparências
enganam, pois, assim que ele abre a boca para gritar "Até
quando você vai levar porrada sem fazer nada?", refrão
da música Até quando?, sucesso nas rádios
do País, mostra um colar de dentes muito brancos e bem
tratados. Sem dúvida, é um garoto do asfalto da
zona sul carioca. Mas os temas purulentos de algumas de suas canções
só encontram paralelo em grupos musicais oriundos de favelas,
de presídios, das minorias. Seu quinto álbum, Seja
você mesmo, mas não seja sempre o mesmo, o consagra
como o rapper brasileiro mais famoso e só competindo em
polêmica com o arredio Mano Brown, figura de frente do grupo
Racionais MCs. Aos 27 anos, Gabriel O Pensador tem outras vantagens.
Suas canções agradam aos adultos, saudosos das antigas
músicas de protesto, encantam os adolescentes pelas propostas
- sempre renovadas - de mudar o mundo e conquistam o público
infantil pela ginga.
A tentativa de fotografá-lo
nas ruas do Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, foi um exemplo
da sua popularidade. Tumulto total no cerco feito a ele por uma
grande maioria de fãs mirins e juvenis, de diferentes castas
econômicas. "Porrada, porrada!", gritavam alguns
meninos com caixotes de engraxate nas mãos. "Você
conhece o Mário?/Cansou de ser otário", entoava
numa outra ponta a garota patricinha. "Porrada!!!",
berrou o motorista de um carro. São estrofes das novas
músicas, que estão na boca do povo, refletindo a
indignação geral. Corrupção, bandalheira,
excesso de bundas e bundões, desemprego, racismo, drogas
são alguns dos temas das composições, sempre
longas e não raro divertidas, como a música Ãh.
"Fui na padaria/falei bom dia/disseram ãh/Fui ver
televisão/na programação só tinha
ãh..." Na verdade, Gabriel não é autor
de versos polidos, cheios de referências literárias
ou de análises comportamentais como os de Cazuza ou Renato
Russo à sua época. Mas seu discurso cru é
incisivo e lhe dá a vantagem de ser democraticamente compreendido.
Injustiças - O
rapper carioca tem as antenas permanentemente ligadas nas questões
que o cercam, como as injustiças sociais que passam bem
longe de sua condição de cidadão, mas se
colocam bem perto de sua casa. Filho da jornalista Belisa Ribeiro
e do médico Miguel Contino, Gabriel mora em São
Conrado, bairro com o IPTU na estratosfera, mesmo sendo vizinho
da favela da Rocinha, onde tem amigos fiéis conquistados
na adolescência. "Dos 12 aos 15 anos, eu não
expressava consciência social, estava só preocupado
com o surfe. Mas meus amigos eram os caras da Rocinha", conta.
"O melhor deles, o Janjão, morava num barraco. Então,
de alguma forma, eu vivia essa realidade." Quando se aproximava
dos 16 anos, transmutado em playboy e pixador de muros, aos poucos
viu sua vida ganhar outros contornos, depois que começou
a compor. A primeira apresentação aconteceu num
baile funk na Rocinha, com o amigo Tripa. Em seguida vieram os
shows para os movimentos negro e estudantil. "Cantei em cima
da mesa no Realengo (subúrbio da zona norte carioca) e
em boate em Caxias (Baixada Fluminense). De graça, claro",
relembra.
No início dos anos
90, um amigo levou uma fita com a música Tô feliz
(Matei o presidente) para uma rádio. Sucesso instantâneo.
Nasceu o rapper e foi abortado o jornalista que poderia ter se
formado na Faculdade de Comunicações da Pontifícia
Universidade Católica (PUC), a qual frequentou durante
apenas um ano. Gabriel virou O Pensador. Mas, por que a denominação?
"Tem tudo a ver com meu jeito de parar e ficar viajando...",
explica, sem muitos adendos. Embora tenha a fama de maconheiro
e defenda a liberdade de escolha, Gabriel - há seis anos
casado com Ana Lima - não passa de um bom, um ótimo
rapaz. Não frequenta a noite, não bebe, não
fuma tabaco, não usa drogas pesadas. "Já fumei
maconha, hoje não mais", afirma. Ele só se
reconhece radical na atitude de jamais trocar seus ideais por
dinheiro. Gabriel, o cauteloso, mede bem as palavras ao comentar
o fato de sua mãe ter coordenado a campanha que elegeu
Fernando Collor de Mello a presidente, em 1989. "Ela agiu
como profissional de comunicação que é. Nunca
cobrei nada dela. Só não conseguiria fazer um trabalho
político por grana", diz. "Mas não quero
parecer melhor do que minha mãe, eu a admiro muito."
Em geral, os arroubos
de Gabriel rendem quilômetros de e-mails e cartas dos fãs,
todos batendo na mesma tecla. "Se outras pessoas seguissem
a mensagem que você passa, o País estaria muito melhor",
escreveu Murilo Paulucci de Oliveira, de Santo André, São
Paulo. "Tenho 32 anos e me deprimo com tanta corrupção,
falta de respeito, hipocrisia. Continue a se expressar assim,
pois isso serve para nos aliviar", endossou Antônio
Sérgio Alves de Oliveira, de Ribeirão Preto. As
identificações ainda são várias. Uma
professora de geografia disse trabalhar as letras das músicas
com seus alunos. Um morador de Curitiba criou um movimento social
usando pedaços das composições.
Também impressiona
a emoção que as pessoas afirmam sentir ao ouvir
suas canções. É a explicação
para os mais de 2,5 milhões de discos vendidos. O mais
recente, lançado no mês passado, já ultrapassou
a barreira dos 100 mil. A comemoração começou
com shows em Portugal e em Angola - com público nunca inferior
a 30 mil pessoas - e continuará na turnê brasileira,
iniciada no sábado 15, no Canecão carioca.
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