GABRIEL O PENSADOR
no Correio da Manhã, de Portugal (www)

Tinha saudades da batida eletrônica
(06.junho.2005)

De regresso aos trabalhos de estúdio depois do registo ‘MTV ao Vivo’, o ‘rapper’ brasileiro Gabriel o Pensador edita hoje em Portugal o seu sétimo disco, ‘Cavaleiro Andante’, que tem como convidado especial Sérgio Godinho.

Luis F Silva

Correio da Manhã – Qual foi a motivação maior e o desafio para este álbum?

Gabriel O Pensador – A motivação foi o ter de apresentar uma novidade, uma forma diferente de falar, algo de que não tivesse ainda falado. No fundo, evoluir. Mas, para este disco, tinha de facto uma motivação especial: voltar ao estúdio depois do disco ao vivo. Tinha saudades da batida electrónica e de usar o ‘sample’ como recurso criativo. E, ao mesmo tempo, pensando como transportar o disco, com uma grande fidelidade, para os ‘shows’, coisa que nunca fiz porque sempre deixei uma liberdade muito grande para o palco.

– O disco leva o título de ‘Cavaleiro Andante’. Há algum significado especial?

– É o título de uma canção e tem a ver com o modo como foi feito, viajando do Rio para Nova Iorque e vice-versa, e porque tem músicas de vários lugares. E tem também músicos de muitos lugares, um cubano, um colombiano, um israelita, um brasileiro... É um título que está mais ligado a mim do que ao trabalho do disco. Porque tenho um lado romântico que remete para D. Quixote, tenho um lado maluco que é um maluco idealista, sonhador e aventureiro, que é a vida da estrada, de músico, e essa música fala disso, de uma maneira orgulhosa, até.

– No 24 Horas TMN mostrou um subtil afastamento do hip hop e este disco parece confirmá-lo, embora a matriz se mantenha. Como se o Gabriel quisesse dizer que não é só um músico de rap-hip-hop. É assim mesmo?

– Essa abertura já a tinha mostrado no penúltimo disco, que tem mais rock e outras coisas que já vinham de trás. No ‘Ao Vivo’, por exemplo, fiz um trabalho bem musical, cheio de arranjos e diferente do que a maioria dos ‘rappers’ faz. Por isso é algo que já está incorporado em mim. Neste disco, curiosamente, acho que há uma volta ao rap, pela batida, mas é um rap diferente, feito com um músico brilhante, o Itaal Shur, que ganhou Grammy. Ele produziu nove músicas, compôs oito e produziu também o ‘Palavras Repetidas’, que nem assinou, e é muito ecléctico. Então, mesmo voltado para o rap, que ele também conhece e gosta, acabou trazendo uma bagagem enorme, e eu como já tinha feito, peguei noutras referências, o Tom Jobim (em ‘Bossa 9’), a Legião Urbana mostram que, musicalmente, eu também ouvia outras coisas. Tem até o Sérgio Godinho. As minhas raízes têm outras coisas também.

– As suas letras evidenciam um olhar acutilante sobre tudo o que o rodeia. Existe alguma preocupação de fazer canções de ‘intervenção’?

– É... acho importante falar de outra maneira também. No ‘Sorria’, por exemplo, gostei de pegar nas frases soltas, nas regras que a gente tem impostas o tempo todo, no tema da liberdade vigiada. A intervenção é natural e tem outras letras que falam de violência, como no ‘Palavras Repetidas’, que, infelizmente, é uma coisa que as pessoas precisam de ver. É uma canção que fala do mundo que está ‘pirando’, e de como a gente deve olhar a tempo para o amor como saída, como uma arma para enfrentar essa violência. O tiroteio que está no disco foi gravado da minha varanda. No dia seguinte, tinha até uma bala de fuzil lá...

– De que forma é que Portugal já está impregnado na sua música?

– Acho que este disco fala bastante de Portugal, não só no ‘Tás a Ver’ (com ‘sample’ de Sérgio Godinho), mas fala da estrada no ‘Cavaleiro Andante’, no ‘Tudo na Mente’ é das coisas por que já passei e Portugal está aí. Não tem nada específico, não tem nenhum convidado – além do Sérgio [Godinho] –, mas Portugal já me é intrínseco.

– E para quando um regresso a palcos portugueses?

– Ainda não está confirmado, mas no final de Julho, início de Agosto, devo estar voltando com um novo espectáculo, mais preparadinho. Tomara que dê certo!

INTERVENÇÃO NA FAVELA DA ROCINHA

A intervenção social de Gabriel não se limita apenas às letras das canções. Desde há dois anos, o músico patrocina um projecto (Pensando Junto), na favela da Rocinha.

“É um grupo pequeno, 30 crianças, a quem damos aulas de português, informática, matemática, e apoio de alimentação e saúde. É uma coisa que vai funcionando bem, tem uma empresa que apoia e tem uma fila de criança tentando entrar. Não é nada maravilhoso: tem crianças que não se adaptam, tem outros que têm de sair, mas é uma atitude de amor, acima de tudo. Na prática funciona e mostra como é possível tratar o social com carinho”.

PERFIL

Natural de São Paulo e oriundo de boas famílias, Gabriel Contino iniciou a sua carreira de ‘rapper’ como Gabriel O Pensador em 1992 com o polémico tema ‘Tou Feliz (Matei o Presidente)’ e, dois anos depois, assinou contrato com a Sony para a edição do álbum de estreia homónimo, que teve no single ‘Lôraburra’ o grande responsável pelo disco de ouro que alcançou em Portugal.

Seguiram-se ‘Ainda É Só O Começo’ (1995), Quebra-Cabeça’ (1998), ‘Nádegas A Declarar’ (1999), ‘Seja Você Mesmo Mas Não Seja Sempre O Mesmo’ (2001) e ‘MTV Ao Vivo - Gabriel O Pensador’ (2003). Em 1998, os U2 escolheram-no para abrir os concertos no Brasil.

A criatividade, a irreverência e a qualidade do seu trabalho fazem de Gabriel uma das maiores figuras da música de expressão portuguesa.