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GABRIEL
O PENSADOR
na Revista Capricho
"Pensando
bem"
(Rodrigo Leão)
O rapper carioca
Gabriel O Pensador é o inimigo número um dos playboys
e das loiras burras. Mas, por trás das letras engraçadas
e polêmicas, existe um cara sério e compenetrado
que tem muito a dizer.
Sentado na
minha frente num apartamento de quarto e sala na Tijuca, Rio,
está Gabriel "O Pensador", o rapper carioca que
com o hit Retrato de um playboy invadiu as paradas de sucesso
como um touro solto na multidão.
Está sem camisa, vestindo um bermudão azul e chinelos
de dedo. A barba comprida, porém rala, entrega os 19 anos.
Apesar de estar em casa, possivelmente no ambiente em que fica
mais à vontade, Gabriel é do tipo casmurro, respondendo
cada pergunta com a seriedade de um aluno fazendo uma prova oral
de Direito Romano.
Entusiasmo, mesmo, só quando o assunto é hip-hop.
Não era pra menos, foi esse amor ao estilo que lhe deu
determinação suficiente para ser o primeiro rapper
brasileiro a ter um disco lançado por uma grande gravadora.
Tem o olhar obstinado de um bandeirante disposto a delimitar as
fronteiras do seu território musical. Se você quer
saber a verdade, seu olhar parece muito com o do ex-presidente
Collor. As semelhanças acabam aí, as coincidências,
não.
Gabriel Contino é filho da jornalista Belisa Ribeiro, que
trabalhou como assessora de imprensa do ex-presidente. Até
aí, tudo bem. Se você tivesse recebido o salário
que ela recebeu, você teria feito o mesmo.
Além disso, foi graças à música Estou
feliz (Matei o Presidente) que em 92 Gabriel saiu do anonimato
e das pacatas aulas de Comunicação Social na PUC
do Rio para ganhar as páginas dos principais jornais brasileiros
e até de algumas revistas internacionais como a Time e
a Source.
"...Todo mundo bateu palma quando o corpo caiu/Eu acabava
de matar o presidente do Brasil/Fácil, um tiro só
bem no olho do safado/Que morreu ali mesmo todo ensangüentado...".
Foram estas palavras amenas e aprazíveis que deram ao Pensador
o prêmio máximo do mundo do rap: ter uma música
censurada (e logo a primeira!). O trabalho na divulgação
da música foi tão grande que ele teve que abandonar
a faculdade.
Playboys
por toda parte
Viajamos
no tempo até o fim do ano passado, quando a satírica
Retrato de um Playboy chegou simultaneamente ao número
um de várias das principais rádios do país
e da MTV. A letra da música esculhamba de uma maneira inteligente
e bem-humorada os playboys, mas, no fundo, vem de um sentimento
triste que Gabriel ancora em relação às pessoas
da sua idade. "Eu não vejo muita coisa útil
nessa juventude, não.", diz, "eu quis criticar
os playboys porque eles são o tipo de jovem que eu vejo
do meu lado todo dia na rua. Ninguém nunca parou para criticar
a própria juventude. Mas muitos jovens se sentem mal em
ver a juventude assim."
A esta altura você deve estar se perguntando se eu vou ficar
falando de música e não vou falar do que interessa:
a vida pessoal do moço.
Não seria de todo errado dizer que a vida afetiva dele
ainda é uma página em branco. Dê um desconto,
ele vai fazer 20 anos no dia quatro do mês que vem. "Eu
só namorei uma vez, quando tinha 17 anos. Foi com uma menina
chamada Gisela, durou dois meses, mas foi legal", conta.
Ele explica que não namora porque não encontra uma
pessoa legal e que não vale a pena gastar tempo com alguém
que não gosta. O que procura é uma menina "que
saiba conversar, que seja independente e goste de ter opinião
sobre as coisas".
Talvez daí tenha vindo a inspiração para
fazer o seu segundo hit, Lôraburra: "Existem mulheres
que são uma beleza/Mas quando abrem a boca hmm que tristeza!/Não
, não é o seu hálito que apodrece o ar/O
problema é o que elas falam que não dá pra
agüentar...".
Vovós, donas de casa, padeiros, playboys, manicures, crianças
e qualquer outro vertebrado com o senso de humor maior do que
o de uma empada se identifica com as letras engraçadas
de Gabriel. Mas não vá esperando encontrar pela
frente um mestre de conversação. Pergunto o que
tem lido e ele responde que não tem lido quase nada, mas
que ler é um ótimo hábito e que ele deveria
ler mais. Pergunto se gosta de MPB e ele diz que não conhece
o assunto o suficiente para ter uma opinião, mas que gosta
do que ouviu. O padrão das respostas segue nesse ritmo:
não gosta de sair à noite, não bebe, não
fuma e não lê poesia. Se a sua vida fosse um trem,
os trilhos se chamariam hip-hop.
Gabriel leva a vida a sério. Pensa sobre tudo que faz e
diz. Sabe que as acusações que faz contra a própria
juventude são polêmicas. "Eu acho legal que
tenha gente que concorde e discorde. Tento passar um ponto de
vista bem definido, e não simplesmente rodear o assunto."
Então, vamos de um assunto polêmico: drogas. Em especial
a maconha, que recentemente vem sendo associada à cultura
do hip-hop americano através do trabalho de bandas como
Cypress Hill e rappers como Snoop Doggy Dogg. "No Brasil,
muitos jovens, tipo o playboy de que falo, fumam maconha para
achar que estão sendo rebeldes como os seus pais ou com
a sociedade. Na verdade, não estão sendo nem um
pouco rebeldes. Enganam a si mesmos e acabam se alienando. O importante
é ficar de pé no chão diante da vida."
Orgulho
de ser brasileiro
Mesmo fazendo uma música eminentemente americana, o rap,
e fazendo parte da cultura dessa música, o hip-hop, Gabriel
é um nacionalista declarado. No seu caso, onde a afirmação
ocorre pela negação (faz a música do playboy
para afirmar-se como não-playboy) ser nacionalista significa
falar mal dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, dedica a maior parte
da sua vida a um estilo de música popular americano.
Mas, dentro dessa confusão de sentimentos opostos, ele
justifica o seu patriotismo de uma maneira sensata. Para ele,
ser nacionalista "não é querer atenuar os problemas
do Brasil e falar que o Brasil é bom. É não
ter vergonha de ser brasileiro apesar dos problemas que o Brasil
tem".
Podem dizer o que quiser, mas Gabriel sabe o que quer, sabe quem
é e está disposto a fazer com que as pessoas se
posicionem em relação às suas atitudes e
crenças. Fazendo isso, está ajudando a "juventude"
(ele parece não se incluir na categoria) a descobrir a
sua cara. Num Brasil melhor, o Pensador poderia descansar um pouco.
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